Testemunhas dizem que houve massacre de civis na capital da Líbia

Moradores relatam ataques de aviões e mercenários contra opositores do presidente Muamar Kadafi

BBC Brasil |

Testemunhas afirmaram que ocorreu um "massacre" na capital da Líbia, Trípoli, durante operações de repressão a manifestantes por forças de segurança do regime de Muamar Kadafi nos últimos dias. Desde segunda-feira, há relatos - negados por autoridades - de que aviões atiraram contra civis que circulavam pelas ruas.

"Eles não fazem distinção (entre civis e militares), estão atirando para limpar as ruas", disse nesta terça à BBC News um morador de Trípoli, que não quis se identificar. "(Os atiradores) não são humanos, não sei o que são."

"Vi uma mulher ser morta apenas por ter saído em sua varanda. Ela não estava fazendo nada, não estava protestando. Apenas olhou pela sua varanda. E minha esposa ouviu o barulho de aviões bombardeando as pessoas", acrescentou o mesmo morador.

AP
Cartaz mostra fotos de manifestantes que teriam sido mortos nos protestos em Benghazi, na Líbia

Moradores de um bairro da cidade disseram que há dezenas de corpos espalhados pelas ruas e que o número de feridos é alto. Outros disseram que mercenários estavam patrulhando as ruas e abrindo fogo indiscriminadamente, inclusive contra equipe médicas.

Não é possível obter uma confirmação oficial sobre o número de mortes. Há poucos jornalistas no país, e o trabalho da imprensa internacional vem sendo reprimido pelo regime de Khadafi. Estima-se, entretanto, que as vítimas fatais do conflito sejam entre 200 e 300.

Já a TV estatal divulgou um comunicado negando que tenha havido massacres e classificou relatos de testemunhas como "mentiras" elaboradas pela imprensa internacional. "Isso é parte de uma guerra psicológica a que você (povo líbio) deve resistir, porque o objetivo disso é demolir sua moral", dizia o comunicado.

Mercenários

Dissidentes do regime declararam que Kadafi - no poder desde um golpe, em 1969 - contratou mercenários de outros países africanos para defender seu governo. Por outro lado, isso teria feito com que soldados do Exército da Líbia desertassem para a oposição. Dois deles aterrissaram um avião em Malta na segunda-feira, alegando que tinham se recusado a usar a aeronave para atacar civis líbios.

Depois de uma noite de confrontos, uma correspondente da BBC em Trípoli diz que a cidade amanheceu mais calma nesta terça-feira, mas que há forte presença do Exército pelas ruas. Muitas pessoas temem sair de casa, e o comércio está fechado.

Em Benghazi, segunda maior cidade do país, testemunhas dizem que simpatizantes de Khadafi fugiram e que a cidade está sob o comando da oposição. Mas acredita-se que os subúrbios da cidade e o aeroporto local ainda estejam sob o comando do Exército.

Um ministro egípcio declarou à rede de TV Al-Arabiya que o aeroporto de Benghazi teve suas pistas bombardeadas, dificultando a retirada de pessoas - inclusive brasileiros - que tentam abandonar a cidade.

Kadafi

O correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne relata que o regime de Kadafi perdeu várias bases de apoio e está lutando em múltiplas frentes para manter-se no poder. Na noite de segunda-feira, Kadafi fez uma breve aparição na TV para negar boatos de que estivesse na Venezuela e dizer que permanecia em Trípoli.

O líder líbio qualificou as informações de que teria fugido para Caracas como "rumores maliciosos" divulgados por "canais maliciosos". "Não acreditem nessas TVs. Eles são todos cachorros. Até logo", afirmou Kadafi, que falou durante menos de um minuto. Foi sua primeira aparição na televisão desde que as manifestações explodiram na Líbia, há três dias.

Em meio à crise no país, o vizinho Egito disse que vai reforçar a segurança em sua fronteira, e vários países, inclusive o Brasil, tentam organizar a retirada de seus cidadãos do território líbio.

Um porta-voz de Amr Moussa, secretário-geral da Liga Árabe, disse à BBC que esperava que a organização colocasse pressão sobre Kadafi para dar fim à violência. A liga vai se reunir nesta terça.

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