Premiê do Egito pede desculpas por violência no Cairo

Ahmed Shafiq diz que 'não há justificativa para ataque a manifestantes pacíficos' e promete investigação sobre choques

iG São Paulo |

O primeiro-ministro do Egito, Ahmed Shafiq, pediu desculpas nesta quinta-feira pelo ataque de partidários do governo a opositores que deixou ao menos cinco mortos no Cairo desde quarta-feira. Os manifestantes contrários ao presidente Hosni Mubarak acusam o governo de ter financiado civis e colocado policiais à paisana nas ruas para atacá-los.

AP
Manifestantes antigoverno cercam homem que acreditam ser partidário de Mubarak na praça Tahrir
Em declaração transmitida pela TV estatal, Shafiq pediu desculpas "por tudo o que aconteceu ontem (quarta-feira)". "Não há justificativa para atacar manifestantes pacíficos, e é por isso que estou pedindo desculpas", afirmou. "Foi um erro fatal."

O premiê prometeu uma investigação "para que todos saibam quem estava por trás dele". "Quando as investigações revelarem quem estava por trás desse crime e quem permitiu que ele acontecesse, prometo que serão responsabilizados e punidos pelos que fizeram", afirmou.

O Exército egípcio entrou em ação nesta quinta-feira para tentar conter a violência entre manifestantes pró e contra o presidente do Egito, Hosni Mubarak, que desde quarta-feira se enfrentam na praça Tahrir, no centro do Cairo.

No primeiro dia de choques, que deixaram cinco mortos e mais de 800 feridos segundo o Ministério da Saúde, os soldados não fizeram intervenções, apenas mantendo posição nos pontos de acesso à praça. Na manhã desta quinta-feira, centenas de soldados carregando rifles fizeram uma espécie de cordão humano entre os dois lados. Tanques do Exército também estão no local. Segundo o ministro egípcio da Saúde, Ahmed Samih Farid, a maior parte dos feridos nos confrontos foi vítima de pedras arremessadas e de ataque com barras de ferro ou porretes.

A violência eclodiu em torno das 14 horas locais (10 horas de Brasília), quando milhares de defensores de Mubarak se aproximaram da Praça Tahrir para enfrentar os membros da oposição, que na terça-feira prometeram manter seus protestos apesar do anúncio de Mubarak de que não tentará a reeleição nas eleições de setembro.

Sete horas depois, às 19 horas locais, os grupos rivais se preparavam para um confronto que parecia ter consequências imprevisíveis. Como havia bloqueios nas saídas da praça, os opositores do regime estavam cercados no local sem ter como sair. O clima era de extrema tensão.

Havia centenas de manifestantes com ferimentos na cabeça, causados por pedradas. Como gestos de convocação para uma batalha, homens quebravam calçadas para fazer pedras e portavam barras de ferro de um metro de comprimento.

Havia informações de que, do lado de fora da praça, estavam policiais à paisana possivelmente portando armas de fogo. A todo momento no fim da tarde, explodiam ondas de violência, com correria e gritos. A reportagem do iG ouviu sete tiros de munição não-letal por volta das 16h40 (12h40). Cerca de uma hora e meia depois, duas rajadas foram disparadas. Coquetéis molotov e granadas de gás lacrimogêneo também foram lançados, além de pedras.

Em cada uma das entradas da praça, tanques do Exército marcavam posição com barricadas, enquanto havia centenas de veículos militares no centro da capital. Mas os militares, que na terça-feira prometeram não usar a força contra os manifestantes, permaneceram inertes. Na prática, quem coordenava o controle de chegada à Tahrir eram voluntários, em redundantes barreiras de homens de braços dados, verificando os documentos e fazendo revista pessoal e de bolsas – a fim de evitar a entrada de armas.

Quando os partidários de Mubarak começaram a se aglomerar nesses postos de controle, por volta das 14 horas (10 horas de Brasília), com o Exército dividindo os dois grupos, as hostilidades começaram a escalar. Dos gritos com palavras de ordem de lado a lado, passaram aos xingamentos, e logo pedras do tamanho de abacaxis começaram a voar de lado a lado, ferindo quem estava próximo às barreiras.

Logo depois, os manifestantes pró-governo, que no início do dia eram expulsos da praça com alguma truculência, passaram a sair em meio a socos, tapas no rosto e aberta hostilidade. No início dos choques, o iG presenciou ao menos 13 homens com o rosto sangrando, um deles com dentes quebrados, e apanhando enquanto eram levados para a divisa dos dois grupos. Um jornalista inglês também foi espancado ao tentar interromper uma dessas agressões.

À medida que o tempo passava, os ânimos se exaltavam cada vez mais. Havia militantes a favor de Mubarak montados a cavalo e até em camelos, prontos para uma inusitada guerra campal medieval. Também havia relatos de pessoas armadas com facões, facas e barras de ferro. Um helicóptero militar passou a sobrevoar a área. O centro da praça se esvaziou e a multidão que, antes protestava sem violência, embora de forma raivosa, encaminhou-se para três saídas, que concentravam os opositores.

Em meio ao caos e à tensão que pairava no local, porém, coexistia uma peculiar tranquilidade em alguns bolsões na praça. Havia gente deitada nas barracas de camping usadas na vigília desde a semana passada, e centenas se ajoelhavam para rezar no horário da oração muçulmana. Além de manifestantes homens, havia muitas mulheres, algumas idosas, e crianças sitiadas no local. A situação era crítica.

Todas as saídas aparentavam estar bloqueadas para a multidão pelos tanques do Exército e pela ameaça das pedras e de uma multidão de opositores enfurecidos. Após tentar três diferentes rotas de escape, a reportagem do iG conseguiu deixar o local por uma via vicinal. O perímetro de segurança e o cerco dos manifestantes pró-Mubarak ultrapassava 1 km do centro da praça.

As estreitas e desertas ruas sob iluminação feérica nos arredores da praça revelaram o resultado de dias de protestos: dezenas de carros queimados e virados de cabeça para baixo, lixo espalhado por toda parte, assim como barricadas e homens armados de paus e pés de cabra. Com a saída da polícia das ruas, no fim da semana passada, moradores adotaram milícias e improvisaram postos de controle e revistas nos bairros, para evitar roubos e saques de residências.

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