Síria lança ofensiva midiática exibindo vala comum e manifestação pró-governo

Milhares se manifestam a favor de Assad em Damasco, enquanto governo faz visita guiada de jornalistas em Jisr al-Shughour

iG São Paulo |

As autoridades sírias lançaram nesta quarta-feira uma ofensiva midiática com a apresentação à imprensa de uma segunda vala comum na cidade de Jisr al-Shughour , no noroeste, e com a organização de uma grande manifestação pró-governo em Damasco. A informação sobre a primeira suposta vala com corpos de soldados mortos por "gangues" foi divulgada na segunda-feira.

AFP
Sírios seguram bandeira nacional gigante em manifestação pró-governo no subúrbio de Mezze, a oeste de Damasco
Três meses após o início da onda de contestação, no momento em que a pressão aumenta ainda mais sobre Bashar al-Assad, milhares de manifestantes se reuniram nesta quarta-feira na via que liga o bairro de Mazzeh, subúrbio residencial do oeste da capital, ao centro de Damasco, em torno da "maior bandeira síria", colocada no chão e com 2,3 mil metros de comprimento.

Vários manifestantes agitavam bandeiras sírias e exibiam imagens do presidente, em um ambiente de festa com cantos patrióticos, segundo imagens da televisão. "Com a nossa alma e nosso sangue, nos sacrificamos por ti, Bashar" ou "Deus, a Síria, Bashar", bradavam outros.

Ao mesmo tempo, Damasco organizou uma viagem de imprensa guiada à cidade de Jisr al-Shughour, abandonada por seus 50 mil moradores e retomada no domingo pelo Exército durante uma ofensiva lançada três dias antes .

As autoridades apresentaram aos jornalistas, incluindo da AFP, cinco corpos colocados ao lado daquilo que foi apresentado como uma "segunda vala comum" descoberta no domingo. "Alguns estão desfigurados, corpos tiveram membros cortados e os crânios foram quebrados", declarou aos jornalistas o médico legista Zaher Hajo. "Está claro que foram torturados antes de ser mortos", afirmou, considerando que teriam sido mortos há cerca de dez dias.

Em poder dos soldados, um indivíduo foi apresentado como "um homem armado que participou do massacre do QG das forças de segurança " em 6 de junho. Segundo o médico, os corpos na vala eram de homens que "tinham sido mortos" no ataque que, segundo as autoridades, deixou 120 policiais mortos. A versão é contestada por opositores, desertores e refugiados, que alegam que as mortes foram consequência de uma revolta militar.

Enquanto isso, o regime sírio continua a impedir a entrada em seu território das equipes humanitárias, como exigem os ocidentais. Especialistas do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos chegaram à Província de Hatay, no sul fa Turquia - para onde fugiram milhares de refugiados sírios -, para "investigar os abusos" na Síria, segundo um membro da missão.

Mais de 8,5 mil sírios receberam refúgio na Turquia, aos quais se somam outros 5 mil refugiados no Líbano. Depois que cruzam a fronteira turca, eles são levados para campos montados pelo Crescente Vermelho.

AFP
Refugiados sírios se cumprimentam em acampamento do Crescente Vermelho da Turquia no distrito turco de Yayladagi, na cidade de Hatay
Negociações na Turquia

Um emissário de Assad deve ser recebido nesta quarta-feira pelo primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, que conversou por telefone com o líder sírio na terça-feira e o exortou a estabelecer com urgência um calendário de reformas e pôr fim à repressão que deixou entre 1,1 mil e 1,4 mil mortos e levou à prisão mais de 10 mil, segundo ONGs e a ONU.

A França continua a tentar convencer os outros 14 membros do Conselho de Segurança da ONU com o objetivo de obter uma maioria de 11 votos para votar um projeto de resolução condenando a repressão, iniciativa que enfrenta a oposição de Rússia e China.

O Exército manteve, apesar disso, sua repressão na região de Idleb, a 330 km ao norte de Damasco, principalmente em Ariha e Maaret al-Nomaan, nas imediações de Jisr al-Shoughour, segundo um militante dos Direitos Humanos.

De acordo com testemunhas, o Exército impede a população de deixar Idleb, atirando naqueles que tentam enganar os soldados dos postos de controle. Segundo a imprensa oficial, o Exército persegue "grupos armados" em torno de Jisr al-Shoughour e o governo "pede às pessoas que voltem as suas aldeias".

"Os grupos armados aterrorizam os habitantes de Maaret al-Nomaan como vinham fazendo em Jisr al-Shoughour", indica a agência Sana. Segundo a jornalista da AFP presente em Jisr al-Shoughour, alguns tanques e veículos de transporte de tropas estavam posicionados nas imediações da cidade.

Edifícios oficiais registraram princípios de incêndio, principalmente o Palácio da Justiça e o QG das forças de segurança. As lojas estavam fechadas. A mobilização do Exército não impedia, entretanto, que os opositores continuassem a protestar: dezenas de milhares saíram às ruas de Hama (centro), segundo um militante dos Direitos Humanos.

*Com AFP

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