Sob pressão externa, Kadafi reforça presença militar na fronteira

Movimentações acontecem enquanto EUA posicionam navios perto da Líbia para 'contingência de natureza humanitária'

iG São Paulo |

AP
Em Benghazi, manifestante anti-Kadafi faz o V da vitória com a mão pintada com a antiga bandeira nacional da Líbia
O líder líbio, Muamar Kadafi, mobilizou forças de segurança para a fronteira oeste nesta terça-feira, contrapondo-se à pressão econômica e militar do Ocidente e elevando o temor de que uma das revoltas mais sangrentas no mundo árabe possa se tornar ainda mais violenta.

A medida foi tomada pouco menos de 12 horas depois de os EUA anunciarem o envio de navios de guerra e forças aéreas para perto da fronteira da Líbia, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que seu governo deseja impor uma zona de exclusão aérea a fim de proteger o povo líbio.

Citado pela rede árabe Al-Jazeera, um coronel líbio que se uniu às forças rebeldes disse nesta terça-feira que diversos navios americanos foram avistados em frente ao litoral da cidade de Al-Baida, no nordeste da Líbia.

Segundo o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, os navios estão se movimentando para perto da Líbia para se preparar para contingências de natureza humanitária. Ele, porém, fez a ressalva de que "não estamos tirando quaisquer opções da mesa". De acordo com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, os navios poderão ser usados para missões humanitárias e de resgate.

As forças de Kadafi reforçaram sua presença na remota localidade de Dehiba, na fronteira com a Tunísia, e decoraram o posto de passagem com as bandeiras verdes do país. Repórteres que estão no lado tunisiano viram veículos do Exército da Líbia e soldados armados com fuzis Kalashnikov. No dia anterior, não havia presença militar líbia nesse posto fronteiriço.

Além disso, segundo testemunhas, forças leais ao governo retornaram nesta terça-feira ao posto de fronteira de Wazin, entre a Líbia e o sul da Tunísia, depois de terem deixado a área no domingo. "Vi uns 20 militares em Wazin, onde não havia nenhuma. Eram soldados do Exército regular, alguns usavam um lenço verde em torno do pescoço. Estavam armados com fuzis Kalashnikov. Não havia blindados", contou uma das testemunhas.

A fonte também comentou que outras testemunhas viram dois veículos 4x4 avançando pelo deserto com direção a Wazin, com 40 soldados a bordo. As movimentações aumentam a suspeita de que Kadafi, que está no poder há quatro décadas, não cederá ao grande número de forças atualmente unidas contra ele.

Pressão internacional

A secretária de Estado americana advertiu nesta terça-feira que a Líbia corre o risco de uma "guerra civil prolongada" e informou que os EUA analisam com seus aliados da Organização do Atlântico Norte (Otan) criar uma "zona de exclusão aérea" para conter a violência no país.

Segundo a embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, a comunidade internacional continuará pressionando Kadafi militar e economicamente para obrigá-lo a abandonar o poder. "A comunidade internacional manterá a pressão até que ele se retire e permita que as pessoas se expressem livremente e determinem seu próprio futuro", disse.

"Levará tempo para que as sanções surtam efeitos, (mas) buscamos todas as maneiras de limitar a capacidade de Kadafi de rearmar-se e reabastecer-se", acrescentou.

Em meio aos sinais de que uma intervenção militar está em consideração para conter a violência no país do norte da África, a França rejeitou uma ofensiva sem mandato da ONU. O chanceler francês, Alain Juppé, afirmou que estão sendo estudadas "diferentes opções" para evitar o derramamento de sangue na Líbia. "Sobretudo a de uma zona de exclusão aérea, mas digo muito claramente: nenhuma intervenção será feita sem um mandato claro do Conselho de Segurança da ONU", disse.

Dando um tom de cautela ao pensamento militar ocidental, a França disse que a ajuda humanitária deve ser prioridade na Líbia, em vez da ação militar para depor Gaddafi.

O governo francês enviou dois aviões com suprimentos e profissionais médicos a Benghazi, segunda maior cidade líbia e epicentro da mobilização, agora controlada pelos rebeldes. Mais voos desse tipo devem se seguir, segundo o porta-voz governamental francês, François Baroin.

Confrontos na Líbia

Nesta terça-feira, as forças de Kadafi parecem ter conseguido poucos avanços em uma ação coordenada contra os rebeldes em várias cidades em todo o país e em um ataque lançado no início da manhã na cidade de Zawiyah , a 50 quilômetros a oeste da capital do país, Trípoli.

"Nossos rapazes abriram fogo num posto de controle. Eles (forças governistas) fugiram. Estamos com seu canhão antiaéreo e muitos (fuzis) Kalashnikovs, que eles deixaram. Três soldados morreram no lado deles", disse um morador, pedindo para não ser identificado.

Também no oeste líbio, moradores disseram que forças pró-Kadafi se mobilizaram para reafirmar o controle de Nalut, a cerca de 60 quilômetros da fronteira com a Tunísia, e impedir que caia em poder dos rebeldes.

Na região de Trípoli, havia filas nas padarias na manhã desta terça-feira. Moradores disseram que vários estabelecimentos estavam limitando a venda de pães, o que obrigava a população a passar por várias padarias para se abastecer.

"A situação está nervosa", disse o médico Salah, numa padaria onde cerca de 15 pessoas faziam fila no lado de fora. "Claro que estou preocupado. Minha família está com medo (...), temos ouvido tiroteios. Tenho 35 anos e é a primeira vez que vejo algo assim na Líbia. É muito assustador."

Após duas semanas de rebelião, Trípoli, com 1,5 milhão de habitantes, é o último bastião do poder de Kadafi. Vários líderes tribais, autoridades do regime e chefes militares já passaram para o lado dos rebeldes, levando consigo enormes extensões do país, que tem 6 milhões de habitantes. A maior parte dos recursos petrolíferos líbios está nas mãos da oposição.

Alguns analistas avaliam que, diante da grande pressão internacional, Kadafi não realizará uma ofensiva militar de grande escala para tentar recapturar territórios. As ameaças feitas por ele nos últimos dias seriam, segundo esses analistas, "manobra política".

"Kadafi está acabado se fizer (um ataque militar), e está acabado se não fizer. Em ambos os casos, ele está muito vulnerável", disse o ativista e editor líbio Ashour Shamis, que vive no Reino Unido. "Ele está perdendo pedaços da Líbia muito rapidamente. Não tem influência senão em Trípoli, e mesmo lá há áreas muito pequenas sob seu controle."

Em outra má notícia para Kadafi, a estatal petrolífera NOC disse que a produção de petróleo da Líbia caiu pela metade por causa da fuga de trabalhadores do setor, embora as instalações não tenham sido danificadas.

Observadores regionais preveem que os rebeldes acabarão por conquistar Trípoli e irão matar ou prender Kadafi.

Mas na segunda-feira, em entrevista concedida em um restaurante na orla de Trípoli, o ditador, de 68 anos, parecia relaxado e chegou a rir ao subestimar a rebelião.

Ele negou que tenha ordenado bombardeios aéreos contra os manifestantes, mas admitiu que aviões atacaram quartéis e paióis de munição. Negou também que tenham havido protestos contra o regime, e disse que alguns jovens saíram às ruas depois de serem drogados pela rede terrorista Al-Qaeda. Acrescentou que as forças do governo tinham ordens de não atirar.

Alguns veem as muitas aparições de Kadafi na mídia como uma astuta tentativa de usar os canais ocidentais para lembrar à audiência global que ele continua no comando, afastando assim a ideia de que sua autoridade estaria se esvaindo. "Há uma batalha pela narrativa", disse o analista Shashank Joshi, do Real Instituto de Serviços Unidos da Grã-Bretanha.

Em nota, um grupo de clérigos oposicionistas da Líbia pediu às operadoras internacionais de TV por satélite que cortem o serviço que tem permitido à TV estatal líbia transmitir os discursos de Kadafi para o mundo todo.

"Gaddafi, seus filhos e asseclas têm ordenado diretamente assassinatos pelos canais líbios de TV", disseram os clérigos. A embaixadora dos EUA junto à ONU, Susan Rice, qualificou de "delirantes" as declarações de Gaddafi à ABC e BBC.

*Com Reuters, EFE e AFP

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