Sob protestos, embaixador da Líbia no Brasil descarta renúncia

Salem Ezubedi diz que deixar cargo seria traição; pelo menos oito embaixadores líbios renunciaram em protesto contra Kadafi

Andréia Sadi, iG Brasília |

nullO embaixador da Líbia no Brasil, Salem Ezubedi, afirmou nesta quinta-feira que permanecerá no cargo e não se unirá a pelo menos oito embaixadores e outros diplomatas líbios que renunciaram em protesto contra a repressão às manifestações antigoverno que acontecem no país.

"O abandono do cumprimento da minha responsabilidade seria uma traição com meu país, o que não é aceito pela minha cultura, meu caráter e (mancharia) a honra da minha família", afirmou Ezubedi, segundo tradução feita por um funcionário da embaixada. Após o pronunciamento, os jornalistas não foram autorizados a fazer perguntas.

Dois líbios que estavam no local, Mohamed El Zuuei e Adel, começaram a gritar com o intérprete. Adel, que trabalha na embaixada, disse que a posição de apoio ao governo do presidente líbio, Muamar Kadafi, era apenas de Salem Ezubedi, e não de todos os funcionários. “O que está acontecendo na Líbia é um massacre, as pessoas estão morrendo “, afirmou.

Na quarta-feira, uma assessora do embaixador, identificada como Patrícia, afirmou ao iG que ele estava "sofrendo muito" com os confrontos na Líbia. "É o povo dele que está morrendo", disse.

Deserções

Pelo menos oito embaixadores e outros diplomatas de alto nível renunciaram a seus cargos em protesto pela violenta repressão aos protestos. Os embaixadores que deixaram seus postos são os chefes das missões líbias na Austrália, Bangladesh, China, EUA, Índia, Indonésia, Malásia e Polônia, segundo a rede Al-Jazeera. Também deixaram seus postos os diplomatas do país na Liga Árabe e na ONU.

Além dos embaixadores, na terça-feira o ministro do Interior do país, Abdel Fattah Younes al Abidi, anunciou sua deserção e o apoio à "Revolução 17 de fevereiro", exortando o Exército a se juntar ao povo e às suas "demandas legítimas". Na segunda, o ministro da Justiça Mustafá Abdel Yalil também abriu mão de seu cargo por causa do excesso do uso de força.

Nos Estados Unidos, o diplomata líbio Ali Aujali fez duras críticas ao regime de Kadafi. "Como posso apoiar um goveno que mata nosso povo?", questionou Aujali, em entrevista à agência Associated Press. "O que vejo diante de meus olhos é inaceitável."

Aujali trabalhou para o governo da Líbia nos últimos 40 anos e era embaixador do país nos EUA desde 2009. Ele fez um apelo para que Kadafi, no cargo desde 1969, deixe o poder. "Não há outra solução. Ele deve renunciar e dar ao povo a oportunidade de decidir seu futuro", afirmou.

Em entrevista à rede árabe Al-Jazeera, o embaixador líbio na Índia, Ali el Essawi, afirmou que Trípoli "está ocupada por mercenários", acusando o governo de utilizar o Ministério de Relações Exteriores "contra os líbios". "Estão fazendo coisas terríveis contra o povo", acrescentou o diplomata, referindo-se ao uso de força por parte da polícia e do Exército contra os manifestantes.

"Kadafi deve renunciar para que haja o fim desse banho de sangue. Ele não tem nenhuma legitimidade", acrescentou o agora ex-embaixador líbio em Nova Délhi.

O embaixador líbio na Indonésia, Salaheddin M. El Bishari, também anunciou sua renúncia na terça-feira. "Os soldados estão matando civis desarmados sem perdão. Estão usando armamento pesado, jatos e mercenários contra a própria população", afirmou, em entrevista ao jornal "Jakarta Post". "Cansei, não vou mais tolerar isso."

A pressão das deserções ocorre em meio a informações de que os opositores controlam a região oriental do país e avançam sobre o oeste.

Em tom de desafio, Kadafi afirmou em um pronunciamento na terça-feira que não deixará o cargo, conclamando seus partidários a irem às ruas para pôr fim aos protestos. Em seu discurso, Kadafi afirmou que está "disposto a morrer na Líbia" e a combater "os ratos que promovem os distúrbios" até a "última gota" de seu sangue.

De acordo com os primeiros dados oficiais apresentados pelo regime de Kadafi desde o início dos protestos, a violência no país deixou 300 mortos, incluindo 58 militares. Cerca de metade das mortes ocorreu em Benghazi.

Com Reuters, AP, AFP, EFE e BBC

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