28/04 - 20:32 - Ricardo Kotscho
Entre uma coluna e outra sobre política, passaram-se apenas cinco dias na semana passada - e, para muitos leitores, passei de repórter “chapa-branca”, petista e amigo do Lula, a colunista tucano, serrista e ligado a um tal de PIG.
No domingo, 20 de abril, entrou no ar uma entrevista exclusiva que fiz com a ministra Dilma Rousseff, em que ela falou sobre sua possível candidatura presidencial, CPI, PAC e todos os assuntos que há semanas estavam na mídia. Fiz o que qualquer repórter estava com vontade de fazer naquela semana: falar com a própria, posto que ela estava evitando dar entrevistas.
Repórter gosta de um desafio. Não foi fácil. Batalhei durante toda a semana para conseguir um buraco na agenda dela, pois, além de todos os atropelos políticos, a ministra ainda tinha o casamento da sua filha única, em Porto Alegre - e, em seguida, partiria para uma longa viagem ao exterior, começando pela Coréia do Sul e indo até os Estados Unidos, de onde volta nesta segunda.
Dei dezenas de telefonemas para Brasília e troquei outro tanto de e-mails, apelei a amigos comuns, aporrinhei a vida das assessoras, quer dizer, insisti até conseguir agendar a tal entrevista, finalmente marcada para a Base Aérea de Cumbica.
O vôo em que Dilma vinha de Porto Alegre atrasou e foi me dando aflição porque eu sabia que ela teria pouco tempo para conversar comigo entre um avião e outro. Para aumentar minha angústia, por razões que até hoje desconheço, o fotógrafo e eu ficamos confinados no cassino dos oficiais da Base Aérea até a chegada da ministra.
Que belo "repórter-chapa" branca!... Assim que a entrevista foi colocada no ar, no domingo cedo, começaram a chover comentários de leitores, boa parte deles esculhambando comigo, com a ministra, o governo, o presidente, o PT e o diabo a quatro. Faz parte do jogo, pensei, embora já tivesse deixado a Secretaria de Imprensa do governo havia 40 meses, em novembro de 2004.
Não tenho notícia de outra quarentena tão longa de um jornalista que deixou cargo público. Os ex-secretários de imprensa Evandro Carlos de Andrade e Carlos Castello Branco (governo Jânio Quadros), Raul Riff (João Goulart), Carlos Chagas (Costa e Silva) e Alexandre Garcia (João Figueiredo), por exemplo, voltaram ao jornalismo político logo depois de deixar seus cargos. Até aí, tudo bem.
Acontece que, cinco dias depois, na sexta-feira, dia 25, escrevi uma coluna sobre o nó que o governador José Serra tinha acabado de aplicar em seus adversários políticos ao conquistar o apoio de Orestes Quércia para Gilberto Kassab, seu candidato à sucessão municipal em São Paulo. Todos desejavam o apoio e o latifúndio de tempo de televisão do PMDB de Quércia - e Serra conseguiu. Estava apenas constatando um fato óbvio, do qual depois tratariam exaustivamente outros colunistas mais qualificados do que eu, mas foi o que bastou para começar um novo tiroteio, vindo agora da direção contrária.
Pela primeira vez, senti na pele o que devem sofrer meus colegas mais identificados com o tucanato (ou vistos como tal), quando se tornam alvos da fúria de admiradores de Lula e do seu governo. Tinham me acusado de ser "chapa-branca" e, agora, eu era detonado como mais um "agente serrista infiltrado na imprensa golpista".
Se o leitor duvidar, é só dar uma olhada nos comentários publicados ao pé das duas matérias. Foram mais de 300 na entrevista de Dilma (quebrou até o relógio contador de comentários que parou em 200) e outros 200 sobre o artigo em que falo do nó de Serra. Parecia até que o leitorado do iG tinha mudado inteiro no intervalo entre uma coluna e outra, algo como se um são-paulino entrasse no meio da torcida do Corinthians e vice-versa.
Confesso que por alguns instantes fiquei com crise de identidade. Onde foi que errei? Aos 60 anos, 44 de profissão, mais de três mil reportagens e 19 livros publicados, será que alguém ainda tinha dúvidas sobre o que penso, as minhas preferências políticas, partidárias, esportivas, religiosas, qual o meu lado na vida e na história - e quais os meus princípios na prática do ofício de repórter, que é o que realmente interessa?
Um "ombudsman" da Folha diria que isso é até bom porque, apanhando igualmente dos dois lados, o jornal ou o profissional mostraria a sua imparcialidade, neutralidade, objetividade, essas coisas todas em que nunca acreditei. Pois eu não concordo com essa tese. Acho que esse tipo de reação de boa parte dos leitores revela apenas sinais de fanatismo, desinformação, intolerância, sei lá, em que as pessoas estapeiam os fatos e a língua portuguesa para defender o seu time e xingar o outro como se estivessem numa arquibancada e não num debate de idéias na internet.
A certa altura, até esquecem o que o colunista escreveu e passam a brigar entre eles, para ver quem consegue ganhar na baixaria. Ainda não consegui entender qual é a finalidade destes arranca-rabos em que a maioria dos comentários é de autores anônimos que se identifica por estranhos codinomes como se pertencessem a alguma seita ainda não catalogada. Não reclamo de nada porque “quem está na chuva é pra se queimar”, como dizia o filósofo Vicente Matheus.
Mas é pena porque isso acaba espantando aqueles leitores que gostariam de utilizar este espaço para discutir assuntos de fato relevantes para a nossa vida e o País. Pela quantidade de mensagens e troca de xingamentos, torna-se humanamente impossível acompanhar os comentários e, mais ainda, debater com os leitores.
Aproveito apenas para dizer ao leitor Manoel Ferreira que reclamou da não publicação de um comentário e me perguntou qual a limitação de um blogueiro neste portal. Não faço nenhum tipo de moderação ou seleção de comentários, até porque não teria tempo para isso, e posso garantir ao leitor que também não tenho qualquer limitação àquilo que escrevo.
Sou o único responsável pelos meus textos - não tenho nem em quem colocar a culpa... Posso até desagradar à freguesia, mas acho que os leitores também deveriam assumir a responsabilidade por seus comentários, identificando-se corretamente, para que se possa criar neste espaço um debate mais civilizado e qualificado.

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