Símbolo dos protestos, praça Tahrir vira cidade autônoma

Centenas de tendas improvisadas abrigam os manifestantes, autoridades máximas do local, que controlam passaporte e fazem revistas

Raphael Gomide, enviado ao Cairo |

A praça Tahrir, símbolo dos protestos que pedem há 12 dias a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak , transformou-se em uma cidade autônoma com milhares de “habitantes”, governada pelos manifestantes que pedem a democratização do país.

Permanentemente ocupada desde 25 de janeiro por quem canta e afirma que só sairá quando Mubarak deixar o poder, a praça abriga centenas de tendas improvisadas e barracas de camping, onde as pessoas passam as noites e parte dos dias. Deitam sobre cobertores, tapetes ou pedaços de papelão. A comida é feita em panelas improvisadas, com fogo a lenha, ou se restringe a pães, doces e garrafas de água distribuídos desde os primeiros dias por doadores.

Dentro da Tahrir, a autoridade máxima é dos manifestantes. O exército apenas observa à distância, sem interferir em nada. Voluntários foram organizados em grupos para exercer as diferentes funções relativas a uma cidade com população extremamente flutuante. São identificados por um adesivo no braço esquerdo, que aponta a “especialidade”.

Há os responsáveis pela segurança, que integram as inúmeras barreiras de controle de passaportes e revista pessoal, para impedir que se entre armado no local; vestindo jalecos, os médicos, enfermeiros e demais auxiliares se encarregam de cuidar dos feridos e da distribuição de remédios em geral; auxiliados pelos seguranças, os soldados participam das batalhas de pedras, pedaços de pau e barros de ferro; outro grupo cuida da limpeza da praça, com pouco sucesso.

Não faltam nem os camelôs, a cada dia mais numerosos, vendendo água, refrigerantes, chá, bandeiras do Egito, gorros, bandanas e biscoitos. Tudo a preços populares.

Existe ainda um insólito serviço de “informação pública”, que expõe no chão os jornais do dia, página por página em uma comprida fila de papel de dez metros, usando pedras como peso. De pé, cócoras ou sentados, os egípcios se atualizam sobre o que está acontecendo na “vizinha” Cairo e no resto do país e do mundo.

A segurança é um dos aspectos mais importantes. Para se entrar na “cidade Tahrir”, é preciso primeiro passar pelas barreiras do Exército. Em seguida, voluntários da área fazem, em cada um dos cerca de dez acessos, seguidas correntes humanas, pelas quais só é possível passar apresentando uma identidade e sendo revistado, para prevenir armas no local. Os documentos egípcios têm a profissão do portador escrita no verso. O objetivo é impedir que policiais e agentes do governo se infiltrem. As mulheres passam separadas dos homens.

O sistema é descentralizado, e cada área tem seus responsáveis por setor, espécies de “subprefeitos”, embora não haja um comando central – as lideranças do movimento são mais políticas do que administrativas.

O serviço de saúde conta com um “hospital”, uma mesquita adaptada em uma das vias vicinais, e dez postos de saúde em diferentes pontos. São dezenas de médicos e enfermeiros cuidando de ferimentos mais leves – os graves são transportados para unidades de emergências no Cairo.

“Tenho dormido há três dias e muito bem. Aqui é muito seguro. Todos aqui estão em busca de liberdade. Ninguém vem para roubar, pegar nada do outro. Se você esqueceu uma carteira, pode contar que vai achar”, disse o farmacêutico Hawdy Tawfiq, 45 anos.

Um grupo de jovens criou até os “Hotéis da Liberdade”, suas barracas de camping. Outros, sem lugar, dormem mesmo ao relento, no frio.

Talvez um dos aspectos que devam ser mais observados é o sanitário. Há lixo por toda parte e, como faltam banheiros, alguns pontos da praça e becos que levam a ruas paralelas têm um odor fétido, quase insuportável mesmo a narizes menos sensíveis.

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