Primavera Árabe completa seis meses em meio a incertezas sobre futuro

Revolta que espalhou onda democrática no Oriente Médio e no norte da África torna-se procissão de conflitos e crises econômicas

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Seis meses depois do início da chamada Primavera Árabe, graves ameaças pesam sobre o futuro das revoltas que derrubaram os líderes a Tunísia e do Egito e provocaram crises na Líbia, Síria, Iêmen e Bahrein. A série de protestos e revoltas, que espalharam esperanças democráticas no Oriente Médio e no norte da África, tornaram-se hoje uma procissão de conflitos, crises e graves problemas econômicos.

"A situação é hoje mais difícil", estima Rabab al Mahdi, professora de ciência política da Universidade Americana do Cairo (AUC), seis meses após um vendedor ambulante atear fogo em si próprio na Tunísia em 17 de dezembro, estopim das revoltas populares no mundo árabe. "A ideia de que era possível sair às ruas para derrubar um regime como ocorreu na Tunísia e no Egito é colocada em xeque com casos como Líbia, Síria, Iêmen e Bahrein", estima.

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Em Benghazi, na Líbia, manifestantes protestam contra o regime de Muamar Kadafi e em apoio a sírios opositores ao governo de Bashar al-Assad (14/6)
Para Antoine Basbous, do Observatório dos Países Árabes (OPA) em Paris, a diversidade prevalece. Apesar dos lemas muitas vezes idênticos e das esperanças compartilhadas, "não há dois movimentos que se pareçam", afirma.

A Tunísia, país pioneiro da Primavera Árabe que fixou para 23 de outubro as primeiras eleições desde a saída de Zine El Abidin Ben Ali, parece estar bem encaminhada em sua transição, diferentemente do Egito, onde "há certas dificuldades", estima o especialista.

Segundo ele, no Egito, onde muitos temem que os islamitas saiam fortalecidos após a queda de Hosni Mubarak, o Exército no poder parece querer unicamente "uma mudança de fachada".

Nestes dois países, as graves dificuldades econômicas que acompanharam as mudanças de regime levaram a comunidade internacional a mobilizar bilhões de dólares em ajuda.

Iêmen

O Iêmen, cujo presidente Ali Abdullah Saleh está hospitalizado na Arábia Saudita após ser ferido em um ataque, corre o risco de afundar em uma situação similar a da Somália, onde reina o caos e o Estado se desintegra, acrescenta Basbous.

O Bahrein, por sua vez, já viveu sua "contrarrevolução" após a repressão dos protestos de fevereiro e março.

Na Líbia, Muamar Kadafi, que se agarra ao poder apesar de uma revolta interna e dos bombardeios da Otan, "parece maduro para cair, só resta saber quando". Na Síria, o regime iniciou uma repressão massiva, "está decidido a se defender e ainda tem recursos", explicou Basbous.

Os riscos de contágio a outros países são reais, embora incertos. "Os efeitos sobre o resto da região vão depender do resultado obtido nesses países. Mas não há efeito mecânico, isso depende muito da situação interna", observa Rabab al Mahdi.

A Argélia pode acalmar os desejos de sua população recorrendo aos importantes lucros gerados por seus recursos como hidrocarbonetos. O Marrocos, por sua vez, aposta em uma política de reformas.

Já na Jordânia, explica Antoine Basbous, "as dificuldades da monarquia são mais importantes, e trata-se de um país rodeado de vizinhos em crise".

Apesar destas incertezas, alguns continuam sendo otimistas sobre as conquistas da Primavera Àrabe, que colocou a democratização entre os principais assuntos de uma região que parecia condenada a seguir como um santuário de regimes autocráticos intocáveis.

Para Isandr al Amrani, residente no Cairo e responsável pelo blog The Arabist, "essas revoltas marcam uma verdadeira rejeição dos sistemas de segurança dirigidos por famílias que reinam no centro de um sistema cada vez mais mafioso".

As revoltas "traduziram um verdadeiro apego da população árabe aos valores relacionados aos direitos humanos, um verdadeiro entusiasmo por valores universais. Não era o caso há dez anos atrás", ressalta.

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