Líder sírio afirma que 'complô' tornará país mais resistente, advertindo que não haverá reformas em um contexto de caos

Reprodução de vídeo mostra o presidente sírio, Bashar al-Assad, discursando em Damasco
AP
Reprodução de vídeo mostra o presidente sírio, Bashar al-Assad, discursando em Damasco
O presidente da Síria, Bashar al-Assad, reiterou nesta segunda-feira que seu país enfrenta um "complô" e uma conspiração internacional, afirmando que a Síria deveria lidar com as demandas populares por reformas, mas que "sabotadores" estão explorando essas reivindicações. O líder sírio apontou grupos armados, delinquentes procurados pelas autoridades e grupos de pensamento islâmico radical como "responsáveis pela crise".

"O 'complô' tornará o país mais resistente", afirmou o presidente, antes de ressaltar que a Síria se encontra em um "momento chave" depois de "dias difíceis". "O que acontece atualmente não tem nada a ver com reformas, tem relação com vandalismo", disse Assad a uma multidão de partidários na Universidade de Damasco. "Não pode haver desenvolvimento sem estabilidade, e nenhuma reforma pelo vandalismo... temos de isolar os sabotadores."

As declarações foram feitas durante seu terceiro discurso público televisionado desde que o levante começou no país em 15 de março, inspirado pelas revoluções na Tunísia e no Egito . As manifestações, que estão sendo duramente reprimidas, são o mais poderoso desafio ao regime em mais de quatro décadas.

O chefe de Estado sírio advertiu, no entanto, que não acontecerão reformas em um contexto de "sabotagem e caos", alertando que a economia síria sofrerá se o levante não chegar ao fim. "O maior perigo que enfrentamos no futuro é o enfraquecimento ou o colapso da economia síria", disse Assad em frente de bandeiras vermelhas, brancas e verdes sírias.

O presidente sírio também afirmou que um diálogo nacional moldaria o futuro da Síria e conclamou a população que fugiu para a Turquia a retornar. Assad afirmou que pedirá ao Ministério da Justiça que estude a ampliação de uma anistia recente, mas disse que é necessário diferenciar "sabotadores" daqueles com demandas legítimas. "É possível dizer que o diálogo nacional é o lema da próxima etapa. O diálogo nacional poderia resultar em emendas da Constituição ou em uma nova Carta", completou.

A mensagem de Assad não é nova: desde o início da mobilização popular, o governo alega que ela é dirigida por bandidos e por conspiradores externos, e não por verdadeiros reformistas. Sua mensagem sobre a economia tem o objetivo de galvanizar seus partidários na comunidade empresarial e na próspera classe de comerciantes, com a qual o regime conta para manter-se no poder.

A oposição estima que mais de 1,4 mil sírios foram mortos e outros 10 mil foram presos enquanto as forças de Assad tentam reprimir as manifestações. Assad, que herdou o poder em 2000 após a morte de seu pai, fez uma série de gestos para tentar amenizar a mobilização crescente, mas os manifestantes os descartaram por considerá-los simbólicos ou muito tardios.

Nesta segunda-feira, ele anunciou a formação de uma comissão para estudar emendas constitucionais, incluindo uma que abriria caminho para a formação de partidos políticos além do Partido Baath. Ele disse esperar um pacote completo de reformas até setembro ou, no máximo, até o fim do ano. Previamente, ele levantou leis emergenciais e concedeu nacionalidade a milhares de curdos.

Pressão internacional

A pressão internacional sobre o regime vem crescendo, e quase 11 mil fugiram para a Turquia em um espetáculo embaraçoso para um dos países mais fechados do Oriente Médio.

Refugiados sírios são vistos em acampamento recém-aberto em Yayladagi, Turquia (19/06)
AP
Refugiados sírios são vistos em acampamento recém-aberto em Yayladagi, Turquia (19/06)
Nesta segunda-feira, o ministro de Relações Exteriores britânico, William Hague, afirmou que Assad deve aplicar as reformas necessárias em seu país para democratizá-lo ou, caso contrário, "abandonar o poder". Hague fez as declarações durante sua chegada à reunião dos ministros de Exteriores da União Europeia (UE) antes do discurso de Assad.

Segundo um projeto de declaração conjunta que deve ser assinado no encontro, a UE está disposta a aumentar as sanções contra o regime sírio. "A UE prepara ativamente o reforço das sanções contra a Síria com designações adicionais", afirma o documento, ao qual a AFP teve acesso.

"A credibilidade e a liderança do presidente sírio dependem das reformas que ele mesmo prometeu", diz o documento. Segundo fontes diplomáticas, os especialistas trabalham para que as novas sanções sejam adotadas ainda nesta semana.

A UE aprovou até o momento dois tipos de sanções - o congelamento de bens e a proibição de vistos - contra o presidente sírio e pessoas ligadas ao regime. A nova série de sanções incluiria novos nomes e empresas vinculadas ao governo.

Ameaça de veto russo na ONU

O presidente russo, Dmitri Medvedev, afirmou nesta segunda-feira que a Rússia está disposta a utilizar o poder de veto para bloquear uma resolução patrocinada pelos países ocidentais sobre a Síria no Conselho de Segurança da ONU, pois o texto poderia ser utilizado como uma cobertura para uma ação militar.

Em uma entrevista ao Financial Times, que teve a versão completa divulgada pelo Kremlin, Medvedev afirmou que a resolução aprovada pelo Conselho em março sobre a Líbia abriu as portas para uma operação militar.

"O que não estou disposto a apoiar é uma resolução similar à da Líbia, porque estou profundamente convencido de que uma boa resolução foi transformada em um pedaço de papel que é utilizado para cobrir uma operação militar sem sentido", disse. "Não haverá uma resolução semelhante. A Rússia utilizará seus direitos como membro permanente do Conselho de Segurança", afirmou.

*Com AP, BBC, AFP e EFE

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