Terminais petrolíferos na Líbia estariam em mãos opositoras

Segundo moradores da cidade de Benghazi, Ras Lanuf e Marsa el Brega, no leste do país, estão sob controle de manifestantes

iG São Paulo |

Importantes terminais petrolíferos da Líbia situados a leste da capital Trípoli estão sob o controle de opositores ao governo de Muamar Kadafi, disseram moradores de Benghazi que estão em contato com os manifestantes na região.

De acordo com os moradores, os terminais de petróleo e produtos petrolíferos de Ras Lanuf e Marsa el Brega estão sendo protegidos. Soliman Karim, envolvido na administração da cidade de Benghazi, disse que continuam as exportações, fonte vital de receita do país membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Um segundo residente da cidade sugeriu que o fluxo de exportações pode ter sido prejudicado. Não foi possível obter confirmação imediata das informações com pessoas que estão operando os terminais.

"Com relação a Ras Lanuf, o maior porto de exportação de petróleo, e El Brega, e dos gasodutos que vão do deserto para os portos, os revolucionários tomaram controle", disse Karim, advogado de 65 anos que atua nos comitês criados para administrar Benghazi.

"As exportações prosseguem como de costume, nos mesmos volumes acordados anteriormente", disse ele, informando que suas fontes são pessoas da área onde os rebeldes estão no comando. "Os revolucionários estão protegendo essas áreas, porque são áreas vitais. Não queremos que sejam sabotadas e não queremos parar de exportar óleo", acrescentou Karim.

Outro morador de Benghazi, identificado apenas como Tawfik, também disse que Ras Lanuf e Marsa el Brega não estão mais nas mãos das forças de Kadafi.

Barris

A turbulência no 12º maior exportador petrolífero do mundo cortou pelo menos 400 mil barris por dia da produção líbia normal de 1,6 milhão de bpd, de acordo com cálculos da Reuters.

Paolo Scaroni, executivo-chefe da grande petrolífera italiana Eni, disse que a queda na produção líbia é muito mais dramática que isso, estimando que o país está colocando 1,2 milhão de barris por dia a menos no mercado.

O terminal petrolífero de Ras Lanuf fica no Golfo de Sirte, na costa mediterrânea, a cerca de 600 quilômetros a leste de Trípoli, e dele saem petróleo e produtos petroquímicos. O terminal marítimo de exportação petrolífera consiste em dois ancoradouros. Marsa El Brega, situado ao sul de Benghazi, também fica no Golfo de Sirte. É usado para a exportação de óleo cru e produtos petroquímicos.

Al-Qaeda

Em seu terceiro pronunciamento desde o início das manifestações por sua renúncia, o líder da Líbia, Muamar Kadafi, afirmou nesta quinta-feira que os manifestantes antigoverno não têm demandas genuínas e responsabilizou a rede terrorista Al-Qaeda pelos tumultos no país. "A Al-Qaeda veio se estabelecer aqui. Se o (Osama) bin Laden vier te dar ordens, não o deixe, para que o país não se desestabilize", afirmou.

nullEm um telefonema da cidade de al-Zawiya (a cerca de 50 km da capital, Trípoli), transmitido ao vivo pela TV, Kadafi descreveu a atual revolta no país como uma "farsa" e disse que os jovens estão sendo dopados com drogas e álcool para participar na "destruição e sabotagem". Segundo Kadafi, adolescentes vêm sendo "explorados" por militantes da Al-Qaeda. "(Eles) colocam pílulas alucinógenas em seus cafés com leite, como Nescafé", disse.

Kadafi pediu que as famílias controlem seus filhos, dizendo que muitos manifestantes eram menores de idade e fora do alcance da lei. Mas ele também prometeu que serão julgados aqueles que realizam atos violentos.

"Bin Laden... esse é o inimigo que está manipulando a população. Não seja influenciado por Bin Laden", disse. "É óbvio agora que essa situação está sendo liderada pela Al-Qaeda. Esses jovens armados, nossas crianças, são incitados por pessoas procuradas pelos EUA e o mundo Ocidental."

O pronunciamento de meia hora foi dirigido à população de Zawiya, localidade ao oeste do país, onde nesta manhã dezenas foram mortos em ataque das forças leais ao regime contra os manifestantes, segundo relataram redes árabes de televisão.

Na terça-feira, o coronel fez um outro discurso em que indicou que não pretende deixar o poder e lutará "até a última gota de sangue". O líder disse que os organizadores do protesto - terroristas internacionais - estão "levando os seus filhos para a morte". "Eles não dão a mínima se o seu país (a Líbia) está sendo destruído", afirmou.

O discurso foi feito enquanto forças de seguranças e milícias que lhe são fiéis tentam conter o avanço da oposição nas áreas próximas à capital , Trípoli, depois de o governo ter perdido o controle de outras das principais cidades do país. Relatos indicam que a capital está sendo patrulhada por grupos fortemente armados, que teriam invadido residências para prender opositores.

Imagens postadas na internet indicaram que a oposição tomou cidades a cerca de 50 quilômetros de Trípoli. A capital continua sendo uma espécie de bastião do regime de Kadafi, depois que a segunda e a terceira maiores cidades do país, Benghazi e Misurata, foram tomadas pela oposição, assim como outros municípios na costa do Mar Mediterrâneo, como Sabratha e Zawiya.

Em Benghazi, sob firme controle da oposição há vários dias, havia filas para distribuir armas roubadas da polícia e do Exército com a finalidade de iniciar o que um repórter da BBC chamou de "batalha por Trípoli".

Moradores e militares desertores criaram vários comitês de defesa, incluindo um que protege bases de mísseis nos arredores de Tobruk, no leste, região que já é considerada completamente fora do controle de Kadafi.

Na noite de quarta-feira, porém, o filho do coronel Kadafi, Seif al-Islam, apareceu na TV estatal afirmando que a situação no país era "normal" e as estimativas sobre número de mortos - que variam de 300 a milhares - são "exageradas".

Estrangeiros

Enquanto os confrontos se acirram, estrangeiros tentam deixar a Líbia. Governos de vários países estão enviando balsas, aviões e navios para resgatar seus cidadãos. Um grupo de brasileiros que estava na Líbia desembarco u na manhã desta quinta-feira no aeroporto de Cumbica, em São Paulo.

Os brasileiros são funcionários da empresa Andrade Gutierrez, que fretou o voo de Trípoli para a capital paulista. Outros brasileiros devem desembarcar ainda durante a manhã no Rio de Janeiro.

Outros brasileiros, entre eles o técnico da seleção de futebol da Líbia , Marcos Cesar Dias de Castro, mais conhecido como Paquetá, desembarcaram no Rio de Janeiro por volta das 11h.

Futura
Funcionário da Andrade Gutierrez, José Geraldo desembarca em São Paulo após deixar a Líbia

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que um navio de grande porte partiu da Grécia rumo à Líbia, onde um grupo de 148 brasileiros e cidadãos de outras nacionalidades aguarda para ser resgatado.

Na quarta-feira, duas balsas da Turquia conseguiram retirar cerca de 3 mil de seus cidadãos de Benghazi, onde vive um grande número de turcos que trabalham para empresas de construção.

Outros países, como França, Rússia, Holanda e Índia também já conseguiram evacuar parte de seus cidadãos. A Grã-Bretanha enviou um avião para resgatar britânicos na Líbia e posicionou um navio de guerra próximo à costa do país.

O governo chinês, por sua vez, enviou aviões e navios para retirar cerca de 40 mil de seus cidadãos da Líbia. A operação conta com a colaboração da Grécia e da Itália, segundo a agência de notícias estatal grega ANA-MPA.

* Com BBC, AP, EFE, AFP e Reuters

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