Sírios entram em greve contra repressão de Assad

Enquanto comércio em Homs estava fechado, partidários do presidente sírio realizaram marcha durante chegada de autoridades árabes

iG São Paulo |

Reuters
O presidente sírio, Bashar al-Assad, durante encontro com o premiê do Catar, Hamad bin Jassim Bin Jabr Al-Thani
Trabalhadores de Homs e de cidades vizinhas no noroeste da Síria iniciaram uma greve geral nesta quarta-feira contra a repressão do presidente Bashar al-Assad a manifestantes. A maior parte dos trabalhadores ficou em casa e muitas lojas não abriram na cidade, que abriga um milhão de habitantes.

A greve afetou também regiões do interior e cidades na província de Idlib, perto da Turquia. "Funcionários públicos participaram (da greve) pela primeira vez. Algumas lojas de alimentos ficaram abertas", disse um morador de Homs, que se identificou como Omar.

"Todo mundo fechou o comércio e uma multidão se reuniu perto do museu de mosaicos no centro da cidade, onde as pessoas foram recebidas a tiros. A AMN (polícia de segurança) continua disparando a esmo para acabar com a greve", disse um morador por telefone. Era possível ouvir o som da metralhadora ao fundo.

Na semana passada, o comércio fechou as portas na província de Deraa, mais ao sul, que faz fronteira com a Jordânia, em mais um sinal do aumento da revolta civil contra os 41 anos de governo da família Assad. O levante popular entrou no oitavo mês e, segundo a ONU, a repressão deixou pelo menos 3 mil mortos .

Enquanto a greve prosseguia em Homs, centenas de sírios realizaram uma marcha em Damasco para dar apoio ao atual presidente, pouco antes da chegada ao país de autoridades da Liga Árabe que pretendem pressionar Assad para que ele dialoque com a oposição.

O comitê ministerial árabe, liderado pelo premiê do Qatar, se reuniu com o presidente durante a tarde, mas as esperanças de que a missão seja bem-sucedida são parcas. A oposição recusa qualquer diálogo com o regime, particularmente com a continuidade das violentas intervenções militares.

De acordo com ativistas, pelo menos 15 civis foram mortos nessa quarta-feira nos confrontos, sendo seis deles na cidade onde se deu a greve. Segundo a CNN, entre os mortos estavam três crianças. O Observatório Sírio de Direitos Humanos acrescentou que nove soldados foram mortos na província de Hama quando o ônibus no qual estavam viajando foi atingido por um foguete.

A visita das autoridades acontece uma semana depois da reunião dos 22 países da Liga Árabe, que deu à Síria um prazo para até o final do mês encerrar as ações militares, libertar os detidos nos protestos, e iniciar o diálogo com a oposição.

Bassma Kodmani, porta-voz do grupo de oposição, o Conselho Nacional da Síria, disse que é "impossível" pensar em diálogo, enquanto os protestos são enfrentados militarmente pelo regime. "E mesmo se as condições adequadas para o diálogo prevalecerem, a única coisa a se discutir seria um cronograma para a transferência pacífica do poder."

Kodmani fez coro aos sentimentos dos manifestantes anti-Assad, muitos dos quais expressaram desapontamento com a Liga Árabe e pediram para que o grupo suspendesse a filiação da Síria. "A Rússia dá a Bashar proteção internacional, o Irã dá armas, e árabes dão tempo", escreveram manifestantes em um cartaz. "Não ao diálogo com o assassino de crianças", dizia outro.

O CNS pediu em depoimento por proteção internacional dos civis, além de exigir que os observadores estrangeiros possam entrar no país para monitorar a situação.

Apesar dos apelos da oposição, centenas de sírios carregando bandeiras vermelhas, pretas e brancas e cartazes com fotos de Assad se reuniram em Damasco em uma marcha, cuja intenção era coincidir com a visita dos ministros árabes.

AP
Manifestantes pró-Assad realizam protestos em Damasco, na Síria

Assad continua tendo um apoio significativo entre muitos sírios, inclusive aqueles que se beneficiam financeiramente do regime, pertencentes a minorias que temem ser alvo de retaliações se a maioria sunita tomar o poder, além de outros que não enxergam uma alternativa segura ao presidente.

Assad enfrenta pressão internacional sobre a sua repressão ao levante popular, com Estados Unidos e União Europeia lançando sanções contra as exportações de petróleo e empresas da Síria, ajudando a colocar a economia em recessão.

A França disse na quarta-feira que o governo de Assad quase que certamente sucumbiria à pressão dos protestos e sanções, mas isso levaria tempo e o conflito no país poderia se aprofundar mais.

"Isso terminará com a queda do regime. É quase inevitável", afirmou o ministro de Relações Exteriores, Alain Juppé. "Mas infelizmente isso pode levar tempo, porque a situação é complexa, porque há o risco de uma guerra civil entre as facções sírias, porque os países árabes ao redor não querem nossa intervenção", disse ele à rádio francesa.

Com AP e Reuters

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