Robert Gates defende que outros países treinem rebeldes líbios

Secretário de Defesa americano descarta responsabilidade dos Estados Unidos no treinamento de forças opositoras a Muamar Kadafi

iG São Paulo |

O secretário de Defesa americano, Robert Gates, disse nesta quinta-feira que os rebeldes líbios precisam treinamento para enfrentar o Exército de Muamar Kadafi, mas são autoridades de defesa de "outros países" e não dos Estados Unidos que devem se encarregar dessa formação.

"Penso que a oposição (líbia) precisa, antes de mais nada, de treinamento, comando e organização", declarou Gates. "Muitos países estão em condições de dar esta assistência. Não é uma capacidade que só os Estados Unidos possuem e, na minha opinião, outros deveriam ser responsáveis por isso", afirmou Gates durante uma audiência no Congresso.

AP
Gates (E) e Mullen estiveram no Congresso americano nesta quinta-feira
Gates e o militar da mais alta patente do país, o Almirante Mike Mullen, foram nesta quinta-feira ao Congresso dos Estados Unidos, no dia seguinte à audiências a portas fechadas, para tranquilizar os parlamentares sobre a posição do governo Obama ante muitas críticas e ceticismo. Para Mullen, o treinamento dos rebeldes "não deve forçosamente caber a um país da Otan", mas poderia ser feito por uma nação árabe que faz parte da coalizão, disse em referência ao Catar e aos Emirados Árabes Unidos.

Vários parlamentares do Congresso americano declararam nesta quinta-feira que pretendem realizar uma votação formal sobre as operações militares americanas na Líbia, com pontos de vista diferentes em relação ao caminho a seguir. O senador democrata John Kerry, seu colega republicano John McCain e o independente Joe Lieberman disseram trabalhar em um projeto de resolução para autorizar as missões militares americanas na Líbia.

Chanceler

Nesta quinta-feira também, enquanto as forças rebeldes na Líbia começam um cauteloso reagrupamento depois de bater em retirada desordenada de cidades previamente conquistadas, a Grã-Bretanha afirmou que não foi concedida ao chanceler Moussa Koussa , que desertou do regime na quarta-feira, imunidade diplomática para livrá-lo de um julgamento. 

Em mais um sinal de que as divisões no governo líbio podem estar se ampliando, Ali Abdussalam el-Treki, uma outra importante autoridade do país desertou nesta quinta-feira e seguiu para o Egito. Durante décadas de serviço, Treki serviu como chanceler e embaixador para a ONU, onde foi presidente da Assembleia Geral.

Segundo o jornal americano The New York Times, em Trípoli, rumores de outras deserções envolviam nomes importantes do governo do líder líbio, Muamar Kadafi, como o primeiro-ministro, o ministro do Petróleo, o porta-voz do Parlamento. As informações, no entantao, não puderam ser confirmadas.

AFP
Rebelde líbio perto da cidade de Brega, no leste do país
A deserção de Koussa marca uma nova guinada em uma carreira que se estende por mais de três décadas. Na elite líbia, Koussa cresceu, primeiro, cuidando das relações com movimentos estrangeiros de “libertação nacional”, depois tornando-se, em 1994, o chefe do serviço secreto de Kadafi, posto em que permaneceu até 2009, quando se tornou chanceler.

Como o principal espião da Líbia, ele recebeu a tarefa de tirar o então Estado pária do isolamento e teve papel crucial em negociar a compensação para as famílias vítimas dos atentados contra o voo da Pan Am em Lockerbie (Escócia, em 1988) e contra o voo da companhia francesa UTA, no Níger (1989). Até as vésperas do início da revolta líbia, em fevereiro passado, os esforços de Koussa para reintegrar o país na comunidade internacional pareciam ter surtido efeito: as conexões do comércio do petróleo do país se estendiam por toda a Europa, e portas se abriam para Kadafi nas capitais europeias. 

Oficiais de inteligência britânicos e de países que fazem parte da coalizão ocidental terão uma extensa agenda para discutir com Koussa. Dentre os principais assuntos que devem ser debatidos estão estruturas das forças militares leais a Kadafi.

Otan

Nas operações contra as forças leais a Kadafi, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) assumiu nesta quinta-feira o comando total das ações militares internacionais na Líbia ao se completar a transição da coalizão liderada por França, Reino Unido e Estados Unidos à Aliança Atlântica.

Transferência do comando da operação ocorre em meio ao debate sobre armar os rebeldes líbios para acelerar a queda do regime de Muamar Kadafi. Nesta quinta-feira, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, disse ser contra a ideia. Na quarta-feira, fontes do governo dos EUA confirmaram que o presidente Barack Obama assinou uma ordem que autoriza o apoio secreto às forças rebeldes.

O novo passo é tomado depois de os 28 países aliados terem chegado a um acordo no último domingo para que a Otan ficasse com o controle e a coordenação de todas as operações de proteção da população civil líbia, o que implica ataques contra alvos terrestres lançados até agora pela coalizão internacional.

Alguns dias antes, a organização já havia assumido a direção da zona de exclusão aérea imposta sobre a Líbia em virtude do estipulado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e, previamente, tinha feito o mesmo com a vigilância do embargo de armas que pesa sobre o país africano por meio de uma missão naval em águas do Mediterrâneo.

A transferência do controle sobre os ataques aéreos à Otan coincidiu com a redução dos bombardeios internacionais contra as forças de Kadafi, o que permitiu às tropas leais ao líder líbio contra-atacar e obrigar os rebeldes a recuar .

Dessa forma, os rebeldes perderam na quarta-feira a maior parte do território que haviam tomado em sua ofensiva na segunda-feira, a última delas a cidade de Ras Lanuf, de modo que a frente está agora em Brega. A Aliança assegurou que seu único objetivo é proteger a população civil, cumprindo com o mandato da ONU, e não apoiar um ou outro grupo.

Armamento aos rebeldes

Estados Unidos e Reino Unido, no entanto, levantaram a possibilidade de armar os rebeldes para que derrotem o regime de Kadafi, uma questão que gera desconfiança em alguns setores de Washington pelo temor de que haja membros da rede terrorista Al-Qaeda entre os rebeldes. No entanto, alguns países da Aliança, como a Bélgica, pronunciaram-se contra essa opção, que, segundo sua opinião, colocaria os países árabes contra a ação internacional.

Ao anunciar que rejeitava a ideia de fornecer armamento aos rebeldes líbios, o secretário-geral da Otan reiterou que a Aliança está no país para proteger, e não armar os líbios. "Estamos lá para proteger o povo líbio, não para armá-lo", declarou Rasmussen. "Até onde a Otan sabe, e eu falo em nome da organização, nos concentraremos no controle do embargo de armas, e o objetivo claro de um embargo é interromper o fluxo de armas no país", afirmou.

Ainda nesta quinta-feira, rebeldes e forças do governo se enfrentaram na cidade de Brega, no leste do país. Os rebeldes conseguiram uma leve vantagem e os fizeram retroceder 40 quilômetros em direção ao oeste do país.

De Benghazi, capital dos revolucionários, o porta-voz dos insurgentes, Mohammed Mergirby, disse à agência EFE que "as forças de Kadafi estão a 40 quilômetros a oeste de Brega, que está sob controle dos rebeldes".

*Com EFE, AFP e BBC

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