Sírios lembram horror de Hama enquanto Rússia resiste na ONU

Ao menos 23 foram mortos em nova onda de violência no mesmo dia em que Human Rights Watch denuncia tortura de crianças no país

iG São Paulo |

Manifestantes tomaram nesta sexta-feira as principais cidades sírias desafiando a repressão brutal do governo para lembrar o notório massacre de 1982 na cidade de Hama, que matou milhares.

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AP
Em Edleb, rebeldes sírios erguem suas armas durante funeral de companheiro, cujo caixão está envolto na bandeira da revolução

Ao menos 23 pessoas foram mortas nesta sexta-feira, ao mesmo tempo em que a Rússia, aliada de longa data da Síria, tem resistido aprovar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU , que apoia o plano de paz da Liga Árabe. O projeto árabe prevê a renúncia do presidente sírio Bashar al-Assad e a entrega do seu cargo ao vice.

Com o lema "Hama, nos perdoe", oponentes do regime pediram aos manifestantes para usar preto e marchar em homenagem às 10 mil a 40 mil que morreram no massacre ordenado por Hafez, pai de Assad. Milhares de manifestantes foram às ruas em Hama, Idlib, no norte, Daraa, ao sul e em Damasco.

"Hafez está morto, Hama não! Bashar vai morrer e a Síria não!" diziam cartazes carregados por manifestantes no distrito de Al-Kidam, em Damasco, de acordo com um vídeo publicado na internet pelos militantes. "A punição coletiva não vai funcionar dessa vez!", podia ser lido em outro.

Manifestantes surgiram do meio dos fiéis no porto de Latakia onde as forças de segurança abriram fogo para dispersá-los, segundo informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, um grupo ativista, relatando uma manifestação similar em Yabrod em Damasco.

Também houve manifestações em memória das vítimas de Hama na quinta-feira, enquanto países árabes e ocidentais buscavam um acordo sobre um plano de resolução da ONU para pressionar a Síria a acabar com a repressão aos dissidentes de quase 11 meses.

O último texto sendo avaliado pelos membros do Conselho de Segurança da ONU não pede explicitamente para Assad renunciar nem menciona embargo de armas ou sanções, mas "apoia inteiramente" um plano da Liga Árabe para facilitar a transição democrática. Diplomatas disseram na quinta-feira que o novo projeto levou em conta as preocupaçõs de Moscou, aliado fiel de Damasco.

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Em Nova York, uma fonte do alto escalão do Departamento de Estado americano afirmou nesta sexta-feira que os EUA estão "cautelosamente otimistas" com o apoio à resolução.

A autoridade, que pediu anonimato, disse que o último projeto de resolução proposto pelo Marrocos seria votado no Conselho de Segurança ao final do dia na sexta-feira ou no final de semana, uma vez que cumpriu com as condições russas. "Pela nossa perspectiva, a resolução apoia completamente o povo sírio e a Liga Árabe", disse.

No entanto, o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Guennadi Gatilov, declarou nesta sexta-feira que a Rússia não pode apoiar o novo projeto de resolução do Conselho de Segurança da ONU como está. "Recebemos (o projeto marroquino de resolução). Foram levadas em conta algumas de nossas preocupações, mas não é suficiente para que possamos apoiá-lo tal como está", declarou Gatilov, citado pela agência Interfax.

Segundo Gatilov, não está previsto que esse texto seja votado nos próximos dias. De acordo com fontes ouvidas pela Reuters, diplomatas do Conselho de Segurança aguardam nesta sexta por emendas a serem feitas pela Rússia a proposta de resolução.

Vitaly Churkin, o embaixador russo, teria dito em uma sessão a portas fechadas que vetaria o texto por declarar que a entidade "apoia totalmente" o plano árabe. Diplomatas disseram à Reuters que o embaixador russo, Vitaly Churkin devolveria o relatório com novas sugestões ainda nesta sexta. "Vamos dar uma olhada no que eles propõem", disse uma das fontes, acrescentando que "não há muito espaço para edições substanciais".

Na quinta-feira, o premiê do Catar, xeque Hamad bin Jassim al-Thani, disse à Al Jazeera que a Liga Árabe não aceitaria novas concessões. "A versão que temos é a mínima que podemos aceitar", disse o premiê, acrescentando que, se a Rússia não apoia a atual visão, deveria usar seu poder de veto.

Ao menos 23 sírios foram mortos nesta sexta-feira, incluindo nove soldados, segundo informaram grupos ativistas. Em um bairro central de Hama de Junub al-Malaab, forças de segurança abriram fogo contra os manifestantes, matando pelo menos e ferindo mais três, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

O Observatório relatou mais óbitos pelas forças de segurança na província Daraya em Damasco e disse que pelo menos duas crianças foram mortas nesta sexta-feira.

O grupo com sede britânica disse que oito soldados foram mortos em confrontos no sul de Daraa com combatentes do Exército Livre da Síria (FSA), composto por desertores e simpatizantes da causa anti-Assad. Outro soldado foi morto no lugarejo de Jasem, também na província de Daraa.

A violência na Síria matou pelo menos 5,4 mil pessoas desde o começo dos protestos, em março, segundo estimativas de grupos de defesa dos direitos humanos. A repressão implacável e o número de mortos cada vez maior não detiveram os manifestantes. Os protestos continuam quase diariamente e, nas últimas semanas, chegaram às portas de Damasco.

Reuters
Manifestantes protestam contra presidente sírio Bashar al-Assad na cidade de Daria, próximo a Damasco (02/02/2012)

Tortura de crianças

Nesta sexta-feira, a Human Rights Watch afirmou em relatório que registrou ao menos 12 casos de crianças detidas sob condições "desumanas" e torturadas, bem como relatos de menores que foram assassinadas em suas casas ou nas ruas do país.

Saiba mais: Unicef diz que 384 menores morreram na revolta da Síria

"As crianças não foram poupadas do horros do massacre da Síria", disse Lois Whitman, diretor de direitos da criança do grupo com sede em Nova York. "As forças de segurança da Síria mataram, prenderam e torturaram crianças em suas casas, suas escolas, ou nas ruas. Em muitos casos, as forças de segurança tinham as crianças como alvos assim como os adultos."

Segundo o registro, um adolescente de 16 anos na cidade de Tal Kalakh, perto da fronteira com o Líbano, disse que ficou detido por oito meses, durante os quais ficou preso em diferentes prisões, bem como na Prisão Central de Homs.

O garoto, chamado pela Human Rights Watch de Alaa, disse que as forças de segurança primeiro perguntaram quantos protestos ele participou, e então algemaram sua mão esquerda no teto e deixaram-no pendurado por cerca de sete horas na ponta dos pés.

"Eles me bateram por duas horas com cabol e me deram choques. Então, eles jogaram água no chão e em mim", disse.

Em outro caso, os pais de um garoto de 13 anos da cidade costeira de Latakia afirmaram a Human Rights Watch que em dezembro as forças de segurança o detiveram por nove dias. Segundo os pais, ele foi acusado de queimar fotografias de Assad, vandalizar veículos das forças de segurança e de incitar outras crianças a participar das manifestações.

Os agentes de segurança, então, o queimaram com cigarros no pescoço e nas mãos, de acordo com seus pais, e jogaram água fervente em seu corpos. Um ex-detento adulto disse ao grupo de direitos humanos que algumas crianças foram estupradas durante seu período na cadeia.

Com AP e AFP

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