Presidente do Iêmen aparece na TV com o rosto muito queimado

Saleh afirmou que foi submetido com sucesso a oito operações cirúrgicas desde ataque contra palácio presidencial

iG São Paulo |

Com o rosto queimado e as mãos cobertas de ataduras, o presidente iemenita, Ali Abdullah Saleh, apareceu nesta quinta-feira pela primeira vez na televisão desde o atentado ao palácio presidencial que o fez ser internado em 4 de junho na Arábia Saudita . O ataque matou sete de seus guarda-costas e feriu outros dirigentes do regime.

Em entrevista gravada previamente na TV iemenita, Saleh disse que está aberto ao compartilhamento de poder se ele estiver dentro das leis constitucionais do país. "Acolhemos o compartilhamento dentro dos moldes da Constituição e nos moldes da lei", disse, acrescentando que apoia a participação de todas as forças políticas e o diálogo para sair da crise no Iêmen.

Saleh afirmou que foi submetido com sucesso a oito operações cirúrgicas e pediu por diálogo no Iêmen, em seu discurso transmitido pela TV oficial iemenita. O líder do Iêmen, no poder há quase 33 anos, enfrenta há meses uma rebelião popular, e resiste à pressão dos EUA e da Arábia Saudita para renunciar.

Alguns diplomatas disseram que existe uma pequena chance de Saleh retornar ao Iêmen, enfrentando um grave impasse político após meses de protestos pedindo sua saída do poder.

AFP
Presidente do Iêmen, Ali Abdullah, é visto em foto antes do ataque, em 15/04/2011 (à esq.), e em sua primeira aparição na TV desde que ficou ferido (à dir.)

Após o discurso, os simpatizantes do presidente saíram às ruas em várias cidades do Iêmen, como Sana e Taiz, para comemorar, com tiros para o ar e fogos de artifício, que Saleh continue vivo, depois dos rumores sobre sua morte.

Previamente à divulgação do discurso, o vice-presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi, que comanda interinamente o país enquanto Saleh se recupera em Riad, propôs um novo plano para encerrar o impasse político no país, disse uma fonte da oposição nesta quinta-feira. Segundo a proposta, Saleh continuaria no poder por mais tempo do que o previsto em propostas anteriores.

Uma iniciativa do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) que previa a renúncia de Saleh 30 dias após sua assinatura fracassou três vezes depois que o presidente recuou no último minuto, deixando o país em um limbo político.

"A essência dessas ideias é que se inicie o período de transição com a formação de um governo nacional liderado pela oposição e que a data da eleição presidencial seja adiada de 60 dias para um prazo mais longo, sem transferir o poder completamente ao vice-presidente", disse o membro da oposição, que falou com a Reuters sob a condição de anonimato, após um encontro com Hadi.

O novo plano é visto como retrocesso pela oposição, que esperava que a presidência de Saleh tivesse chegado ao fim quando ele deixou o país para receber o tratamento médico. Mas, enquanto líderes veteranos no Egito e na Tunísia cederam às exigências populares de que deixassem o poder, Saleh vem demonstrando ser um sobrevivente político astuto.

Um segundo oposicionista graduado disse que a oposição não abrirá mão de suas reivindicações. "Estamos dispostos a receber a iniciativa positivamente, sob a condição de que o poder seja transferido antes para o vice-presidente". Hadi disse que isso seria difícil.

Violência

Pelo menos dez soldados foram mortos em novo ataque de militantes contra uma base do Exército perto da cidade de Zinjibar, no sul do país, onde uma brigada se encontra cercada há mais de um mês. Uma autoridade local disse que militantes começaram a disparar morteiros contra a base na noite de quarta-feira.

Nos últimos meses o sul do Iêmen vem mergulhando em violência, com militantes islâmicos suspeitos de ter vínculos com a rede terrorista Al-Qaeda tomando duas cidades na Província de Abyan, incluindo sua capital, Zinjibar.

Potências ocidentais e a Arábia Saudita temem que a Al-Qaeda esteja aproveitando o vazio de segurança no Iêmen, desde onde a rede terrorista lançou no passado ataques fracassados contra os Estados Unidos e um ministro do governo saudita.

Em um incidente separado, homens armados não identificados barraram um veículo que levava soldados e civis para a cidade de Lawdar, também em Abyan, e, quando encontraram as identificações militares dos soldados, mataram dez deles a tiros, informaram moradores locais.

Adversários de Saleh, que conquistou o apoio dos EUA por retratar-se como parceiro na luta contra a Al-Qaeda, acusam-no de deixar que os militantes avancem para convencer os Estados Unidos e a Arábia Saudita de que apenas ele poderá impedir uma tomada do país por militantes islâmicos.

*Com AFP, Reuters e EFE

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