População em Trípoli celebra avanço rebelde contra Kadafi

Comemoração ocorre em meio à prisão de dois filhos de Kadafi e rendição de unidade militar; paradeiro de líder líbio é desconhecido

iG São Paulo |

AP
Reprodução de imagem de TV mostra pessoas celebrando nas ruas de Trípoli, Líbia
Após seis meses de conflito, rebeldes líbios consolidaram neste domingo o avanço iniciado sábado sobre a capital do país, Trípoli, enfrentando poucos bastiões de resistência em meio a sinais de que o regime de 42 anos de Muamar Kadafi, cujo paradeiro é desconhecido, está perto do fim. De acordo com o ministro de Informação dos rebeldes, Mahmoud Shammam, o caminho dos opositores para Trípoli foi aberto quando a unidade militar encarregada de proteger Kadafi e a capital se rendeu.

Os militantes eufóricos celebraram com os residentes da capital na principal praça da cidade, um simbólico centro de poder do regime. No local, chamado de Praça Verde pelo regime, mas rebatizada de Praça dos Mártires pelos rebeldes, os militantes dispararam para o alto e contra um grande pôster do líder líbio.

"Agora não chamamos aqui de Praça Verde, mas de Praça dos Mártires", disse o engenheiro Nour Eddin Shatouni, de 50 anos, que estava entre a multidão de residentes que deixaram suas casas para participar das celebrações. "Esperávamos por um sinal, e ele veio. Todas as mesquitas gritaram 'Deus é grande!' ao mesmo tempo. Sentimos um bom cheiro, e era o cheiro da vitória. Sabemos que agora é o momento."

A praça tem um profundo valor simbólico. O regime manteve ali manifestações pró-Kadafi quase toda a noite desde que a revolta começou, em fevereiro. Anteriormente, a Al-Jazeera mostrou residentes de uma área não especificada de Trípoli celebrando as conquistas da oposição. As imagens mostraram as pessoas dançando, segurando bandeiras rebeldes e pisando em pôsteres com o retrato de Kadafi. Um vídeo divulgado pela Associated Press revelou também pessoas comemorando com disparos em Trípoli na noite de domingo. (Ver vídeo abaixo)

As comemorações também ocorrem em Benghazi, epicentro da revolta e reduto opositor localizado no leste do país, onde dezenas de milhares saíram às ruas. Segundo Fathi Benjalifa, um membro do opositor Conselho Nacional de Transição (CNT, órgão político dos rebeldes), a oposição controla toda a capital, menos Bab al-Aziziya, onde fica o quartel-general de Kadafi. O embaixador da Líbia na ONU, que desertou do regime, disse à BBC que os rebeldes teriam o controle de 90% da capital.

As comemorações ocorrem enquanto há informações de que Saif al-Islam e Saadi, dois dos filhos de Kadafi, foram capturados. Mais tarde, a prisão de Saif foi confirmada pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), que em junho emitiu um mandado de prisão contra ele pela repressão contra o levante popular. O promotor do TPI em Haia, Holanda, disse que contataria os rebeldes para discutir a extradição de Saif para a corte, onde será julgado por crimes contra a humanidade.

Assista ao vídeo postado no YouTube da população comemorando em Trípoli:

A captura de Saif , por muito tempo apontado como sucessor de Kadafi, foi anunciada pelo chefe do CNT em uma entrevista à Al-Jazeera. "Temos informações confirmadas de que nossos membros capturaram Saif Al-Islam", disse Mustapha Abd El Jalil. "Demos instruções para tratá-lo bem para que possa ser levado perante a Justiça."

Outro filho, Mohammed, estava em contato com os rebeldes pedindo garantias para sua segurança, disse o porta-voz Sadiq al-Kibir. Mohammed, que está encarregado das telecomunicações líbias, apareceu na Al-Jazeera, dizendo que sua casa foi cercada por rebeldes armados. "Eles garantiram minha segurança. Sempre desejei o melhor para os líbios, e sempre estive ao lado de Deus", disse. Perto do fim da entrevista, era possível ouvir o som de disparos, e, antes de a linha de telefone ser cortada, Mohammed disse que rebeldes entraram em sua casa.

De acordo com a AP, um rebelde líbio afirmou que a unidade militar encarregada de proteger Kadafi também se rendeu. No Twitter, o Washington Post citou fontes de inteligência afirmando que a família de Kadafi retirou dinheiro e bens da Líbia nos últimos cinco dias.

O anúncio das prisões e rendições foi feito em meio ao avanço rebelde na capital, Trípoli, no último passo para pôr fim ao regime. Além das imagens de celebração, a rede de TV Al-Jazeera também transmitiu o que pareceu ser o terceiro áudio de Kadafi desde sábado, em que voltou a conclamar seus partidários, particularmente os líderes religiosos, a defender Trípoli dos rebeldes e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em nome do islã.

EFE
À esq., Saif al-Islam, apontado como sucessor de Muamar Kadafi, e à dir. Saadi, o terceiro filho do líder líbio. Os dois foram capturados por forças rebeldes
Avanço rebelde

Vindos do mar a partir de Misrata, a 200 km a leste de Trípoli, e por terra a partir das cidades conquistadas no oeste do país, centenas de rebeldes líbios entraram na capital desde sábado . Confrontos intensos ocorreram em diversos pontos da cidade neste domingo, de acordo com jornalistas que viajam com os rebeldes. De acordo com o Ministro da Informação líbio, Moussa Ibrahim, os confrontos em Trípoli deixaram 1,3 mil mortos e 5 mil feridos. A informação não pôde ser confirmada por fontes independentes.

Em meio aos acontecimentos, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, disse que o regime de Kadafi está "claramente desmoronando", sendo o momento de criar uma nova Líbia democrática. "Quanto mais cedo antes Kadafi se der conta de que não tem possibilidade alguma de vencer, melhor para todos. O regime está claramente em seu último estágio", disse previamente a porta-voz da Otan, Oana Lungescu.

À medida que os rebeldes chegaram a Trípoli,  foram saudados por uma multidão de civis nas ruas, que gritavam frases contra o regime de Kadafi e agitavam a bandeira dos rebeldes. Horas antes, as forças antigoverno haviam tomado o controle de postos militares nas vias de acesso a oeste de Trípoli, onde pegaram armas e munições. Outro grupo de rebeldes levantou bases de controle nos subúrbios a leste da capital, intensificando o cerco às forças de Kadafi em Trípoli.

Apesar do avanço rebelde em direção ao complexo de Bab al-Aziziya, de Kadafi, o líder líbio disse em seu segundo áudio desde sábado que ficará em Trípoli "até o fim" e conclamou seus partidários a lutar contra os infieis e "libertar" a terra. "Lutaremos até liberarmos cada centímetro de terra e evitar que ela seja ocupada. Estou com vocês nessa batalha. Não entregaremos Trípoli para os colonialistas e traidores", disse Kadafi. "Saiam às ruas aos milhares. Os que não tiverem armas devem nos procurar para receber uma. As massas devem se armar."

Também em tom de desafio, Ibrahim afirmou que milhares de mercenários e voluntários estão dispostos a defender a capital. "As pessoas não são somente patriotas, mas também têm famílias e casas que devem proteger e compreendem que, se os rebeldes entrarem, haverá derramamento de sangue", disse.

Ibrahim acusou os rebeldes de massacrar a população de cidades e vilarejos nos últimos dias. Ao mesmo tempo, ele fez um apelo para que os rebeldes aceitem negociar. "Se vocês querem paz, estamos prontos", disse. Ibrahim também acusou a Otan de "abrir estradas para os rebeldes, que são fracos demais para fazer qualquer coisa sozinhos".

O cerco dos rebeles à Trípoli se intensificou desde sexta-feira, quando conquistaram cidades importantes perto da capital que até então estavam sob domínio do governo. Entre elas estão Zawiya, a 50 quilômetros a oeste de Trípoli, e Zlitan, a 160 quilômetros a leste.

*Com AFP, Reuters, AP e BBC

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