Voluntários se arriscam para ajudar vítimas de protestos no Egito

Mesquita se converte em hospital improvisado, e manifestantes montam dez postos de atendimento de emergência para atender feridos

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Mohamed Rashad sai atordoado e sem direção pela porta em uma via estreita paralela à praça Tahritr, centro simbólico dos protestos pela queda do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Vestindo um jaleco branco sujo de sangue, ele sua e passa a mão na careca. Os olhos vermelhos revelam que ele mal dorme há quatro dias, desde que se ofereceu como médico voluntário entre os manifestantes.

Rashad estima que tenha atendido cerca de mil pessoas, a maioria ferida por pedras lançadas na batalha que durou mais de 27 horas entre as tardes de quarta e quinta-feira, entre os grupos anti e pró-regime. Médico de um hospital público, ele diz ter visto entre 18 e 20 mortos – mais que o dobro do número oficial (oito), e de dez a 12 baleados nesses dias. “É minha obrigação estar aqui”, disse ao iG .

A porta de onde saiu é uma mesquita convertida em hospital de campanha. As dezenas de médicos e enfermeiros são voluntários, e os remédios que usam – na maior parte, antiinflamatórios, analgésicos e antibióticos – foram doados por profissionais de saúde e simpatizantes. Os homens e mulheres se espremem no espaço de cerca de 160 metros quadrados do templo. Os atendimentos são feitos sobre o tapete que antes servia para orações. Mas os sapatos já são permitidos, devido às circunstâncias extraordinárias.

O resultado do trabalho pode ser visto pela praça, onde a todo momento circulam homens com enormes curativos na cabeça, nos olhos, no nariz ou no rosto.

A mesquita é o “hospital central” dos manifestantes e ontem registrava 850 atendimentos desde a quarta-feira, mas há outros dez postos de atendimento de emergência improvisados em diferente partes da praça Tahrir, cercados por estruturas de ferro e panos. Um deles, próximo ao Museu Egípcio – no norte da praça e um dos principais fronts da batalha – fez de dois médicos pacientes, após serem atingidos na cabeça pela artilharia de pedras inimigas.

Nesse local, médicos e enfermeiros relataram à reportagem as mortes de ao menos cinco pessoas. “Um deles, baleado na cabeça, morreu aqui, no meu colo”, contou o médico Mohamed El Fetih, 25 anos, mostrando a mancha de sangue nos jeans.

Campo de batalha

A poucos metros do campo de batalha que terminou no fim da tarde de quinta, em uma área de cerca de 600 m² de avenida, havia sete caminhões parados aleatoriamente, queimados, parabrisas e vidros quebrados e os pneus vazios. Usados pelos opositores para invadir a praça, agora servem como barricadas. A rua está imunda, com pedras por todo lado e todas as vitrines de lojas quebradas. Foi a partir desse ponto que, com as barricadas, as forças anti-Mubarak avançaram e fizeram retroceder os rivais.

Em meio aos destroços dos confrontos, Sameh Abu Zaid, um dos 12 médicos do último posto avançado do front balança no fundo de uma garrafa de água mineral a bola de metal que retirara havia pouco do couro cabeludo de um manifestante. Era um projétil.

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