Reabertura de bancos e comércio não esvazia praça no Cairo

Medida pretendia criar clima de normalidade, mas manifestantes se negam a sair e voltaram a reunir milhares pela saída de Mubarak

Raphael Gomide, enviado ao Cairo |

A reabertura dos bancos, comércio e de empresas, a redução dos bloqueios e o retorno da polícia para as ruas do Cairo não resultaram em diminuição do número de pessoas na praça Tahrir (da Libertação) neste domingo (6), dia útil no país. A medida do governo pretendia fazer as pessoas voltarem à rotina e esvaziar o movimento que, desde o dia 25, pede a renúncia do presidente Hosni Mubarak, no poder desde 1981 .

Na tarde de domingo, porém, a praça reúne ao menos centenas de milhares, em um dos seus dias mais cheios. A questão agora é quem tem mais resistência: os manifestantes ou o governo.

Desertas até sábado, as avenidas da cidade estavam novamente repletas de carros e transeuntes. O trânsito voltou à sua normalidade, com engarrafamentos, confusão e buzinas constantes. Pela manhã, havia fila na entrada dos bancos, fechados desde o dia 27.

Policiais vestidos de preto e portando fuzis AK-47 voltaram a patrulhar as ruas, mas o clima era de tranqüilidade na capital egípcia. Muitas pessoas circularam pelo centro o dia inteiro, boa parte delas a caminho da praça símbolo do que os manifestantes chamam de “revolução”.

Já não há barricadas de militantes anti ou pró-Mubarak ou postos de controle da polícia secreta, como nos últimos dias e, aparentemente, a tensão vai aos poucos se aliviando. A ponte Qasr, que liga os dois lados do rio Nilo e estava bloqueada por tanques do exército até o sábado, foi liberada. Os militares reduziram o perímetro de segurança e o aproximaram aos acessos da praça.

Os manifestantes são unânimes em afirmar que não deixarão a praça até Mubarak sair do poder . Às 15h30 e 16h, ao fim do expediente, milhares de egípcios chegavam à Tahrir a pé, de carro ou táxi pela ponte que dá acesso ao local. Ninguém dá sinal de que pretende sair.

“Eles [o governo] querem fazer parecer que está tudo normal. ‘Gritem o quanto queiram, mas está tudo bem’, dizem. Mas estamos determinados a ficar”, disse uma desenhista gráfica de 28 anos que, por temor de represálias, identificou-se apenas como Dalia. “Só vamos embora quando ele deixar o poder”, dizia um cartaz, em inglês.

Com o casaco e o colarinho da camisa imundos por causa dos sete dias sem deixar o local, Mohamed Kotba, 33, disse que o presidente “não tem escolha”.

“Nós podemos ficar aqui um mês, dois meses, até ele sair. Ontem choveu, e armamos tendas para dormir, mas não tem problema. Mubarak tem de sair”, afirmou ele. Morador de uma cidade a 150 km do Cairo, Mohamed é formado em Letras (Italiano e alemão), mas faz biscates como segurança em troca de cerca de US$ 45 mensais (R$ 75), em média, e manter a família com dois filhos.

“Nós temos a decisão em nossas mãos. A nação está nas ruas e retomou o seu poder. De decisão. Esta é uma verdadeira revolução, se eu morrer aqui, morrerei com dignidade. Lutamos contra pessoas a camelo e a cavalo, como há 1.500 anos... São os métodos dele, disse Wahba Said, PhD em Química, 40 anos.

“É a primeira vez que me sinto pisando no meu próprio solo. Estou renascida, eu sou dona das ruas, dona da cidade”, afirmou a pensionista Nema Khalija, 45. “Vá embora, Mubarak, nós te rejeitamos”, cantavam em protesto. Trata-se de um jogo de palavras em árabe, com o termo usado para quando uma mulher rejeita um homem, considerado humilhante e vergonhoso.

O irmão do professor de inglês Ali Hendawy, 26, foi ferido no olho por uma pedrada, submetido a uma cirurgia e está em recuperação em casa, mas ele esteve hoje na praça alegando que os egípcios estão “completamente cheios” de Mubarak.

“Ninguém vai sair. Mesmo tendo que trabalhar lá fora, é melhor ficar aqui dentro. Outros vêm depois do trabalho. O povo se deu conta de que o momento é este e que esses protestos não têm precedentes.”

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