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1968: Zuenir e Pandoro, um tempo sem volta

07/05 - 18:00 - Ricardo Kotscho

2008 está sendo um ano cheio de datas redondas e, portanto, de muitas comemorações: 200 anos da vinda da família real para o Brasil, 200 anos de imprensa brasileira, 100 anos de Associação Brasileira de Imprensa, 50 anos da conquista da primeira Copa do Mundo de futebol na Suécia, 60 anos da criação do Estado de Israel, os 40 anos de “1968”, e eu mesmo, que fiz 60 este ano.

Tudo parece estar fazendo muito tempo e isso nos dá, a toda hora, a noção exata do tanto tempo que passou, do tempo cada vez mais curto que nos falta. Esta semana mesmo, eu tive um bom exemplo de como o tempo não tem volta, nas voltas que a vida dá, e nos leva junto com ela.

Outro dia, peguei emprestado, ao passar pela redação da revista Brasileiros, onde também trabalho, um livro que queria muito ler: 1968 _ O que fizemos de nós, continuação da obra do meu colega jornalista e escritor Zuenir Ventura, que começou com 1968 _ O ano que não terminou, lançado faz vinte anos e agora reeditado pela Editora Planeta.

Como tinha um tempinho livre, vantagem de quem trabalha por conta própria, resolvi cortar o cabelo (?) com o velho Giba, na barbearia que fica na mesma rua da revista, a Mourato Coelho, na Vila Madalena. Ao me olhar no espelho, lembrei-me da primeira vez que fui lá. Ainda tinha bastante cabelo e uma barba grande e já antiga. Hoje, quase sem cabelo e de barba raspada, insisto em manter o hábito de passar pela barbearia uma vez por mês _ ao menos, para rever os amigos.

No caminho de volta para casa, resolvi parar no Pandoro, na avenida Europa, um bar do tempo do meu pai, Nikolaus, um engenheiro imigrante, que nasceu na Bessarábia e morreu aqui, no começo dos anos 60 do século passado.

Faz alguns dias que o Pandoro reabriu as portas, depois de passar um bom tempo fechado, sem a gente saber se um dia ressuscitaria. Já tinha tentado ir lá num sábado, mas a fila de espera era tão grande que desisti, e fui comer uma feijoada no Bolinha, um restaurante bem em frente, outro marco de uma época em que São Paulo _ e o meu mundo de menino _ acabava mais ou menos por ali.

Ainda tem o “caju amigo”, um drinque feito de vodca e compota de caju, que fez a fama do lugar, um ou outro prato do velho cardápio, um certo ar aristocrático de bar europeu do pós-guerra, tem agora até uma “hostess” muito bonita e elegante para receber a freguesia, mas não era mais o mesmo lugar.

Não encontrei nenhum conhecido nas poucas mesas ocupadas naquele final de tarde de segunda-feira, nenhum garçom do meu tempo, quando ia lá para comer o melhor pastel da cidade e tomar uma cerveja. Sozinho numa mesa junto ao janelão da varanda, que me oferece a mesma bela paisagem humana passando na calçada desta área nobre dos Jardins, comecei a folhear o livro do Zuenir Ventura.

Como dizia aquela propaganda da Globo, tudo a ver _ o livro e o lugar. O texto leve e elegante de Zuenir cativa o leitor desde o primeiro parágrafo da introdução, deixando no ar as perguntas para oferecer respostas nas 211 páginas seguintes:

“A geração de 68, que dizia não confiar em ninguém com mais de 30 anos, está completando 40. Ainda dá para confiar nela? 1968 terminou ou não terminou? Que balanço se pode fazer hoje de um ano tão carregado de ambições e de sonhos? O que restou de tantos ideais?”.

Engana-se quem imagina encontrar neste livro uma viagem idílica pelo passado só para o autor, nostalgicamente, falar que naquele tempo, sim, é que era bom de viver, que nós éramos muito melhores do que os jovens de hoje, ah, que saudades daquelas muitas revoluções de 1968, na política e nos costumes, etc. e tal. Naquele dia, só li até o segundo capítulo (“A culpa é de 1968 _ Como ainda dói nos filhos a lembrança do que os pais sofreram”), que é uma paulada na memória de todos nós, que vivemos este tempo de ditadura brava, torturas e assassinatos, e um alerta para as novas gerações darem mais valor à democracia e à liberdade, duramente conquistadas.

Anotei no guardanapo: 1968 _ O que fizemos de nós não é um livro para matar saudades nem alimentar ilusões. O pouco que li até agora deu para ter a certeza de que se trata de mais um belíssimo trabalho de jornalismo literário de Zuenir Ventura, um repórter de ofício que vai garimpar suas histórias lá onde e com quem elas aconteceram, sem se preocupar em criar teses nem ser o dono da verdade _ contando, apenas contando o que viu e ouviu.

Dei-me conta de que o tempo passou correndo novamente lendo as primeiras páginas do livro. Estava quase escurecendo, precisava pedir a conta. Estava na hora de ir buscar os netos na escola, uma preocupação que nem imaginava ter nos tempos do velho Pandoro, nos tempos idos e vividos e contados pelo Zuenir.

Vou pedir à Marinha, minha mulher desde aquele tempo, para guardar este texto e dar para os netos lerem somente em 2028, quando o Zuenir certamente lançará o próximo livro sobre 1968 _ o ano que não acaba nunca, apesar do que fizemos de nós...





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