Revolução de 30

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A década em que a mulher voltou a ser feminina

O período entre guerras viu a silhueta se ajustar no corpo a roupa esportiva nascer. No Brasil, costureiras copiavam a Europa

Redação iG Moda | 13/09/2010 12:00

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Após a crise de 29 e a euforia dos “anos loucos” de uma década marcada pelo pós-guerra e pela efervescência artística (anos 20), os anos 30 chegaram sem ousadia, inclusive na moda. A silhueta resgata a forma do corpo da mulher, perdida nos vestidos tubulares e com a cintura deslocada da década de 20, e até propõem decotes, mas sem exageros.

O comprimento da vez era longo, tanto para as saias, vestidos e até os cabelos. A modelagem, ajustada ao corpo e reta, ganhava estrutura com boleros e minicapas. Tudo produzido com tecidos e materiais como a casimira e o algodão, mais baratos, por conta do baixo orçamento herdado da crise de 29.

A grande revolução dos anos 30 foi a volta da cauda nos vestidos de baile, idealizada por Lanvin, mas sem as extravagâncias dos anos 20.

O chapéu volta ao posto de acessório número 1 (banido nos anos 20 por conta da moda de cabelos à La garçonne – curtinhos). O modelo capeline era o preferido, usado em quase todas as ocasiões.

Como novidade e uma ponta de ousadia, surgiram os decotes, a maioria da parte das costas, e o corte enviesado. Os seios voltaram a ter forma. As lingeries eram então feitas de malha. Surgiam os sutiãs e as cintas modeladoras (grand corsets), que até hoje prometem fazer milagres nos corpos femininos.

Em um tempo de paz, embora um segundo conflito mundial tenha eclodido no fim da década de 30, a vida ao ar livre ganhava força e com ela a prática de esportes e a exposição diária ao sol. Seguindo esse movimento, a moda adaptou saiotes e anáguas, que encurtaram, possibilitando à mulher bronzear as pernas.

Da necessidade de uma roupa apropriada para a prática de esportes, surge o short, para homens e mulheres. Uma das atividades físicas preferidas dos anos 30 era andar de bicicleta. Os óculos escuros transitam aqui do funcional ao fashion, protegendo os olhos contra raios solares e imortalizando figuras da música e do cinema. Os primeiros esboços do maiô começam a aparecer.

Por meio do cinema, que ganha voz nos anos 30, as mulheres se espelham nas estrelas como Greta Garbo, magra, bronzeada e esportiva. Outras celebridades da época que marcaram o estilo dos anos 30 foram Katharine Hepburn, Marlene Dietrich e Mae West. Esta última, estrela de clássicos dos anos 30 como "Night After Night" e "She Done Him Wrong", foi inspiração para a estilista Elsa Schiaparelli, em 1938, que lançou o perfume "Shocking", com frasco no formato do busto da atriz hollywoodiana.

Na maquiagem, a beleza marcava as pálpebras e sobrancelhas com lápis e não economizava no pó de arroz bem claro, quase branco.

Em 1935, o italiano Salvatore Ferragamo lança sua marca de sapatos. Nasce então uma das mais luxuosas e tradicionais maisons italianas, a Salvatore Ferragamo. A crise na Europa faz a empresa utilizar materiais mais baratos, de onde surgiram os primeiros registros de materiais sintéticos para a produção de calçados. Ferragamo inventou a palmilha compensada. Dona Gabriella Pascolato, falecida no mês de agosto de 2010 e fundadora da empresa têxtil brasileira Santacônstancia, era amiga e cliente de Ferragamo, quando ela ainda morava na Itália. Em sua biografia (“Gabriella Pascolato ¬ Santa Constância e Outras Histórias”. Editora Jaboticaba), Dona Gabriela afirma que só o designer italiano conseguia elaborar sapatos confortáveis para ela, que tinha o pé chato.

No final dos anos 30, com a aproximação da Segunda Guerra Mundial, que estourou na Europa em 1939, as roupas já apresentavam uma linha militar, assim como algumas peças já se preparavam para dias difíceis, como as saias, que já vinham com uma abertura lateral, para facilitar o uso de bicicletas.

 

Brasil
No Brasil, cuja economia não foi tão duramente atingida como a dos Estados Unidos com a crise de 29, e com o sistema de moda diferenciado do americano, a moda seguiu seu ritmo de sempre – com costureiras caseiras – sem sentir as perdas das ainda raras confecções atingidas pela recessão dos anos 1930.

A moda brasileira alinhava-se à tendência europeia, por meio principalmente das revistas vindas da França e Itália. Pela primeira vez, são aprimorados os trabalhos de adaptação da moda do velho Mundo (por meio das costureiras) ao clima brasileiro.

Surgem as “garden parties”, festas feitas pela elite brasileira à tarde, nos jardins das grandes mansões, localizadas na Zona Sul do Rio de Janeiro e em Petrópolis. O dress code da ocasião eram vestidos chiques e diáfanos (esboços do que seriam as transparências de hoje). Também eram bem-vindos casacos de pele e boleros. A elite brasileira lia revistas como Rio Magazine, Chuvisco e Sombra.

O salto alto era a tendência da vez. As bolsas, pequenas. As joias eram grandes, com pedras coloridas e pérolas. A calça comprida feminina começa a dar as caras, no modelo pantalona, mas só atinge o auge da popularização nos anos 60.

No Rio de Janeiro, as mulheres que queriam se vestir como as europeias iam à Casa Canadá, fundada em no início dos anos 30 por Jacob Feliks. Por lá, a elite carioca tinham em mãos produtos importados, da “última moda”. No início, a casa comprava em Paris o que era moda e fazia cópias no Rio. Vendia, consertava, reformava e guardava as peles mais chiques do país, na época. A Casa Canadá funcionou na Rua Gonçalves Dias, até 1934. Famosa, a Casa abriu uma loja ainda maior, desta vez na Rua Sete de Setembro, uma espécie de maison.

A casa Canadá contou com a fina modista D. Mena Fiala. Descendente de italianos, D. Mena nasceu em Petrópolis, onde aprendeu a fazer chapéus. Por volta de 1929, mudou-se para o Rio de Janeiro e conheceu Jacob Feliks, o fundador da Casa Canadá. A experiência com moda vinha da vida em Petrópolis, onde Dona Mena vestia as socialites que iam à cidade em períodos de férias. Na Casa Canadá, Dona Mena firmou um ateliê com 70 costureiras, modelistas, bordadeiras e acabadeiras. Construía-se ali um prêt-à-porter de luxo. Dona Mena atuou no cenário da moda brasileira por pelo menos 70 anos. O Fim da Casa Canadá seria no fim dos anos 60 (1967), quando o prédio em que a loja funcionava foi desapropriado.

Também no começo dos anos 30, em São Paulo, destacou-se o trabalho de Rosa de Libman, uruguaia chegada no Brasil no início de 1935, em companhia do marido, o Sr. Max Libman. Na rua Rua Barão de Itapetininga, Rosa de Libman abriu sua butique de artigos luxuosos, como peles e o que mais fosse novidade na Europa, chamada Madame Rosita. A loja ficou conhecida pelos badalados desfiles de moda que apresentava no Brasil. Um que ficou conhecido foi realizado em 1938, no Teatro Municipal de São Paulo (embora o primeiro desfile profissional no Brasil seja de 1944).

A ascensão de Rosa de Libman veio ao longo dos anos 40. Ela foi considerada a “primeira dama” da Alta Costura Brasileira e conquistou grandes títulos, como “Sapatinho de Ouro” e “Agulha de Ouro”. Também foi a primeira representante feminina da Alta Costura a ser membro da “Chambre Sindicale de la Haute Couture Francaise”.

Fontes:

História da Moda no Brasil, de Gilda Chataignier
História da Moda, uma Narrativa, de João Braga
Gabriella Pascolato Santa Constância e Outras Histórias, de Sérgio Ribas

 

 

 

 

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