Presidente do Egito renuncia e entrega poder ao Exército

Após 18 dias de manifestações, Hosni Mubarak deixa o cargo que ocupava desde 1981

iG São Paulo |

Após 18 dias de manifestações contra o seu governo, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, renunciou ao cargo nesta sexta-feira, transferindo todo o poder ao Exército e pondo fim a seus 30 anos de governo autocrático. A decisão do líder de 82 anos, que estava no cargo desde 1981, acontece após históricos protestos diários iniciados em 25 de janeiro, que transformaram a política interna do país e de todo o mundo árabe .

Em pronunciamento horas depois da saída de Mubarak, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou que os egípcios "nos inspiraram" através da "força moral", de uma mobilização não violenta que mudou seu país. Ele também afirmou que o Exército agiu responsavelmente durante a crise, mas com a ressalva de que os militares " terão de liderar uma transição genuína no Egito ".

O anúncio da renúncia foi feito pelo vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, horas depois de ser divulgada a notícia de que Mubarak e sua família tinham deixado a capital do país, Cairo, em direção à cidade egípcia de Sharm el-Sheik. "Nessas circunstâncias difíceis pelas quais o país está passando, o presidente Hosni Mubarak decidiu deixar a posição da presidência", disse Suleiman. "Ele encarregou o Conselho das Forças Armadas a dirigir as questões de Estado."

A decisão foi um reviravolta crucial em uma revolta de quase três semanas que estremeceu uma das ditaduras mais duradouras do mundo árabe. Os protestos populares - pacíficos e resistentes apesar dos numerosos esforços do aparato de segurança de Mubarak de suprimi-los - no fim depuseram um aliado dos EUA que vinha sendo essencial para implmentar a política americana na região por décadas.

Reunidos na Praça Tahrir, que virou símbolo dos protestos, centenas de milhares de manifestantes explodiram em gritos de emoção com a notícia. Enquanto a multidão gritava " O Egito está livre! " e "Deus é grande!", também era possível ouvir carros buzinando em celebração.

O oposicionista Mohamed El Baradei, Prêmio Nobel da Paz de 2005 e ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, reagiu à informação dizendo: "Este é o melhor dia da minha vida. O país foi libertado."

Sua saída ocorreu depois de um perído de 24 horas que misturou celebração e raiva, enquanto o Egito e o mundo em um primeiro momento esperaram sua renúncia iminente e depois se enfureceram quando Mubarak anunciou que delegaria mais poderes a Suleiman, sem renunciar ao cargo de presidente.

Na manhã desta sexta-feira, porém, o Exército divulgou um comunicado prometendo implementar uma variedade de reformas constitucionais em uma declaração em que o tom de comando era claro. O comunicado foi divulgado após uma reunião do Conselho Superior das Forças Armadas do Egito, presidida pelo ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantaui.

No texto, os militares prometeram suspender o estado de emergência que vigora no país há 30 anos  "assim que a crise acabar" e garantir uma eleição presidencial "livre e justa" em setembro. As Forças Armadas também fizeram um apelo para que os manifestantes "voltem ao trabalho e à vida normal".

Após a renúncia de Mubarak, o Exército divulgou um novo comunicado em que afirmou: "Sabemos a extensão da gravidade e a seriedade dessas questões e das demandas da população para iniciar mudanças radicais. O Conselho das Forças Armadas está estudando esse cenário para alcançar as esperanças de nossa grande população."

Segundo o jornal Guardian, o Exército estuda demitir o gabinete e suspender as duas Casas do Parlamento. De acordo com a rede de TV Al-Arabyia, o Conselho Militar vai administrar o país com o chefe da Suprema Corte Constitucional.

Os acontecimentos desta sexta-feira deixam o Exército no comando de uma nação de 80 milhões, enfrentando reivindicações insistentes de mudanças democráticas fundamentais e eleições abertas. Os militares repetidamente prometeram responder às demandas dos manifestantes. Mas tem pouca experiência recente em governar diretamente o país, e terá de neutralizar manifestações e greves laborais que paralisaram a economia e deixaram muitas das instituições do país, incluindo a mídia estatal e as forças de segurança, em situação difícil.

18 dias de crise

No dia 1º de fevereiro, quando a onda de protestos completou uma semana, Mubarak anunciou que não concorreria à reeleição nas eleições presidenciais marcadas para setembro.

O anúncio não foi suficiente para encerrar os protestos e milhares de manifestantes continuaram lotando a praça Tahrir, no centro do Cairo, exigindo a renúncia imediata do líder.

Nos 18 dias de crise, Mubarak anunciou outras medidas: nomeou um vice-presidente pela primeira vez desde que chegou ao poder; pediu que seu gabinete renunciasse e nomeou novos ministros ; criou comissões para propor reformas constitucionais , garantir sua implementação e investigar as mortes nos protestos; e definiu um aumento de 15% nos salários dos servidores públicos.

nullNenhuma delas foi considerada suficiente pelos manifestantes. Na terça-feira, os protestos ganharam novo ânimo com um discurso do chefe de mercado do Google para Oriente Médio e África, Wael Ghoneim, um dos líderes do movimento. Nesta sexta-feira, os manifestantes convocaram uma mobilização em massa para em pelo menos seis locais do Cairo. Milhares também participaram de marchas em cidades como Alexandria e Suez.

Trajetória

Hosni Mubarak assumiu a presidência do país após a morte do presidente Anwar Sadat, em 1981. Sadat foi assassinado por militantes islâmicos durante uma parada militar no Cairo. Mubarak, sentado ao seu lado, teve sorte em escapar ileso.

Desde então, já sobreviveu a pelo menos seis tentativas de assassinato - na mais séria, o ataque ao carro presidencial logo após a chegada de Mubarak à capital da Etiópia, Addis Abeba, em 1995, para participar de uma cúpula de países africanos.

Além do talento para se desviar dos tiros, o ex-comandante da Força Aérea também segurou com força as rédeas do poder, assumindo um papel de aliado confiável dos Estados Unidos e combatendo um poderoso movimento de oposição em casa.

Nascido em 1928 em uma pequena cidade na província de Menofiya, perto do Cairo, Mubarak manteve sua vida particular longe do domínio público. Ele é casado com Suzanne Mubarak - de ascendência britânica, formada na American University, no Cairo - e tem dois filhos, Gamal e Alaa.

Mubarak não fuma, não bebe e é conhecido por levar uma vida regrada e saudável, com uma rígida rotina diária que tem início às 6h. No passado, amigos e colaboradores próximos reclamavam da rotina do presidente, que começava com uma sessão na academia ou um jogo de squash.

Apesar da falta de apelo popular, o militar criou uma reputação de estadista internacional com base na questão que resultou na morte de Sadat: a busca da paz com Israel.

Estado de emergência

Na prática, desde que assumiu o poder, Hosni Mubarak comandou o Egito como um líder militar e com base em uma lei de emergência que dava ao Estado o direito de prisão e de coibir direitos básicos.

O argumento do governo era que o controle total era necessário para combater militantes islâmicos, cujos ataques têm como alvo, com frequência, o lucrativo setor de turismo egípcio.

Sob a liderança de Mubarak, o Egito viveu um período de relativa estabilidade doméstica e desenvolvimento econômico, o que levou a maioria da população a aceitar sua monopolização do poder.

Mas, nos últimos anos, o presidente vinha sofrendo pressões para que a democracia fosse incentivada no Egito. As pressões vêm do próprio país e também dos Estados Unidos. Muitos dos que reivindicavam reformas políticas duvidavam da sinceridade do líder veterano quando ele dizia ser favorável a uma abertura do processo político. Desde 1981, Mubarak venceu três eleições como candidato único, mas o quarto pleito convocado por ele - em 2005, após um empurrão firme dos Estados Unidos - teve as regras alteradas para permitir candidaturas rivais.

Críticos dizem que a eleição foi manipulada para favorecer Mubarak e seu partido, o Partido Nacional Democrático (NDP, na sigla em inglês). Eles acusam o líder egípcio de ter comandado uma campanha de supressão a grupos de oposição, entre eles, especialmente, o movimento Irmandade Muçulmana.

Com BBC, AP e informações do The New York Times

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