Um dia após negociações, protestos continuam no Egito

Diálogo entre governo e grupos opositores não satisfaz manifestantes, que exigem renúncia do presidente Hosni Mubarak

iG São Paulo |

Reuters
Manifestante descansa próximo a tanque do Exército na praça Tahrir, no Cairo; cartaz diz: "Liberdade está próxima, inabalável até a vitória, não deixaremos a praça"
Milhares de manifestantes continuam protestando contra o governo na praça Tahrir, no centro do Cairo, um dia depois de o comércio da cidade ter sido reaberto e de o governo egípcio ter anunciado o início de negociações com grupos de oposição.

Alguns bancos reabriram suas portas no domingo (dia útil no Egito), mas as escolas permanecem fechadas. A Bolsa de Valores do Cairo, praticamente fechada desde o início dos protestos, adiou por pelo menos 24 horas a retomada dos negócios.

Grande parte do comércio na capital egípcia também está fechada, provocando problemas de desabastecimento e corrida dos egípcios por suprimentos. Embora os manifestantes pareçam estar em menor número do que em dias anteriores, eles conseguiram impedir a abertura de um prédio do governo formando uma corrente humana em frente ao local.

No domingo, participantes da negociação - na qual esteve presente a Irmandade Muçulmana - decidiram formar um comitê encarregado de realizar reformas constitucionais. O anúncio não foi suficiente para convencer os manifestantes a deixar a praça. "Nosso objetivo é que Mubarak renuncie", afirmou o estudante Mohammed Eid. "Não aceitamos qualquer outra coisa."

As conversações de domingo foram convocadas pelo vice-presidente egípcio, Omar Suleiman. Houve consenso "sobre a formação de um comitê que contará com o Poder Judiciário e um certo número de personalidades políticas, para estudar e propor as emendas constitucionais e legislativas que se fizerem necessárias", anunciou um porta-voz do governo. A própria Irmandade Muçulmana mostrou-se insatisfeita com o acordo e disse considerar a reforma da Constituição insuficiente, diante das demandas feitas ao governo.

Barack Obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse na noite deste domingo que o Egito não vai voltar a ser igual ao que era antes do início dos protestos populares, que entram no 14º dia nesta segunda-feira.

Em declarações que foram transmitidas pelo canal americano Fox, Obama afirmou que não pode prever se o presidente egípcio, Hosni Mubarak, renunciará ou não."Somente ele sabe o que vai fazer", disse o presidente americano. "Os Estados Unidos não podem ordenar nada, mas o que podemos fazer é dizer que chegou a hora de começar a promover mudanças em seu país. Mubarak já decidiu que não vai mais concorrer (à Presidência)."

Obama também afirmou não acreditar que a Irmandade Muçulmana, grupo islâmico proibido por Mubarak, terá um papel importante em um eventual novo governo egípcio. "Acho que a Irmandade Muçulmana é apenas uma das facções no Egito", disse Obama. "Eles não têm o apoio da maioria", afirmou.

Apesar disso, ele reconheceu que o grupo é bem organizado e tem "traços de sua ideologia que são anti-americanos". Ainda assim, Obama disse acreditar que haverá um governo com o qual os Estados Unidos possam colaborar "se o Egito passar por um processo de transição ordenado".

As declarações seguem afirmações feitas também neste domingo pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton, de que forçar a saída rápida de Mubarak da Presidência poderia complicar a transformação democrática do Egito.

Para Hillary, a saída imediata de Mubarak poderia afetar as "ações significativas" já tomadas pelo atual presidente para iniciar o processo de reforma.

Ela observou que em caso de renúncia do presidente, a Constituição egípcia prevê a realização de novas eleições em um prazo de 60 dias, o que mesmo a oposição reconhece ser um prazo curto demais para a organização de eleições livres e justas.

Em uma entrevista na semana passada, Mubarak se disse "farto" do poder, mas afirmou que pretende continuar no cargo até o fim de seu atual mandato, em setembro, por temer o "caos" se sair imediatamente.

Com AP, EFE e BBC

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