Rússia pede explicações à França sobre armas para rebeldes líbios

Segundo chanceler russo, fornecimento de armas para opositores viola resolução do Conselho de Segurança; União Africana alerta para risco de partilha dentro do país

iG São Paulo |

O governo da Rússia pediu, nesta quinta-feira, explicações da França sobre o fornecimento de armas aos rebeldes líbios.

"Perguntamos hoje a nossos colegas franceses se procede a informação de que tenham fornecido armas aos rebeldes líbios. Esperamos a resposta. Se for confirmado, será uma grave violação da resolução de 1970 do Conselho de Segurança da ONU", declarou o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, sobre a cláusula que pede o fim da violência contra o povo líbio e prevê proteção a civis e áreas densamente povoadas sob ameaça na Líbia.

O embaixador francês na ONU, Gerard Araud, no entanto, disse que o envio de armas aos rebeldes líbios respeita as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. As declarações de Lavrov foram feitas na véspera da visita à Moscou do ministro de Relações Exteriores da França, Alain Juppé, com quem deve se encontrar.

A União Africana também criticou, nesta quarta-feira, a atitude da França. O bloco de países africanos afirmou que a entrega de armas aos insurgentes traz riscos de criar na Líbia uma situação semelhante à da Somália, país devastado por uma guerra civil. "O risco de guerra civil, o risco da partilha do país, o risco da 'somalização' do país, o risco de ter armas em todo o lugar (...) com o terrorismo. Esses riscos preocupam os países vizinhos", disse à BBC o presidente da Comissão da União Africana, Jean Ping.

AFP
Rebeldes líbios tomam depósito de armas de forças de Kadafi, em Zintan, perto de Trípoli (28/6)
Na quarta-feira, a França confirmou ter lançado no início do mês paraquedas com armas aos rebeldes que combatem as forças do líder líbio, Muamar Kadafi, nas Montanhas Ocidentais da Líbia. A informação havia sido primeiramente divulgada pelo jornal francês Le Figaro, que afirmou que o objetivo da medida era ajudar os rebeldes em seu avanço para a capital do país, Trípoli.

"Começamos enviando ajuda humanitária: alimentos, água e medicamentos", disse o coronel Thierry Burkhard, porta-voz militar francês. "Durante a operação, a situação para os civis em campo piorou. Enviamos armas e meios de autodefesa, principalmente munição", disse. 

De acordo com o governo da França teriam sido enviadas por aviões cerca de 40 toneladas de armas para os rebeldes que lutam contra o regime de Kadafi. Citando fontes não-identificadas, o Le Figaro afirmou que a França lançou "grandes quantidades" de armas, incluindo lançadores de foguetes, rifles de assalto, metralhadoras e mísseis antitanque. Segundo o Ministério da Defesa francês, também teriam sido enviados aos rebeldes alguns tanques leves por via terrestre, através da fronteira líbia com a Tunísia.

A decisão de enviar armas sem consultar os parceiros da Otan (Organização do Atlântico Norte) ocorreu "porque não havia outra forma de proceder", disse ao Le Figaro uma fonte de alto escalão.

Revolta

A rebelião contra os 41 anos de regime de Kadafi fez apenas ligeiros progressos desde que começou a receber apoio dos bombardeios aéreos da Otan , há três meses, mas agora os revoltosos dizem se aproximar da capital.

No domingo, os rebeldes das Montanhas Ocidentais, que ficam a sudoeste de Trípoli, obtiveram sua maior vitória das últimas semanas, quando chegaram à localidade de Bir al-Ghanam , onde agora enfrentam as tropas governistas. Na terça-feira, os rebeldes tomaram um importante depósito de munições em uma área desértica, a 25 km de Zenten, ao sudoeste de Trípoli.

Mapa

O Le Figaro disse ter tido acesso a um mapa confidencial, com selo dos serviços de inteligência franceses, mostrando várias áreas nas montanhas sob comando dos rebeldes para onde armas poderiam ser enviadas.

Falando a jornalistas na terça-feira após uma reunião do presidente francês, Nicolas Sarkozy, com o líder rebelde Mahmoud Jebril Elwarfally, o porta-voz Mahmoud Shammam disse que seu grupo não havia solicitado mais assistência militar. "Estamos obtendo nossos meios (militares) de outros lugares", disse o líbio, sem detalhar. Os rebeldes dizem que também têm recebido armas do Catar, especialmente em Benghazi, seu reduto opositor, no leste da Líbia.

Sarkozy mantém uma estreita relação com os rebeldes líbios desde que aviões franceses começaram a bombardear a Líbia cumprindo um mandato da ONU para proteger os civis locais. Embora descarte uma intervenção terrestre, Sarkozy já havia prometido anteriormente intensificar os bombardeios aéreos. No começo de junho, helicópteros franceses e britânicos se envolveram em operações destinadas a tornar mais precisos os bombardeios da Otan contra alvos do governo líbio.

A declaração sobre o envio de armas aos rebeldes provavelmente atrairá mais críticas da Rússia e China, que acreditam que a Otan e seus aliados ultrapassaram o que estabelece a resolução da ONU que autoriza uma ação militar internacional no país.

*Com AFP e BBC

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