Cisão entre profissionais e amadores fez com que Brasil levasse ao primeiro Mundial equipe formada apenas por jogadores do Rio

Em 1930, ano da primeira Copa do Mundo, o futebol no Brasil refletia as disputas políticas da época. Assim como os partidos representavam interesses regionais, os clubes raramente ultrapassavam as fronteiras estaduais. Não havia no País uma disputa nacional e os dirigentes das federações regionais não se entendiam.

“De uma maneira análoga à política da época havia uma disputa concentrada, principalmente entre cariocas e paulistas. Era uma rivalidade regional, mas também uma briga entre os que defendiam a profissionalização do futebol e os que queriam que ele continuasse amador”, afirmou Flávio de Campos, professor do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo).

O desentendimento ocorreu entre os dirigentes da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), sediada no Rio de Janeiro, e da APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), de São Paulo. Devido ao racha entre as duas entidades, a seleção que representou o Brasil no primeiro Mundial foi para o Uruguai apenas com jogadores fluminenses.

Na Copa, o Brasil perdeu na estreia para a Iugoslávia, por 2 a 1, e nem mesmo a goleada contra a Bolívia por 4 a 0 livrou a equipe do vexame de ser eliminada na primeira fase. “A seleção de 1930 não é uma equipe nacional. Foram recrutados somente atletas do Rio de Janeiro”, disse Campos. “A verdade é que a construção da seleção acontece sem uma identidade nacional formada”, completou.

O principal motivo do racha entre os cartolas paulistas e cariocas era o debate sobre a profissionalização do esporte. A APEA defendia que, assim como já havia acontecido em outros países, tal regime deveria ser adotado no Brasil. A posição era rechaçada pela CBD, que deu origem à atual CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

Profissionalismo marrom

Até 1933, o jogador de futebol não era considerado no Brasil um funcionário do clube onde atuava. Os atletas não recebiam salários e não tinham qualquer direito trabalhista. Foi justamente três anos após a Revolução de 1930 que Getúlio Vargas oficializou a profissionalização do futebol. “Ele foi, talvez, primeiro governante a perceber e usar a popularidade desse esporte”, afirmou o historiador Waldenyr Caldas, autor do livro “O ponta pé inicial – A memória do futebol brasileiro”.

Até então, a única remuneração que os jogadores tinham vinha através de prêmios. Na época, a prática era conhecida como profissionalismo marrom. Após vencer partidas e títulos, os atletas recebiam os até hoje existentes "bichos". “Eles são chamados assim porque no início eram pagos com animais mesmo. Eles recebiam galinhas, porcos e marrecos”, explicou Caldas.

Abertura do futebol

A mudança aconteceu em um momento no qual o futebol ganhava popularidade. Antes restrito às elites, principalmente os imigrantes europeus, a modalidade começa a ser praticada por pessoas de todas as classes sociais a partir da década de 20 no século passado.

O Vasco da Gama foi um precursor nesse movimento ao aceitar, em 1922, negros na sua equipe. A ação deu certo e o clube conquistou o Campeonato Carioca do ano seguinte. As outras equipes da então Capital Federal questionaram a legitimidade do time atuar com operários e criaram uma liga para organizar o torneio do ano seguinte.

“O Vasco foi expulso da competição, mas depois foi aceito novamente. É que eles começaram a disputar uma espécie de segunda divisão, só que as partidas desse campeonato tiveram mais público que o principal, onde estavam as outras equipes”, afirmou Waldenyr Caldas.

Com o fim das restrições nos clubes, o futebol começa a se tornar mais popular. Entretanto, a manutenção do amadorismo, imposta pela CBD, impedia que muitos trabalhadores deixassem as suas profissões para se dedicarem ao esporte. “Era uma tentativa das elites de impedir a participação de classes subalternas nas práticas esportivas”, disse o historiador Flávio de Campos.

Bye bye, Brasil

Enquanto o Brasil ainda discutia o profissionalismo no futebol, os países europeus e até os vizinhos Uruguai e Argentina já remuneravam seus atletas desde 1924. A diferença de estrutura levou a uma realidade bem atual: a saída de jogadores brasileiros para equipes estrangeiras.

Ainda que bem mais pontual que nos dias de hoje, quando mais de mil jogadores deixam o Brasil por ano segundo dados oficiais da CBF, o êxodo começou a ser registrado nas primeiras décadas do século passado.

Segundo o jornalista Paulo Vinícius Coelho, no livro “A bola fora”, o primeiro jogador a deixar o País foi o meia Arnaldo Porta. Em 1914, ele trocou o Araraquara pelo Verona, da Itália. Nas duas décadas seguintes, outros seguiram o mesmo caminho. Eram, em sua maioria, descendentes de italianos que retornavam para a terra de seus antepassados.

    Leia tudo sobre: futebol
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.