Protestos seguem e egípcios vão ao palácio presidencial

Opositores prometem manifestações em massa um dia depois de Mubarak frustrar expectativas e descartar renúncia

iG São Paulo |

Milhares de manifestantes estão reunidos na praça Tahrir, no centro do Cairo, nesta sexta-feira, o 18º dia de protestos contra o presidente do Egito, Hosni Mubarak. Os egípcios prometem manifestações em massa para expressar a revolta provocada pelo discurso de Mubarak na noite de quinta-feira, no qual descartou renunciar ao cargo que ocupa há 30 anos.

Um grupo de manifestantes também protesta em frente ao palácio presidencial Oruba, que Mubarak costuma usar quando está no Cairo. O Exército reforçou a segurança no local com tanques de guerra e barricadas de arame farpado.

Os organizadores dos protestos disseram que o plano é realizar seis manifestações em diferentes locais do Cairo, que convergiriam na praça Tahrir, no Parlamento e em frente ao prédio da TV estatal.

Na tentativa de acalmar os manifestantes, o Conselho Superior das Forças Armadas do Egito anunciou nesta sexta-feira, após uma reunião presidida pelo ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantaui, que o estado de emergência que vigora no país há 30 anos será suspenso " assim que a crise acabar ".

No anúncio transmitido pela TV estatal, o Exército também prometeu garantir uma eleição presidencial "livre e justa" em setembro, além da proteção do país. As Forças Armadas também fizeram um apelo para que os manifestantes antigoverno "voltem ao trabalho e à vida normal".

Discurso

Os rumores de que Mubarak renunciaria começaram à tarde, mas a noite o líder afirmou que continuaria no cargo, apenas delegando mais poderes ao vice-presidente, Omar Suleiman. O anúncio frustrou milhares de manifestantes que se reuniram na praça Tahrir para comemorar a saída de Mubarak da cena política.

Na tentativa de aparentar que está acatando exigências da oposição, Mubarak disse ter pedido emendas de seis artigos da Constituição, prometeu punir os responsáveis pelos episódios violentos e suspender a lei de estado de emergência "quando as condições de segurança permitirem".

No entanto, na praça Tahrir os manifestantes nem esperaram o discurso acabar para gritar palavras de ordem pedindo sua saída. Centenas de egípcios tiraram os sapatos e os agitaram em frente aos telões pelos quais assistiam ao discurso de Mubarak, um insulto em sociedades árabes, enquanto outros gritavam: "Abaixo Mubarak, saia, saia!"

Outros pediram a convocação de uma greve geral e dirigindo-se ao Exército, que mobilizou grande número de tropas no local do protesto, exigiu: "Exército egípcio, o momento da escolha é agora: o regime ou o povo!".

Líder "de facto"

No discurso à nação, iniciado com 47 minutos de atraso do horário previsto das 22h locais (18h de Brasília), Mubarak reiterou que permanecerá no poder até setembro, quando estão previstas as próximas eleições. "Satisfeito com o que ofereci à nação em mais de 60 anos", afirmou Mubarak, em referência a todo o seu período na vida pública, "anuncio que vou continuar nesse cargo e assumir minhas responsabilidades."

"Esses tempos difíceis não são sobre mim, mas sobre o Egito, sobre o futuro. Todos estamos no mesmo barco", afirmou Mubarak, que reiterou que não tentará a reeleição. "Expresso meu comprometimento em seguir e proteger nossa Constituição e o povo, e transferir o poder para quem quer que seja eleito em setembro em eleições livres e transparentes", afirmou.

Depois do anúncio de Mubarak, o porta-voz do Parlamento egípcio, Ahmed Fathi Srour, explicou que os poderes delegados ao vice preveem supervisionar a polícia e negociar com a oposição. Srour disse que a Constituição egípcia proíbe o presidente de delegar poderes-chave ao vice-presidente. Como resultado, o poder de dissolver o Parlamento ou o gabinete governamental, assim como fazer mudanças na Constituição, permanece nas mãos de Mubarak.

Segundo a Associated Press, a melhor tradução para o que Mubarak disse em árabe sobre a transferência de poder foi: "Achei apropriado delegar as autoridades de presidente ao vice-presidente, como previsto na Constituição", afirmou. A Carta egípcia permite ao presidente transferir seus poderes se for incapaz de realizar suas tarefas "por causa de qualquer obstáculo temporário", mas isso não significa que ele renunciou.

De acordo com o embaixador americano no Egito, Sameh Shoukry, Mubarak transferiu todos os poderes ao vice Omar Suleiman, que agora seria o "presidente de facto" do Egito.

O líder acrescentou que não aceitará qualquer tipo de intervenção internacional. "Passei a maior parte da minha vida defendendo nossa terra", afirmou Mubarak. "Nunca sucumbi à pressão internacional. Minha dignidade está intacta".

Obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, cobrou uma explicação sobre as mudanças políticas anunciadas por Mubarak. "O povo egípcio foi informado de que houve uma transição de autoridade, mas ainda não está claro se essa transição é imediata, significativa ou suficiente", disse o líder, em um comunicado divulgado pela Casa Branca.

Segundo o presidente americano, muitos egípcios ainda não estão convencidos de que o governo é sério em suas intenções sobre uma transição genuína para a democracia.

"É responsabilidade do governo falar claramente ao povo egípcio e ao mundo. O governo egípcio deve levar adiante uma trajetória verossímil, concreta e inequívoca rumo à democracia genuína, e eles ainda não aproveitaram essa oportunidade", disse.

"Nós instamos ao governo egípcio que aja rapidamente para explicar as mudanças que foram feitas, e para comunicar em uma linguagem clara e inequívoca o processo passo a passo que irá levar à democracia e ao governo representativo que o povo do Egito busca", afirmou.

Obama assistiu ao pronunciamento de Mubarak, transmitido ao vivo pela TV, e logo após se reuniu com sua equipe de segurança nacional. À tarde, antes do pronunciamento do líder egípcio, quando circulavam boatos de que ele poderia renunciar, o presidente americano chegou a dizer que o mundo testemunhava um momento histórico, em que uma nova geração de egípcios exigia que suas vozes fossem ouvidas.

No comunicado divulgado à noite, Obama voltou a dizer que o futuro do Egito será determinado pelo povo egípcio, mas disse que os Estados Unidos têm sido claros sobre "princípios fundamentais" que defendem.

"Acreditamos que o estado de emergência deve ser suspenso", disse Obama, repetindo um pedido já feito pelo governo americano. "Acreditamos que negociações significativas com a oposição e a sociedade

civil egípcia devem abordar as questões centrais confrontando o futuro do Egito: a proteção dos direitos fundamentais de todos os cidadãos, a revisão da Constituição e de outras leis para demonstrar mudança irreversível, e o desenvolvimento conjunto de um plano para eleições que sejam livres e justas."

O presidente americano pediu ainda que todas as partes envolvidas evitem a violência e que o governo responda às aspirações do povo "sem repressão ou brutalidade". "Nesses tempos difíceis, eu sei que o povo egípcio vai perseverar, e eles devem saber que vão continuar a ter um amigo nos Estados Unidos", disse Obama.

Com BBC e EFE

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