Presidente do Egito deixa o Cairo enquanto protestos aumentam

Um dia após descartar renúncia, Hosni Mubarak deixa a capital e vai com a família para a cidade egípcia de Sharm el-Sheik

iG São Paulo |

O presidente do Egito, Hosni Mubarak, deixou a capital do país, Cairo, nesta sexta-feira, um dia após rejeitar a possibilidade de renunciar ao cargo que ocupa há 30 anos. A informação foi confirmada por uma autoridade do governo local e por um porta-voz do partido do líder.

Mubarak e sua família embarcaram em uma base militar do Cairo em direção à cidade egípcia de Sharm el-Sheik, onde o líder possui um palácio e onde costuma passar boa parte do ano.

A presidência do Egito anunciou que fará uma "importante e urgente" declaração "em breve". Não está claro se a declaração será feita por Mubarak ou por alguma outra autoridade. Também não há detalhes sobre o conteúdo do pronunciamento ou sobre o horário exato em que ele ocorrerá.

O presidente egípcio deixou a capital, onde os protestos contra seu governo são mais intensos, em meio à revolta provocada por seu discurso de quinta-feira, no qual afirmou que delegaria mais poderes ao vice-presidente, Omar Suleiman, sem renunciar ao cargo de presidente.

Enfurecidos, os manifestantes convocaram uma mobilização em massa para esta sexta-feira, em pelo menos seis locais do Cairo. Um destes locais é o palácio presidencial Oruba, que Mubarak costuma usar quando está no Cairo.

Centenas de manifestantes estão em frente ao palácio, cuja segurança foi reforçada pelo Exército. Militares, tanques de guerra e barricadas de arame farpado impedem a aproximação dos opositores.

Outros locais de manifestação são a praça Tahrir, epicentro dos protestos que começaram em 25 de janeiro, a sede do Parlamento e o prédio da TV estatal egípcia. Milhares também participam de marchas em cidades como Alexandria e Suez.

Estado de emergência

O Conselho Superior das Forças Armadas do Egito anunciou nesta sexta-feira, após uma reunião presidida pelo ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantaui, que o estado de emergência que vigora no país há 30 anos será suspenso "assim que a crise acabar".

No anúncio transmitido pela TV estatal, o Exército também prometeu garantir uma eleição presidencial "livre e justa" em setembro, além da proteção do país. As Forças Armadas também fizeram um apelo para que os manifestantes antigoverno "voltem ao trabalho e à vida normal".

No entanto, muitos manifestantes revoltaram-se com a declaração dos militares, avaliando-a como um respaldo à permanência de Mubarak no poder. "Vocês nos decepcionaram, vocês eram nossa esperança", afirmou um opositor que protestava na praça Tahrir, no centro do Cairo, que está lotada nesta sexta-feira.

Em seu discurso na quinta-feira, Mubarak já havia prometido suspender a lei de estado de emergência "quando as condições de segurança permitirem". Na tentativa de aparentar que está acatando exigências da oposição, Mubarak também disse ter pedido emendas de seis artigos da Constituição e prometeu punir os responsáveis pelos episódios violentos dos últimso dias.

No entanto, na praça Tahrir os manifestantes nem esperaram o discurso acabar para gritar palavras de ordem pedindo sua saída. Centenas de egípcios tiraram os sapatos e os agitaram em frente aos telões pelos quais assistiam ao discurso de Mubarak, um insulto em sociedades árabes, enquanto outros gritavam: "Abaixo Mubarak, saia, saia!"

Discurso

No discurso à nação, iniciado com 47 minutos de atraso do horário previsto das 22h locais (18h de Brasília), Mubarak reiterou que permanecerá no poder até setembro, quando estão previstas as próximas eleições. "Satisfeito com o que ofereci à nação em mais de 60 anos", afirmou Mubarak, em referência a todo o seu período na vida pública, "anuncio que vou continuar nesse cargo e assumir minhas responsabilidades."

"Esses tempos difíceis não são sobre mim, mas sobre o Egito, sobre o futuro. Todos estamos no mesmo barco", afirmou Mubarak, que reiterou que não tentará a reeleição. "Expresso meu comprometimento em seguir e proteger nossa Constituição e o povo, e transferir o poder para quem quer que seja eleito em setembro em eleições livres e transparentes", afirmou.

Depois do anúncio de Mubarak, o porta-voz do Parlamento egípcio, Ahmed Fathi Srour, explicou que os poderes delegados ao vice preveem supervisionar a polícia e negociar com a oposição. Srour disse que a Constituição egípcia proíbe o presidente de delegar poderes-chave ao vice-presidente. Como resultado, o poder de dissolver o Parlamento ou o gabinete governamental, assim como fazer mudanças na Constituição, permanece nas mãos de Mubarak.

Segundo a Associated Press, a melhor tradução para o que Mubarak disse em árabe sobre a transferência de poder foi: "Achei apropriado delegar as autoridades de presidente ao vice-presidente, como previsto na Constituição", afirmou. A Carta egípcia permite ao presidente transferir seus poderes se for incapaz de realizar suas tarefas "por causa de qualquer obstáculo temporário", mas isso não significa que ele renunciou.

De acordo com o embaixador americano no Egito, Sameh Shoukry, Mubarak transferiu todos os poderes ao vice Omar Suleiman, que agora seria o "presidente de facto" do Egito.

O líder acrescentou que não aceitará qualquer tipo de intervenção internacional. "Passei a maior parte da minha vida defendendo nossa terra", afirmou Mubarak. "Nunca sucumbi à pressão internacional. Minha dignidade está intacta".

Com BBC e AFP

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