Sírios protestam em massa contra Assad em meio a banho de sangue

Grupos de oposição conclamam manifestantes a acampar em praças públicas; violência continua apesar de presença de observadores

iG São Paulo |

AFP
Reprodução de vídeo mostra forças de segurança prendendo homem em Douma, subúrbio ao norte da capital da Síria, Damasco (29/12)
Protestos em larga escala e mais violência aconteceram na Síria nesta sexta-feira, com grupos de oposição conclamando os manifestantes a acampar nas praças públicas até que o regime do presidente Bashar al-Assad seja deposto. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), há grandes protestos em Douma (subúrbio ao norte da capital do país, Damasco), Hama, Homs e nos arredores da cidade de Idlib, onde 250 mil saíram às ruas em 74 manifestações separadas.

As manifestações coincidiram com relatos de uma escalada da violência contra os manifestantes apesar de uma missão de observadores da Liga Árabe estar no país para determinar se o governo cumpre um acordo de paz para pôr fim à repressão brutal que, segundo a ONU, deixou mais de 5 mil mortos desde o início do levante popular, em março. O plano da Liga Árabe prevê a retirada das Forças Armadas das cidades onde há protestos, a libertação de presos políticos e o início de um diálogo com a oposição.

Saiba mais: Observadores da Liga Árabe visitam mais cidades na Síria

Forças sírias entraram em confrontos com ativistas em Douma depois das preces desta sexta-feira. Ativistas disseram que as tropas lançaram bombas de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral para dispersar os mais de 60 mil manifestantes, que retaliaram com pedras.

Segundo o OSDH, organização sediada no Reino Unido, "entre 60 mil e 70 mil manifestantes avançavam em direção ao edifício da prefeitura" em Douma, onde supostamente se encontram os observadores da Liga Árabe. De acordo com a fonte, trata-se da "maior manifestação" nesse subúrbio desde o início da rebelião, em 15 de março.

Na quinta-feira, a repressão contra um protesto de dezenas de milhares deixou quatro mortos nesse subúrbio. No total, as forças de segurança deixaram mais de 40 mortos em todo o país entre quinta e esta sexta-feira. Nesta sexta-feira, também há repressão às manifestações em Daraa, no sul, e Deir Ezzor, no leste, segundo o observatório. Não é possível verificar de forma independente esses relatos, uma vez que o governo sírio expulsou a maior parte dos correspondentes estrangeiros do país.

Como fazem em seus quase dez meses de resistência, ativistas sírios e grupos de oposição usaram o Facebook, o Twitter e o YouTube para convocar milhares a desafiar as forças de Assad e os toques de recolher impostos pelo governo.

Trégua dos desertores

O Exército Livre Sírio, grupo armado de oposição ao governo, ordenou que suas forças interrompam as ações ofensivas à espera de uma reunião com a delegação da Liga Árabe, disse o coronel Riad al-Assad, comandante dos rebeldes, nesta sexta-feira. Ele afirmou que busca um contato urgente com os monitores.

O grupo diz ser composto por cerca de 15 mil desertores do Exército que abandoram o regime durante o levante. Ele também reivindica responsabilidade por ataques contra instalações governamentais que mataram vários soldados e membros das forças de segurança.

"Emiti uma ordem para parar todas as operações desde o dia em que o comitê entrou na Síria . Todas as operações contra o regime devem ser interrompidas, exceto numa situação de autodefesa", disse à Reuters. Assad está baseado na Turquia, e não está claro até que ponto suas ordens são atendidas pelos rebeldes.

"Tentamos nos comunicar com eles (monitores) e solicitamos uma reunião com a equipe. Até agora, não houve sucesso. Não recebemos nenhum número (telefônico) dos monitores, o que havíamos solicitado. Ninguém nos contatou tampouco."

AP
Desertores do Exército sírio posicionam seus rifles enquanto se escondem atrás da parede de uma casa na região de Baba Amr (19/12)
A missão regional de monitoramento tem despertado ceticismo por causa da sua dimensão limitada, da sua composição e do fato de depender da logística do governo sírio. O desconforto da oposição com a missão se agravou depois de uma declaração do chefe dos monitores, um general sudanês, que disse ter tido uma primeira impressão "tranquilizadora" da visita dos observadores a Homs .

O general sudanês Mustafa al-Dabi, acusado por alguns de ligação com crimes de guerra ocorridos na década de 1990 na região de Darfur, fez na terça-feira uma rápida visita à cidade de Homs , epicentro dos confrontos, e disse não ter visto "nada de assustador".

Vídeos gravados por ativistas em Homs nos últimos meses mostram o rastro de morte e destruição deixado pela repressão militar, e ativistas dizem que centenas morreram na cidade nos últimos meses.

'Objetivo não é derrubar governo'

Um observador da Liga Árabe, que apareceu ao vivo em imagens transmitidas pelo canal de televisão Al Jazeera, disse à multidão enfurecida na Síria que o trabalho de sua equipe é apenas observar - e não ajudá-los a retirar do poder o presidente.

"Nosso objetivo é observar, não é remover o presidente, nosso objetivo é devolver paz e segurança à Síria", afirmou ele, falando em um alto-falante a partir do pódio de uma mesquita lotada de manifestantes no subúrbio de Douma, em Damasco.

O observador, entretanto, que não falou seu nome, prometeu divulgar o sofrimento dos manifestantes. "Pelo que ouvi aqui, sangue está sendo derramado", afirmou.

Um orador da mesquita tentou acalmar o público, pedindo que deixassem o observador falar. Mas um homem rompeu o silêncio imediatamente, gritando: "Meu filho é um mártir, eles o mataram", puxando a cantoria de "Com sangue e alma, nós redimiremos os mártires."

O observador, que pediu ao público que não o filmassem, mas que foi transmitido ao vivo pela Al Jazeera, afirmou: "Nós, como monitores, não deveríamos falar, mas a situação me forçou a dizer algo: Estamos monitorando os elementos de um protocolo assinado entre a Liga Árabe e o governo."

"Essa é uma missão humanitária para transmitir os problemas existentes e solucionar a crise."

*Com BBC, Reuters, EFE, AFP e AP

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