Discurso ideológico dos anos 30 dá lugar ao pragmatismo

Eleitor quer resultados e melhorias, e não mudanças radicais, analisa o cientista político Valeriano Costa

Alessandra Oggioni, especial para o iG |

Há tempos que os discursos ideológicos e inflamados dos grandes líderes dos anos 30 já não fazem mais a cabeça dos políticos. O nacionalismo exacerbado comum na oratória de figuras como o nazista Adolf Hitler, o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt e o mandatário brasileiro Getúlio Vargas deu lugar ao pragmatismo.

Para analistas e historiadores, políticos da atualidade apostam na conquista do eleitorado com propostas mais práticas, deixando para trás posições ideológicas tão marcantes no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). “Nos anos 30, era muito mais forte o discurso radical e ideológico, diferentemente de hoje em que isso é evitado por quase todo mundo”, explica o cientista político Valeriano Costa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo Costa, o discurso ideológico extremista não atrai mais o eleitorado. Por essa razão, os políticos preferem agora manter suas falas mais subordinadas ao campo democrático. “A população em geral quer resultados e melhorias, e não mudanças radicais que coloquem em risco até mesmo o que já foi conquistado por ela.”

Assim como a crise econômica de 2008, a crise de 1929 nos Estados Unidos, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, foi considerado o pior e o mais longo período de recessão econômica do século 20 e que afetou as economias de todo o planeta durante os anos 30. Os efeitos, no entanto, foram diferentes. A ascensão do comunismo e do fascismo sequencial à crise definiu o ambiente da época, no qual líderes políticos acabavam vez ou outra se posicionando por esses extremos.

Políticos, como o presidente brasileiro Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), oscilavam constantemente entre as duas ideologias, com discursos ora de aspecto mais fascista, ora mais liberal. “Getúlio jogava o tempo todo com essa polarização. Ele tinha essa famosa capacidade de jogar com a ambiguidade do momento”, analisa Costa.

Para Francisco Alambert, professor de História Social da Arte e História Contemporânea na Universidade de São Paulo (USP), tanto o comunismo quanto o fascismo eram, na realidade, uma tentativa para reorganizar a vida social depois da calamidade promovida pelo liberalismo radical. “O que havia em comum entre todos era o desprezo e a desconfiança quanto ao liberalismo, que havia naufragado desde a catástrofe da primeira guerra e, sobretudo, com a crise geral do capitalismo desde 1929.”

Nacionalismo

nullO austríaco Adolf Hitler é um dos maiores exemplos de oratória carregada de “patriotismo”. A Alemanha do pós-guerra passava por uma grande transformação social, que tornou o terreno fértil para o crescimento de filosofias extremistas, como o nazismo liderado por Hitler. Diante de uma depressão econômica e com a proposta de criar o “Império Germânico”, não foi tão difícil avançar sobre o eleitorado alemão.

Com discurso antissemita e preconceituoso, o líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães conseguiu unir boa parte do País em nome da “defesa” da cultura local, nem que para isso fosse necessária a execução em massa dos povos judeus, ciganos e tantos outros considerados por ele como “indesejáveis”. “Hitler foi uma loucura que o povo alemão respaldou”, analisa a historiadora Marcia D´Angelo, doutora em História Social e professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP).

Em um de seus discursos a uma imensa multidão, Hitler encoraja os soldados a lutar pela causa nazista, contra tudo aquilo que considerava ameaça: o imperialismo inglês, os judeus e os comunistas. “Sei que vocês estão servindo a Alemanha com total devoção”, dizia ele. “Ele (o País) vê com orgulho seus filhos marchando em suas fileiras.”

No Brasil dos anos 30, o discurso nacionalista era uma das marcas do presidente Getúlio Vargas. Chefe da revolução que pôs fim ao período da República Velha (1889-1930) e figura central da política brasileira até o seu suicídio, em 1954, Vargas alimentava o sentimento patriótico. “Temos um destino a realizar, possuímos um vasto território, temos a mesma origem racial, falamos a mesma língua, temos a mesma história, a mesma religião, a mesma formação social, o mesmo sentimento de unidade de pátria. Precisamos povoar, trabalhar, educar, construir, formar riqueza, desenvolver a cultura, fortalecer a consciência nacional”, disse Vargas em um de seus discursos.

Vargas e seu discurso nacionalista by portal iG

Emoção e apelo às massas

Embora os discursos ideológicos e nacionalistas estejam “fora de moda” nos anos 2000, políticos não desprezam o apelo emocional nas oratórias, um recurso que também era bastante utilizado na década de 30.

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-atual) é um dos destaques nesse sentido. “Lula tem discursos fortemente emocionais, voltados para o reconhecimento da valorização da população mais pobre, do resgate da dignidade, da integração na sociedade, do aumento da renda, do consumo”, diz Valeriano Costa.

Lula também segue a linha utilizada por Vargas nos anos 30, no que se refere à incorporação dos “excluídos” em seus discursos, especialmente de certos setores da sociedade, como a classe trabalhadora. “Vargas foi um grande mobilizador das massas naquele momento. Ele fez um pouco daquilo que o Lula faz hoje: o apelo emocional rodeado pelos direitos sociais”, analisa Costa.

Outro líder que utiliza a oratória emocional é o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (2009-atual). Ao defender a recuperação da dignidade política, depois de longo período de governo republicano, os discursos de Obama são voltados para os direitos humanos e a democracia, assim como fez Franklin Delano Roosevelt na década de 30.

Em seu primeiro discurso após a vitória nas urnas, em 2008, Obama colocou uma boa dose de emoção ao falar para uma plateia de 125 mil pessoas, em Chicago: “Se há alguém que ainda duvida que os Estados Unidos são um lugar onde tudo é possível, alguém que se pergunte se os sonhos dos nossos fundadores ainda vivem, se ainda há alguém que questione o poder da democracia, a resposta foi dada essa noite”, disse.

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