Regime de 33 anos de Saleh chega ao fim com transferência de poder no Iêmen

Vice-presidente desde 1994, Abdo Hadi foi eleito com 99,8% dos votos para mandato presidencial de dois anos

iG São Paulo |

O presidente Ali Abdullah Saleh colocou fim a mais de três décadas de seu governo no Iêmen ao transferir formalmente, nesta segunda-feira, o poder ao sucessor Abdo Rabbo Mansour Hadi, ex-vice presidente que assume o Executivo do país depois de ser eleito com 99,8% dos votos .

Em cerimônia que durou 30 minutos no Palácio Presidencial em Sanaa, Saleh entregou a Hadi uma bandeira iemenita, como símbolo da transferência de poder antes de seu discurso. "Entrego a liberdade, a segurança, o povo e o país para as mãos certas", disse Saleh, de 69 anos, em seu discurso, no qual se comprometeu a apoiar o novo presidente em sua missão, que classificou como "imensa".

AP
Saleh (D) entrega bandeira iemenita ao novo presidente Hadi, em cerimônia de posse em Sanaa
O ex-mandatário manifestou tristeza pelo sofrimento desnecessário da população no último ano e pediu a todos que trabalhem unidos com o novo líder para solucionar a crise, desencadeada a partir dos protestos da oposição contra o regime. Saleh foi o quarto líder árabe a deixar o poder em um ano, após revoluções populares terem derrubado os chefes de Estado na Tunísia , no Egito e na Líbia .

Na cerimônia desta segunda-feira estiveram presentes o secretário-geral da Liga Árabe, Nabil al Araby, o enviado especial da ONU para o Iêmen, Jamal Benomar, além de embaixadores de países europeus e da região.

Transição: Vice é eleito presidente com 99,8% dos votos no Iêmen

Hadi, de 66 anos, destacou que foram acertados os fundamentos para a alternância pacífica do poder no Iêmen: "uma base que esperamos ter continuidade porque surgiu a pedido do povo iemenita que clamava por democracia", apontou.

Desafios

Hadi reconheceu "os duros desafios" que terá pela frente, devido ao período complicado pelo qual passa o país. "A segurança e a estabilidade são os alicerces do desenvolvimento. A crise que atravessou o Iêmen e ainda passa é complicada e difícil, e precisa da cooperação de todos os líderes do país, da nova liderança e do governo de união nacional pelos próximos dois anos", ressaltou.

O novo presidente expressou também seu compromisso com a aplicação do plano de transição do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que possibilitou a transferência pacífica de poder. "Espero completar com todos os artigos que constam da iniciativa do Golfo e que nos reunamos após dois anos nesta sala para receber o novo presidente", afirmou Hadi, que ocupava o cargo de vice-presidente desde 1994.

No sábado, Hadi jurou o cargo diante do Parlamento, após vencer a disputa presidencial de 21 de fevereiro, na qual concorreu como único candidato. A data foi marcada pela explosão de um carro-bomba que tentou atingir um palácio presidencial no sudeste do Iêmen, matando ao menos 26 pessoas e deixando vários feridos, pouco após o juramento de Hadi.

A iniciativa do CCG - integrada pela Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã - estabelece que o novo chefe de Estado presida o país pelo período de dois anos e convoque eleições gerais.

Oposição

O principal partido opositor iemenita, no entanto, o Encontro Partilhado, boicotou a cerimônia desta segunda-feira a qual classificou como "provocação irritante" por considerar que a transferência do poder é do povo ao novo presidente e não de Saleh para Hadi.

Na capital Sanaa, manifestantes saíram às ruas para pedir a Saleh que respeitasse a vontade do povo e não assistisse ao ato.

Pós-atentando: Presidente deixa o país para tratamento médico

Um dos organizadores das manifestações, Ahmad al Uafi, disse à agência EFE que a cerimônia "é uma tentativa de Saleh fingir diante de seus seguidores que entregou o poder voluntariamente e não foi derrubado para manter sua dignidade".

Saleh retornou ao Iêmen na sexta-feira para assistir à nomeação de Hadi. Ele estava nos Estados Unidos para receber tratamento médico por causa de queimaduras sofridas em junho em atentado contra ele no palácio presidencial na capital iemenita. Fontes ligadas ao ex-presidente disseram que Saleh pretende se exilar na Etiópia para fugir de pressão da oposição que o fez deixar o poder.

*Com EFE e AP

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