Oposição diz que negociação é 'delírio' e anuncia ter controlado Ben Jawad, próxima à cidade natal do líder foragido

Rebeldes líbios rejeitaram neste domingo uma oferta de diálogo feita pelo líder Muamar Kadafi e anunciaram ter conseguido o controle da cidade de Ben Jawad, no leste do país. A cidade é vista como estratégica para que os rebeldes cheguem até Sirte, cidade natal de Kadafi e principal reduto de seus partidários.

No sábado, o porta-voz de Kadafi, Moussa Ibrahim, telefonou para a agência de notícias Associated Press para dizer que o líder foragido ainda está na Líbia e quer que seu filho, al-Saadi, lidere negociações com os rebeldes para formar um "governo de transição". Durante a semana, o regime divulgou mensagens de áudio na qual Kadafi chamava os rebeldes de "ratos" e "inimigos".

O Conselho Nacional de Transição (CNT, órgão político dos rebeldes) recusou a oferta. "Quero deixar bem claro que nós os vemos como criminosos. Vamos prendê-los em breve", afirmou Mahmoud Shammam, ministro da Informação do CNT. "Falar em negociação é um delírio para o que resta da ditadura."

Rebelde observa galpão onde foram encontrados pelo menos 50 corpos queimados em Trípoli, na Líbia
AP
Rebelde observa galpão onde foram encontrados pelo menos 50 corpos queimados em Trípoli, na Líbia

Com a conquista de Ben Jawad, a 140 km de Sirte, os rebeldes líbios se aproximam da cidade natal de Kadafi. O CNT disse estar negociando com líderes tribais da região uma rendição pacífica, mas, ao mesmo tempo, os rebeldes se preparam para combates que prometem ser violentos.

Na noite de sexta-feira e na madrugada de sábado aeronaves da Otan fizeram ataques em Trípoli e em Sirte para auxiliar os rebeldes. Um porta-voz da Otan afirmou que instalações militares, veículos e uma plataforma de lançamento de mísseis ainda foram detectados em Trípoli, apesar de as forças leais a Kadafi agora estarem concentradas no sul do país.

Execuções

Enquanto isso, crescem as evidências de abusos cometidos por forças de segurança leais a Kadafi. Pelo menos 50 corpos queimados foram encontrados em um galpão improvisado próximo à uma base militar da Brigada Khamis, unidade de eleite do Exército líbio comandada pelo filho de Kadafi, Khamis.

Moradores da região, conhecida como Salah al-Din, afirmaram que os corpos eram de civis executados na terça-feira por integrantes da brigada.

A organização de defesa dos direitos humano Human Rights Watch afirmou ter provas de que as forças leais a Kadafi mataram pelo menos 17 prisioneiros e realizaram "execuções supostamente arbitrárias de dezenas de civis" dias antes de os rebeldes ocuparem Trípoli.

Na sexta-feira, mais de 200 corpos em decomposição foram encontrados em um hospital abandonado no bairro de Abu Salim. Médicos e enfermeiras fugiram devido aos combates e muitos pacientes feridos foram abandonados.

Situação humanitária

Líderes do CNT anunciaram neste sábado medidas para enfrentar a falta de água, combustíveis e remédios em Trípoli.

Na primeira entrevista do CNT na capital desde o início dos confrontos, há seis meses, Mahmoud Shamman prometeu que o diesel necessário para retomar o fornecimento de eletricidade e água na capital da Líbia deve chegar no domingo e eles pretendem conseguir trazer suprimentos pelo mar.

Mas ele afirmou que os moradores da cidade não devem esperar milagres. "Trípoli estava sob o controle de uma ditadura de 42 anos. Estamos começando do zero. Não peçam por milagres, mas prometemos tentar fazer com que este período difícil seja o mais curto possível", disse.

Aref Ali Nayed, diretor de operações da Equipe de Estabilização do CNT disse à BBC que "várias equipes" estão trabalhando o tempo todo para resolver o problema da falta de água.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu o envio urgente de ajuda humanitária para o país e também para a comunidade internacional ajudar a restaurar a ordem na Líbia. Ban afirmou que milhões de pessoas dentro e fora de Trípoli estão ameaçadas devido à falta de água.

Com BBC e AP

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