Situação na síria Homs é 'tranquilizadora', diz observador árabe

Declaração pode agravar temores da oposição de que chefe da missão, que é do Sudão, não recomendará forte ação contra Assad

iG São Paulo |

AP
Reprodução de vídeo amador supostamente mostra mulher chorando por parede morto em Homs, na Síria (26/12)
O chefe da delegação árabe que monitora a implantação de um acordo de paz na Síria, Mustafa al-Dabi, disse que a situação em Homs, onde centenas de manifestantes foram mortos nos últimos meses, é "até agora tranquilizadora", mas que é preciso realizar uma longa investigação. O general sudanês Dabi também acrescentou que algumas partes da cidade, que os monitores visitaram na terça-feira , não estavam "muito boas".

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Dado o caráter breve e limitado da visita inicial dos monitores, suas declarações podem agravar os temores da oposição de que a missão da Liga Árabe será usada para dar um verniz de respeitabilidade ao governo de Bashar al-Assad, que desde março reprime com violência protestos pró-democracia inspirados na chamada Primavera Árabe .

Grupos de direitos humanos criticaram a indicação de Dabi para liderar a missão da Liga Árabe, afirmando que é impossível imaginar que alguém que teve postos graduados no Exército e no governo do Sudão, incluindo na região de Darfur, possa alguma vez recomendar uma forte ação contra Assad.

O presidente sudanês, Omar al-Bashir, foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por genocídio e crimes contra a humanidade em Darfur. A Liga Árabe defendeu a escolha de Dabi com o argumento de que ele tem um conhecimento militar e diplomático vital.

Em comunicado, um grupo de oposição sírio condenou a escolha de Dabi e classificou-a como uma "farsa", segundo informou a rede CNN.

As objeções devido à presença de Dabi foram colocadas em um comunicado do Comitê Local de Médicos em Damasco. As observações foram publicadas no site do Comitê de Coordenação Local da Síria, um proeminente grupo da oposição.

"A escolha de al-Dabi mancha os esforços da Liga Árabe e os caracteriza como uma farsa política, ajudando pouco e prejudicando muito a situação da Síria. Nós pedimos por uma missão observadora justa e independente que tenha acesso completo e irrestrito a todas as regiões da Síria. Seria mais apropriado, em nossa visão, nas circustâncias do conflito, que a ONU tenha o mandato para conduzir uma missão observadora", diz o comunicado.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede no Reino Unido, disse que as forças de segurança deixaram mais de 15 mortos na Síria na terça-feira, sendo seis deles em Homs, coincidindo com a visita dos monitores. "Alguns lugares pareceram um pouco bagunçados, mas não havia nada de assustador", disse o general sudanês Mustafa Dabi, chefe da equipe de monitores, falando por telefone de Damasco à Reuters.

"A situação pareceu tranquilizadora até agora", afirmou após a breve visita do seu grupo à cidade, que é a terceira maior do país com 1 milhão de habitantes e se tornou o epicentro dos protestos contra Assad. "Ontem estava tranquilo e não houve confrontos. Não vimos tanques, mas sim alguns veículos blindados. Mas lembre-se de que esse foi apenas o primeiro dia, e será necessária uma investigação. Temos 20 pessoas que estarão por lá durante um longo período."

À AFP, Dabi disse que na quinta-feira os observadores se deslocarão para três outros centros do levante popular - Hama, a Província de Idlib e a Província de Deraa. Eles também vasculharão 80 km ao redor da capital, Damasco.

À EFE, uma fonte da Liga Árabe afirmou que os observadores confirmaram a existência de violações aos direitos humanos em Homs, mas não apontaram se as mesmas foram cometidas pelas autoridades ou por grupos terroristas.

O acordo de paz mediado pela Liga Árabe prevê que Assad deve retirar as forças militares das ruas das cidades, libertar presos políticos e iniciar um diálogo com a oposição. A ONU estima que mais de 5 mil foram mortos por causa dos distúrbios na Síria desde março, e ativistas dizem que um terço deles foi vítima das forças de segurança em Homs.

O primeiro grupo de monitores, sob o comando de Dabi, foi escoltado por autoridades sírias a Homs na terça-feira, e viu a destruição no turbulento bairro de Baba Amr, onde tanques sírios foram filmados na véspera por ativistas disparando contra áreas residenciais.

Esses vídeos - cuja autenticidade não pôde ser verificada de forma independente - mostram partes de Homs parecendo uma zona de guerra. Constantes disparos de metralhadoras e de franco-atiradores são audíveis, e corpos aparecem desmembrados pelas explosões.

Libertação de presos

Coincidindo com a presença da delegação da Liga Árabe no país, o regime de Damasco libertou 755 presos acusados de crimes menores, sem delitos de sangue, que estavam detidos por participar de manifestações contra o regime de Assad, informou a TV síria em nota nesta quarta-feira. A libertação dos detidos durante os protestos é um dos pontos da iniciativa da Liga Árabe.

Em novembro, foi anunciada a libertação de 4,3 mil pessoas presas durante a repressão. As associações sírias de defesa dos direitos humanos e a ONU situam em vários milhares o número de detidos desde o início da revolta popular, em março.

A libertação de presos nesta quarta-feira se seguiu a acusação da Human Rights Watch de que as autoridades sírias estão escondendo centenas de detentos dos observadores agora no país . O grupo, cuja base fica em Nova York, afirmou que os presos foram transferidos para instalações militares de acesso restrito e conclamaram os monitores da Liga Árabe a pressionar por um total acesso aos locais usados como detenção.

*Com Reuters, AP, AFP e EFE

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