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Seleção brasileira ou time do Dunga? O encanto que se perdeu...

02/06 - 15:49 - Ricardo Kotscho

Bem agora, que o país todo está celebrando os 50 anos da conquista da nossa primeira Copa do Mundo, na Suécia, naqueles bons tempos de Pelé, Garrincha e Didi, pela primeira vez na vida eu esqueci de ver um jogo da seleção brasileira. Pois é, perdi aquele amistoso do Brasil na madrugada do último sábado para domingo.


No sábado, fui dormir na hora de sempre, lá pelas onze da noite, e só no dia seguinte, ao abrir o computador, me dei conta de que o Brasil tinha jogado na véspera (contra o Canadá, em Seattle, nos Estados Unidos, um sofrido 3 a 2 para nós, com gols de Robinho, Luis Fabiano e Diego, na 27ª partida do técnico Dunga).

Até algum tempo atrás, perder um jogo da seleção brasileira era algo inimaginável para mim. Dias antes, já começavam os preparativos, ou seja, combinar com parentes e amigos onde iríamos ver o jogo, providenciar cervejas e petiscos, todo mundo brigando para escalar a “sua” seleção. 

Não importava se o jogo era um simples amistoso ou final de Copa do Mundo _ o ritual era o mesmo. Na decisão de 1958, contra a Suécia, quando ainda não tinha transmissão ao vivo pela TV, fomos todos para a casa de um colega do Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, que era dono do rádio mais potente da região.

Lembro-me que o rádio foi instalado sobre o muro da casa, na calçada, e começou a juntar muita gente, era mesmo aquilo que o Nelson Rodrigues chamava de “pátria de chuteiras”. O respeitoso silêncio de missa só era quebrado quando saía um gol do Brasil _ e foram cinco neste dia em que os brasileiros lavaram a alma e se apaixonaram por sua seleção de futebol.

Qualquer criança sabia declamar a escalação do Brasil em cada jogo da campanha na Suécia. Hoje, quem é capaz de dizer qual o time que vai entrar em campo no próximo jogo da seleção? De vez em quando, como aconteceu recentemente com um certo Afonso, entra em campo um jogador com o uniforme da seleção que nunca ninguém viu mais gordo em campos brasileiros.

Fosse só eu, tudo bem, eu estou mesmo ficando velho e peguei este hábito de dormir cedo. Mas, no domingo, na festa de aniversário do meu neto, não ouvi ninguém falando do jogo do Brasil, nem para saber quanto foi. A seleção brasileira, quem diria, deixou de ser assunto. Ganhar ou perder, tanto faz, não muda mais o humor das pessoas.

Isso, claro, não aconteceu de um dia para outro. O desinteresse pela camisa amarela vem num crescendo desde que os “estrangeiros”, quer dizer, os jogadores brasileiros que atuam no exterior, passaram a ser a maioria e depois a quase unanimidade dos convocados pelo técnico Dunga.

Como ele também nunca dirigiu qualquer clube brasileiro _ aliás, nenhum outro time no mundo, que eu saiba _ também não há identificação com o treinador e são poucos, fora os especialistas da crônica esportiva, os que sabem onde atua cada um dos convocados para a seleção, uma lista de alta rotatividade.

Acabou aquela rivalidade para saber quem fornecia maior número de jogadores para a seleção, se o Rio ou São Paulo, se o Botafogo ou o Santos, o Palmeiras ou o Corinthians, o Flamengo ou o São Paulo. Nada contra o Dunga, que até procura escolher os melhores disponíveis no mercado e tem se saído na função melhor do que a encomenda.

Só que, com o passar do tempo e esta diáspora que não tem fim, e já não perdoa nem jogadores juvenis, logo atraídos por dólares e euros, a seleção brasileira deixou de ser uma paixão de todos nós e passou a ser tratada como o time do Dunga _ um time que às vezes joga bem, às vezes joga mal, mas há muito tempo não empolga ninguém, nem mesmo nossos antigos ídolos.

Pode até vir a ser campeão do mundo novamente, mas virou apenas mais um time, a seleção de uma grande e rentável empresa chamada CBF. Perdeu aquele encanto que conquistou há exatos 50 anos.

Caros leitores

Devo uma satisfação às dezenas de leitores que enviaram comentários sobre a coluna que escrevi no domingo, depois de perder a paciência com mais um jogo melancólico do meu São Paulo.

De fato, como observaram vários destes leitores, não sou um especialista no assunto, um comentarista esportivo à altura de um Juca Kfouri ou um Milton Neves, embora já tenha feito a cobertura de duas Copas do Mundo (no “Estadão” e na “Folha”).

Mas, como qualquer brasileiro, gosto muito de falar de futebol. Teve até leitor que me sugeriu para voltar a escrever sobre política, como se deste outro assunto eu entendesse mais. Há controvérsias...

Uma coisa não elimina a outra, e a grande vantagem da internet é justamente cada um poder escrever o que pensa a respeito de qualquer assunto, sem pedir licença nem querer agradar a ninguém.





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