Professora foi 'voz do povo líbio' durante revolta contra Kadafi

Shahrazad Kablan saiu dos EUA, onde vivia, para transmitir ao vivo as notícias da repressão do governo de ex-ditador

Bruna Carvalho, iG São Paulo |

Como muitas mulheres que ajudaram os combatentes na Líbia a derrubar o ditador Muamar Kadafi após 42 anos no poder , a professora do ensino médio Shahrazad Kablan, de 41 anos, fez sua parte no levante que evoluiu para uma guerra civil em poucos meses no início deste ano. Shahrazad não pegou em armas nem tratou os ferimentos dos rebeldes em confronto com as tropas do governo. No entanto, ela foi a primeira mulher a apresentar um programa de televisão que tinha como principal objetivo transmitir informações pela ótica dos moradores líbios, desafiando as notícias veiculadas pelos meios oficiais. Como Shahrazad gosta de dizer, ela se tornou, de março a setembro, "a voz do povo líbio".

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Reprodução/Vital Voices
Shahrazad Kablan (dir.) aparece ao lado de Sara Maziq, que fundou duas associações relacionadas à luta líbia
Nascida em Benghazi - palco em 1969 do início do golpe que levou Kadafi ao poder e, neste ano, epicentro das manifestações contra o ditador -, Shahrazad se mudou para Cincinnati, nos EUA, em 1994, onde vive até hoje. Em fevereiro, quando tomou conhecimento das primeiras notícias sobre a repressão contra os líbios, decidiu agir. "Quando a revolução começou, e eu soube que Kadafi matava pessoas, que minha cidade e meus vizinhos estavam sob ataque, comecei a apoiar dos EUA o povo líbio. A primeira coisa que pensei foi em minha família, porque morávamos em um bairro muito perto de uma base militar que era alvo de Kadafi", relatou Shahrazad ao iG .

Dos EUA, entrou em contato com a mídia americana para relatar os abusos em seu país natal. Deixando o marido e o filho em Cincinnati, ela e sua filha seguiram para Washington, onde organizaram manifestações em frente da Casa Branca. Shahrazad passou a arrecadar recursos e comprou suprimentos alimentares para enviar a Benghazi.

Um mês depois, foi convidada por um grupo da Líbia em Doha, no Catar, para inaugurar no país a emissora Libya TV, primeiro canal independente via satélite da história líbia. De acordo com o próprio site da emissora, o canal nasceu para "aqueles que lutam para libertar a Líbia das garras do regime de Kadafi".

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Em 30 de março, Shahrazad se tornou a primeira mulher a apresentar um programa de televisão para a população de seu país natal, o Libya Alnass. Ela costumava tratar de assuntos considerados tabus, e que nunca eram mencionados publicamente, como os estupros sistemáticos cometidos por tropas leais a Kadafi. Seu programa era responsável por dar as notícias e transmitir ligações telefônicas da Líbia em tempo real. "Os líbios só tinham a nós para falar a verdade. Eu era como a mãe e a irmã deles", contou.

Divulgar as notícias mantidas em segredo pelo governo e quebrar tabus não foram as únicas funções do programa de Shahrazad. Segundo ela, por intermédio dos líbios, a emissora passava informações valiosas à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que, desde 17 de março, auxiliou os combatentes do Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão político da oposição, a combater o regime. A ajuda militar da Aliança Atlântica, principalmente a campanha de bombardeios aéreos, foi crucial para a queda de Kadafi. "As pessoas na Líbia indicavam os possíveis alvos dos militares de Kadafi e, então, avisávamos a Otan."

Como nunca havia participado de um programa de TV, Shahrazad considerou a experiência enriquecedora. Para ela, no entanto, era impossível se distanciar emocionalmente das histórias. "Era muito difícil ir lá, na frente de todos, e falar sobre o que acontecia” no país, onde passou sua infância e adolescência.

Ela retornou aos EUA em setembro, pouco depois da tomada da capital Trípoli pelos rebeldes , momento eleito por ela como o mais marcante de toda sua trajetória no Catar. Em 23 de agosto, após uma série de avanços e batalhas contra as tropas leais a Kadafi, os rebeldes conseguiram entrar no quartel-general do ditador, seu QG e símbolo de seu poder. Desde esse dia, Kadafi permaneceu foragido e com paradeiro desconhecido até ser encontrado em 20 de outubro por seus inimigos e morto em condições que até hoje não foram esclarecidas. "A sensação que tínhamos é de que, depois daquele momento, de fato assumíamos o controle (do país)."

Infância e adolescência na Líbia

Sobre a infância na Líbia nos anos 70, Shahrazad relata que, durante essa época, Kadafi não tinha plenos poderes sobre o país. Ele, que chegou ao poder em 1969 por meio de um golpe de Estado, somente sete anos depois publicou o Livro Verde, uma espécie de Constituição na qual defendia a "terceira teoria universal", que rejeitava o capitalismo e o socialismo por acreditar que nenhum deles se encaixava no contexto árabe. Seu regime endureceu nos anos 1980, quando aumentaram as atividades de grupos opositores, com destaque para a Frente Nacional para a Salvação da Líbia.

Shahrazad pertencia a uma família com boa situação financeira, o que lhe garantiu oportunidades de viajar e uma vida em melhores condições do que a média de seus compatriotas. Apesar disso, durante seu crescimento, sua percepção era a de que seu país estava sobre uma atmosfera de medo, em que dizer algo sobre o governo nas ruas significava correr risco. "Lembro que os mais velhos me diziam o tempo todo: 'Não diga isso, não diga aquilo'. Os pais recomendavam às crianças não comentar sobre o regime."

Apesar da imposição do silêncio pela ditadura, a pior lembrança da ativista sobre seus tempos em Benghazi foram os enforcamentos públicos de inimigos do Estado. Essa prática, comum durante o regime de Kadafi, teve início na cidade natal de Shahrazad, em 1984. Na quadra de basquete, Al-Sadek Hamed Al-Shuwehdy foi o primeiro de muitos jovens executados dessa forma em Benghazi. A plateia, geralmente, era composta de crianças e estudantes, que assistiam ao que os partidários do então líder líbio chamavam de "julgamento".

Em uma aparente contradição ao que se poderia esperar de um regime repressivo, as mulheres na Líbia tinham chances de ir à universidade durante a era Kadafi. Na mais importante do país, a de Trípoli, 50% dos quadros discentes eram femininos. Mas Shahrazad, formada na Universidade de Benghazi – conhecida como Universidade de Garyounis -, desmitifica o fato de as mulheres na Líbia terem direitos como o de votar, e serem letradas (a alfabetização feminina no país gira em torno dos 72%).

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AFP
Mulheres balançam bandeiras da Líbia em rua da capital, Trípoli, após morte de Muamar Kadafi (20/10)
Segundo a ativista, tais índices não refletiam a realidade, pois mulheres até podiam estudar, mas raramente ocupavam cargos de poder no governo, a não ser que se corrompessem. “As mulheres tinham medo de tomar posição. Além do mais, o governo era imoral. Elas não queriam fazer parte dele. Se uma mulher tentasse um posto no governo, certamente lhe pediriam favores sexuais.”

Como Shahrazad, muitos deixaram o país durante o governo de Kadafi por diversos motivos. Alguns por pertencer à oposição. Outros, para ter uma perspectiva com mais educação e oportunidades. Ela garante que deixou a Líbia em 1994, aos 24 anos, para ter mais liberdade. Liberdade que não está relacionada ao abandono de tradições aprendidas com sua família em Benghazi.

Shahrazad conta que, apesar de morar nos EUA há 17 anos, continua a levar uma vida discreta e muito ligada aos hábitos do país africano. Ela, que é muçulmana, reza todos os dias, frequenta uma mesquita e acredita que as tradições familiares valorizadas pelos líbios não os atrasam. Pelo contrário. Para a ativista, é possível ter ideais, sair para trabalhar, estudar e ter lugar no poder, pois a religião não impede ninguém de fazer isso. “A tradição familiar pode ser positiva. Não somos liberais, mas não temos a mente fechada.”

Por conta disso, ela não acredita que a chegada de partidos islâmicos ao poder ameace a posição das mulheres. Otimista, Shahrazad crê que, após anos de corrupção e imoralidade no governo, as mulheres podem, pela primeira vez, garantir seu espaço no poder. “Não tenho medo da sharia (código de leis islâmico) e isso não assusta a Líbia. Muitas mulheres se preparam para o governo de transição e para as eleições, e estamos muito fortes.”

Papel das mulheres na nova Líbia

Pensando em permitir a continuidade das conquistas femininas após os conflitos, Shahrazad, que dá recomendações ao CNT para reformas na educação, criou uma fundação. A Libyan Women Alliance (Aliança das Mulheres Líbias, em tradução livre), estabelecida assim que começou a revolta, convidou dezenas de professoras americanas para passar uma temporada no país trabalhando com crianças com necessidades especiais. É por meio dessa organização que Shahrazad falou com a mídia e angariou fundos para a causa líbia no início do ano. Através dela, Shahrazad tenta agora profissionalizar as mulheres na Líbia por meio de cursos, para que consigam se sustentar de forma autônoma.

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AP
Mulheres líbias reagem à morte do líder deposto Muamar Kadafi do lado de fora da embaixada em Londres, Reino Unido (20/10)
O levante que durou oito meses e causou inúmeras mortes deixou para trás desafios estruturais, econômicos e sociais para o novo governo da Líbia. Na opinião da ativista, o principal deles é o desarmamento da população. Para que a revolta acontecesse e enterrasse o regime, os líbios comuns receberam rifles e munição e, agora, é hora de tornar o país um local seguro. Um segundo passo é prover transporte e educação para jovens que ficaram mutilados pela guerra. “Agora que Kadafi se foi, temos uma geração deficiente, principalmente entre os homens”, aponta.

Mas, ainda assim, Shahrazad permanece confiante nas conquistas de seu povo. “De volta aos EUA. Grande viagem à Líbia cheia de eventos e encontros. Conheci grandes pessoas com grandes sonhos para a Nova Líbia”, escreveu em sua conta do Twitter em 28 de novembro, pouco após retornar de Trípoli e de sua terra natal, a revoltosa Benghazi, onde o regime de 42 anos de Kadafi teve seu início e seu fim.

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