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Vida rural: o velho interior, onde a cana ainda não chegou

11/05 - 13:29 - Ricardo Kotscho

Quem viaja pelo interior de São Paulo já se acostumou com a monotonia da paisagem: é aquele mar verde de cana de açúcar a perder de vista, tomando o lugar de pastos e outras plantações de antigamente.

Manoel Marques
Paisagem do interior de São Paulo

 

É canavial para todos os lados, e não só na chamada Califórnia Paulista, que surgiu em volta de Ribeirão Preto com suas monumentais usinas. Castelo Branco, Bandeirantes, Anhanguera, qualquer estrada que você pegue, vai encontrar fatalmente o mesmo cenário de monocultura.

 

Talvez por isso eu tenha ficado tão feliz ao encontrar paisagens bem diferentes na viagem que fiz esta semana a São Bento do Sapucaí, bem na divisa de São Paulo com o sul de Minas. Lá reencontrei lugares e personagens do velho interior paulista tão bem retratado nos livros de Monteiro Lobato, que é dessa região, e de Antonio Cândido, que há mais de meio século escreveu o clássico “Os Parceiros do Rio Bonito” sobre a vida do caipira.

Manoel Marques
Vida pacata no interior
Nesta bela paisagem do contraforte da Serra da Mantiqueira, perto de Campos do Jordão, onde boa parte da mata está preservada, ainda prevalecem as pequenas propriedades com suas lavouras de subsistência (arroz, feijão e milho), vacas no pasto e galinhas no quintal, as casas humildes pintadas de branco com portas e janelas azuis, mais gente andando a cavalo do que de moto, sem pressa.

Desconheço os motivos, mas aqui a cana ainda não chegou. Estância climática, a 182 quilômetros de São Paulo e a 886 metros do nível do mar, faz bastante frio em São Bento nesta época do ano, um atrativo a mais para os turistas que movimentam nos fins de cidade esta pacata cidade de 10 mil habitantes e 28 pousadas, bons restaurantes e muitas histórias.

Estive lá para fazer uma reportagem sobre o lendário Quim Costa, um dos últimos fabricantes de carros de boi legítimos - aqueles com “roda dura”, de madeira inteiriça, com seu canto rangido e chorado, trilha musical da nossa vida caipira -, que será publicada pela revista “Brasileiros” na edição de junho.

Aos 78 anos, ele está completando sete décadas de trabalho na lavoura e na oficina de carpintaria e nem pensa em parar. Mesmo sem encomendas, ele continua fabricando seus carros de boi num sítio no Bairro do Quilombo, bem perto de onde nasceu.

Vale a pena uma viagem até São Bento do Sapucaí mesmo que seja só pela paisagem do caminho e chegando lá puxar uma conversa com o velho Quim Costa para ouvir suas histórias de quando ainda não havia estradas de rodagem nem caminhões, e tudo era transportado em carros de boi.

Manoel Marques

Verde toma conta da paisagem

Sem cana de açúcar tomando conta da terra, com lavouras e plantações de todo tipo espalhadas morros acima e abaixo, ainda há outra vantagem: os pequenos sitiantes levam sua produção para vender na beira das estradas, transformadas em verdadeiras feiras livres nos fins de semana, com fartura de frutas e verduras.

Saindo da Carvalho Pinto em direção a Campos do Jordão e Santo Antonio do Pinhal, as estradas formam uma imensa praça de alimentação, com ofertas variadas, onde se pode comer bem e barato. Para quem gosta de esportes de aventura, um belo passeio leva ao complexo da Pedra do Baú, com cachoeiras, rampa de vôo livre e trilhas na mata.

O casario colonial é bem conservado, dá uma sensação de paz andar pela cidade sem destino nem horário e, se sobrar um tempinho, recomendo o Salão do Joãozinho, não só pela barba feita no capricho, com três passadas de navalha, mas também pelo papo da freguesia reunida numa manhã de sábado.

Um mês

Pois é, o tempo corre. Neste domingo, dia 11, está fazendo um mês que voltei a escrever aqui no IG. Quero agradecer a todos os leitores que me enviaram tantas mensagens que o relógio contador de comentários já pifou três vezes (ele pára sempre nos 200, mas as mensagens continuam entrando). É um retorno maior do que o de muitos jornalões e revistonas por aí, que fazem um inventário semanal das mensagens recebidas.

Ainda estou tateando neste novo trabalho, escrevendo sobre um pouco de tudo, alternando reportagens/entrevistas com crônicas bucólicas como esta publicada aí acima. Está em fase de construção um blog, que vai se chamar “Balaio do Kotscho”, com estréia prevista para os próximos dias. Não percam!





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