Rússia oferece mediação em acordo para Kadafi deixar o poder

Proposta, que representa mudança de tom de Moscou em relação a ex-aliado, foi anunciada por líder russo após conversa com Obama e Sarkozy

iG São Paulo |

A Rússia decidiu abandonar o antigo aliado Muamar Kadafi, e ofereceu mediação para um acordo para o líder líbio deixar o país que ele governou por mais de 40 anos.

A proposta, que representa uma mudança na posição crítica de Moscou em relação aos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra forças de Kadafi no país do norte da África.

AFP
Presidente russo, Dmitri Medvedev (E), ao lado do presidente francês, Nicolas Sarkozy, em Deauville, que sediou reunião do G8
Além disso, reflete a crescente frustração da comunidade internacional com a crise na Líbia e pode demonstrar o desejo do Kremlin em conquistar espaço de influência diante das mudanças dos últimos meses em países árabes palcos de revoltas populares.

Segundo a Associated Press, com Kadafi cada vez mais isolado e a Otan intensificando seus ataques, a Rússia pode estar visando recursos naturais da Líbia, como petróleo e gás, e se preparando para o lucrativo mercado líbio quando este cair nas mãos dos rebeldes líbios.

“Ele deveria sair”, disse o presidente russo, Dmitri Medvedev sobre Kadafi. “Eu propus nossa mediação aos nossos parceiros. Todos acreditam que seria últil”, acrescentou.

A proposta, que reflete a mudança de tom da Rússia em relação ao conflito na Líbia, foi anunciada por Medvedev no encontro dos líderes do G8 (grupo dos sete países mais ricos do mundo mais Rússia), em Deauville, na França, depois de uma reunião de 90 minutos com os presidentes Barack Obama (Estados Unidos) e Nicolas Sarkozy (França).

Pressão

Os líderes presentes no encontro pediram a saída de Kadafi do poder. "Kadafi e o governo líbio fracassaram em sua responsabilidade de proteger a população líbia e perderam toda a legitimidade", diz um comunicado emitido pelos líderes ao final do encontro. "Ele não tem futuro em uma Líbia livre e democrática. Ele deve partir."

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assegurou ainda que seu país e a França estão unidos em sua determinação de "terminar o trabalho" na Líbia e alcançar a queda de Muamar Kadafi. A declaração foi feita após encontro bilateral com o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

"Compartilhamos da mesma análise: Kadafi deve deixar o poder", pois "o povo líbio tem direito a um futuro democrático", disse Sarkozy.

Sarkozy disse também que a campanha militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Líbia será intensificada, enquanto o premiê britânico, David Cameron, anunciou que o Reino Unido enviará helicópteros Apache para reforçar o ataque às forças líbias.

Obama, por sua vez, disse que os dois líderes concordam que foram obtidos progressos na campanha da Otan na Líbia para proteger a população civil, mas que o objetivo da missão não poderá ser cumprido totalmente se Kadafi permanecer no poder. "Estamos de acordo que alcançamos progressos em nossa campanha na Líbia, mas não se pode cumprir o mandato da ONU de proteger os civis enquanto Kadafi permanecer na Líbia dirigindo suas forças rumo a atos de agressão contra o povo líbio", disse.

Ajuda econômica

No encontro na França, o G8 e bancos de empréstimo internacional anunciaram a intenção de fornecer US$ 40 bilhões (R$ 64,6 bilhões) para financiar os países árabes que tentam estabelecer sistemas democráticos. Inicialmente, porém, serão dados US$ 20 bilhões (mais de R$ 32,3 bilhões), segundo comunicado do grupo.

Apesar de as autoridades não terem detalhado de onde ou quando o total de US$ 40 bilhões virá nem em que será usado, a mensagem do presidente dos EUA, Barack Obama, e dos outros líderes do G8 pareceu ser um alerta aos regimes autocráticos no mundo árabe de que não receberão auxílio e investimento dos países ricos, enquanto novas democracias são encorajadas a abrir suas economias.

O plano de apoio é um endosso à proposta de Obama , de assistir economicamente os processos de transição no Oriente Médio e no norte da África de modo que esses países possam reformar suas finanças, criar postos de emprego e se integrar ao comércio mundial.

O ministro tunisiano das Finanças, Jalul Ayed disse que o presidente francês, Nicolas Sarkozy, sugeriu o pacote global de US$ 40 bilhões durante os encontros. A França, que exerce a presidência rotativa do G8, convidou para a reunião de Deauville os chefes de governo da Tunísia, Beji Caid Essebsi, e do Egito, Esam Sharaf, países pioneiros do mundo no caminho árabe para a democracia.

Mas uma autoridade francesa disse que os US$ 40 bilhões é o objetivo total, mas os montantes para cada país e o cronograma ainda estão sob discussão. O comunicado do grupo disse que US$ 20 bilhões de bancos de desenvolvimento internacionais poderão ir para o Egito e a Tunísia durante os próximos anos. Além do financiamento institucional, disse uma autoridade francesa, o objetivo são mais US$ 20 bilhões de apoio bilateral dos membros do G8, dos ricos Estado do Golfo Pérsico e de outros.

"As mudanças em andamento no Oriente Médico e norte da África são históricas e têm o potencial de abrir as portas para o tipo de transformação que ocorreu no Centro e no Leste da Europa após a queda do Mundo de Berlim", diz o comunicado.

"Nós, membros do G8, apoiamos fortemente as aspirações da Primavera Árabe, assim como aquelas do povo iraniano", diz o comunicado. "Saudamos a decisão das autoridades egípcias de pedir assistência ao FMI e a bancos multilaterais de desenvolvimento, e o pedido da Tunísia por uma política de empréstimos conjunta e coordenada."

"Nesse contexto, bancos multilaterais de desenvolvimento disponibilizarão US$ 20 bilhões, incluindo 3,5 bilhões de euros do EIB (Banco de Investimento Europeu), para Egito e Tunísia para os esforços das reformas entre 2011-2013", diz o comunicado. "Os membros do G8 já estão em condição de mobilizar apoio bilateral substancial para ajudar nesses esforços. Saudamos o apoio de outros parceiros bilaterais, incluindo da própria região."

Na quinta-feira, o Reino Unido prometeu 110 milhões de libras (cerca de US$ 175 milhões de dólares ou R$ 285 milhões) para impulsionar reformas nos países árabes que passam por uma transição democrática.

Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou em nota ao G8 que estuda fornecer empréstimos de até US$ 35 bilhões (quase R$ 56,6 bilhões) aos países árabes, caso os governos da região peçam ajuda ao organismo. O FMI declara-se disposto a conceder empréstimos aos países importadores de petróleo do Oriente Médio e do norte da África, que necessitam de mais ajuda financeira.

*Com AP, Reuters, AFP e EFE

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