Supostos emails de líder sírio mostram vida luxuosa e ajuda do Irã

Mensagens obtidas por Guardian indicam gastos de milhares de dólares com produtos de designers e músicas baixadas pelo iTunes

iG Sâo Paulo |

O presidente sírio, Bashar al-Assad, recebeu conselhos do Irã sobre como lidar com o levante contra seu governo, que completa um ano nesta quinta-feira , de acordo com o que parecem ser vários milhares de emails recebidos e enviados pelo líder sírio e sua mulher, Asma, nascida no Reino Unido.

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Presidente Bashar al-Assad deposita voto perto de sua mulher, Asma, durante referendo sobre nova Constituição em 26/2. De acordo com emails, líder recebe ajuda do Irã
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O presidente sírio também recebeu detalhes sobre a presença de jornalistas Ocidentais no bairro de Baba Amr, na cidade de Homs , e foi aconselhado a "aumentar a segurança" sobre o reduto opositor em novembro.

As revelações estão em mais de 3 mil documentos que ativistas dizem ser emails baixados de contas privadas de Assad e Asma. As mensagens, obtidas pelo jornal britânico Guardian e publicadas na noite de quarta-feira, teriam sido interceptadas por membros do opositor Conselho Supremo da Revolução entre junho e o início de fevereiro.

Para confirmar a autenticidade das mensagens, o jornal relata ter comparado seu conteúdo com fatos sabidos e ter contatado dez indivíduos cuja correspondência parece estar no conjunto dos emails. As verificações, diz a publicação, sugerem que as mensagens são genuínas. O Guardian, porém, faz a ressalva de que não é possível verificar cada uma delas individualmente.

Os documentos retratam uma família notavelmente distante da crise atual, que deixou mais de 8 mil mortos de acordo com a ONU, e que continua usufruindo de um estilo de vida luxuoso. Eles parecem mostrar a mulher de Assad gastando milhares de dólares em compras online de produtos de designers enquanto ele navegava por links de internet em seu iPad baixando músicas do iTunes.

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Sírios seguram bandeiras nacionais e retratos do presidente Bashar al-Assad em manifestação favorável ao regime no dia que marca um ano do levante da Síria
As compras nos EUA foram feitas apesar das rígidas sanções de Washington porque Assad usou uma terceira pessoa com endereço em solo americano para adquirir as músicas e os aplicativos no iTunes da Apple. Além disso, a al-Shahba, uma companhia com base em Dubai com escritório registrado em Londres, é um canal-chave para os negócios do governo sírio e para as comprar privadas de Assad.

Enquanto o mundo assiste com horror à brutal repressão de protestos no país e muitos sírios enfrentam escassez de alimentos e outras dificuldades, Assad gastou 10 mil libras em candelabros, mesas e lustres de Paris e instruiu um assessor a encomendar um aparelho de fondue na Amazon.

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Os emails também mostram que Assad estabeleceu uma rede de assessores confiáveis para se reportar diretamente a ele por meio de seu email privado - ignorando seu poderoso clã e o aparato de segurança do Estado.

Além disso, as mensagens sugerem que o presidente sírio propôs reformas em uma tentativa de pôr fim à crise, referindo-se às medidas como sendo um "lixo as leis de partidos, eleições e da mídia". As mensagens indicam ainda que uma filha do emir do Catar, Hamid bin Khalifa al-Thani, aconselhou neste ano o casal presidencial a deixar a Síria, sugerindo que Doha pode lhe conceder exílio.

Ativistas disseram que obtiveram as informações sobre o nome do usuário e a senha que seriam usados por Assad e Asma de um informante no círculo próximo ao presidente sírio. Os endereços de email usaram o domínio alshahba.com, um grupo de companhias usadas pelo regime. Eles disseram que as informações permitiram acesso ininterrupto às duas caixas de mensagem até que o vazamento fosse descoberto em fevereiro.

Em um e-mail reproduzido e traduzido para o inglês, um homem apresentado como conselheiro de comunicação de Assad faz uma série de recomendações antes de um discurso em dezembro, e indica que os conselhos são baseados em "consultas com um grande número de pessoas", incluindo o "conselheiro político do embaixador iraniano".

A nota aconselha o presidente a utilizar um "linguagem forte e violenta", mostrar que aprecia o apoio dos "países amigos" e considera que o regime deveria "divulgar mais as informações sobre suas capacidades militares" para desanimar os opositores.

Outra mensagem, supostamente escrita por Khaled al-Ahmed, identificado como conselheiro de Assad para as operações nas cidades rebeldes de Homs e Idlib, estimula o presidente a "reforçar a política de segurança para restaurar o controle e a autoridade do Estado". O conselheiro também adverte que jornalistas europeus "entraram na região cruzando ilegalmente a fronteira libanesa".

Repercussão

Em Homs, manifestantes disseram se sentir enojados pelas revelações dos emails, afirmando que as compras de joias de Paris e o download de músivas mostram o desapego da família governante em relação à crise que está arrastando a Síria para a beira de uma guerra civil e o colapso econômico. "Ele baixava músicas do iTunes enquanto seu Exército nos atacava. Sua esposa comprava coisas caras da Amazon, isso faz me sentir nojo", disse um ativista chamado Rami, em Homs.

Coração da rebelião, Homs foi bombardeada por forças armadas que tentam derrotar os rebeldes na cidade após destruir o reduto deles em Baba Amr no mês passado.

AP
Hana, 12 anos, faz sinal de vitoria ao lado de sua irmã, Eva, 13 anos, durante recuperação de ataque das forças sírias em Idlib
Um combatente do grupo rebelde Brigada Farouq em Homs disse que ficou confortado em ver Assad tendo dificuldades para lidar com a situação. Um e-mail de Assad afirma: "Se somos fortes juntos, superaremos isso juntos."

"Uma coisa boa é que isso é um sinal claro de que Assad percebe a bagunça em que está metido", disse o combatente chamado de al-Homsi. "Mas sem surpresa, como esperávamos, ele realmente não parece se importar com quantos do seu povo morrem para que ele possa manter seu trono."

*Com AFP e Reuters

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