Repórter do 'Estado' é libertado na Líbia

Correspondente do jornal em Paris está na casa do embaixador brasileiro em Trípoli e deve deixar país na sexta-feira

Luísa Pécora, iG São Paulo |

AE
Andrei Netto, correspondente em Paris do jornal O Estado de S.Paulo, que esteve preso por oito dias na Líbia
O repórter de O Estado de S. Paulo Andrei Netto, um dos enviados do jornal à Líbia, foi libertado nesta quinta-feira após permanecer oito dias preso no país do norte da África. Ele está abrigado na casa do embaixador brasileiro em Trípoli, George Ney Fernandes. Netto está bem de saúde e deve deixar a Líbia, na condição de deportado, em direção à França na sexta-feira.

Em coletiva na tarde desta quinta-feira na sede do jornal, o editor de Internacional do Estadão, Roberto Lameirinhas, disse que Netto foi preso perto da cidade de Sabrata, a 60 km da capital, Trípoli. "Ele está bem, não tem nenhum ferimento, não foi torturado", afirmou.

Antes, o diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, e a editora-chefe Cida Damasco afirmaram que Netto conversou primeiramente com sua mulher, com quem mora na capital francesa.

Segundo seu relato, Netto foi preso em 2 de março quando tentava regularizar seus documentos, pois havia entrado na Líbia em 19 de fevereiro sem um visto de trabalho. Nesse momento, quatro homens chegaram, deram-lhe uma coronhada, o encapuzaram e o levaram para o que acredita ser uma base militar, onde ficou preso em uma cela. De acordo com Lameirinhas, no momento da coronhada ele disse ter perdido "por uns instantes o sentido da audição".

Netto também disse à mulher que ficou incomunicável durante todos os oitos dias de prisão, período no qual pediu repetidamente acesso ao embaixador brasileiro, o que lhe foi negado. "Ele recebia alimentação e água normalmente, mas estava desconfortável por não saber quando seria solto e não ter acesso às autoridades", afirmou Lameirinhas.

De acordo com o editor, o repórter foi comunicado na quarta-feira que seria libertado. Ao ser solto, as autoridades devolveram seu dinheiro, laptop e outros pertences e o levaram ao que parecia uma representação diplomática, onde foi entregue ao embaixador brasileiro. Segundo Lameirinhas, no início o repórter temeu muito pelo que poderia acontecer mas agora está muito feliz com a libertação.

O outro enviado especial do jornal à Líbia, Lourival Sant'Anna, continuará no país fazendo a cobertura do conflito. De acordo com Lameirinhas, o jornal enviará um outro repórter à Líbia para substituir Netto.

A informação de que o jornalista brasileiro seria solto foi dada de manhã pelo embaixador da Líbia no Brasil, Salem Ezubedi, à Comissão de Direitos Humanos do Senado, um dia depois de o jornal ter noticiado seu desaparecimento. "O fluxo de informações nas últimas 48 horas, combinado à ação diplomática, foi fundamental para acelerar o desfecho", disse o diretor de Conteúdo do Grupo Estado. 

Questionado se acreditava que a prisão por autoridades líbias era legal pelo fato de Netto ter entrado no país sem um visto de trabalho, Gandour afirmou que achava inadequado um profissional ter sido impedido de realizar suas funções e de contatar as autoridades.

Correspondente do Estado em Paris desde 2006, Netto participou de importantes coberturas, como o terremoto de L’Áquila, na Itália, o acidente do voo 447 Rio-Paris da Air France e cúpulas do G-20. Gaúcho de Porto Alegre, tem 34 anos e é casado.

Repórter do Guardian

Antes da informação sobre a libertação de Netto, o jornal britânico The Guardian anunciou nesta quinta-feira que realiza grandes esforços para determinar o paradeiro do correspondente Ghait Abdul-Ahad, que durante duas semanas fazia a cobertura do conflito na Líbia na companhia do jornalista brasileiro.

A Lameirinhas, Netto disse que Abdul-Ahad parece estar detido no país, mas em uma prisão diferente da sua. "Sua situação preocupa muito o Estadão", afirmou.

Os dois entraram no país pela fronteira com a Tunísia em 19 de fevereiro, quatro dias após o início do conflito, e viajavam juntamente com um guia líbio. Segundo o Guardian, Abdul-Ahad fez o último contato com o diário no domingo, por meio de uma terceira pessoa, quando estava nos arredores de Zawiya, cidade no oeste do país localizada a 50 quilômetros de Trípoli, que vem sendo cenário de duros confrontos nos últimos dias.

Na quarta-feira, O Estado anunciou que havia perdido havia uma semana todo contato direto com Netto. Até domingo, recebia informações indiretas de que o repórter estava bem e se encontrava na região de Zawiya. A comunicação – por meio de telefonemas e e-mails – havia sido propositadamente cortada por segurança, afirmavam fontes líbias.

Na quarta-feira, o jornal recebeu informações de que Netto teria sido preso. O vice-chanceler da Líbia, Khaled Qaim, disse ao diário que estava informado sobre o assunto antes de ser contatado pelo jornal e se comprometeu a ajudar a localizar o brasileiro. A informação foi divulgada no dia em que a BBC revelou que uma de suas equipes foi agredida na Líbia .

Desde a última semana, O Estado acionou diversas entidades internacionais, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), a ONU e a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), além do governo brasileiro, a Embaixada da Líbia no Brasil, e vários veículos de comunicação nacionais e internacionais para garantir a integridade física e segurança do repórter.

O Guardian afirmou que mantém contatos com autoridades do governo líbio em Trípoli e Londres, pedindo que deem toda a assistência possível na busca por seu repórter.

De nacionalidade iraquiana, Abdul-Ahad é um correspondente altamente respeitado que colabora com o Guardian desde 2004. Ele passou longos períodos na Somália, Sudão, Iraque e Afeganistão, fazendo a cobertura de pessoas comuns e de seus sofrimentos em períodos de conflito.

Ele ganhou a maioria dos prêmios mais prestigiosos para correspondentes estrangeiros, incluindo o de repórter estrangeiro do ano pela British Press Awards, o prêmio James Cameron e o da Martha Gellhorn.

*Com AFP, Agência Estado, BBC, AP e Reuters

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