População e ONG temem massacre na Líbia

Restrições a jornalistas e internet dificultam confirmação do número de mortos em confrontos em manifestações contra o governo

iG São Paulo |

Manifestantes antigoverno se aproximaram ainda mais da capital líbia neste domingo, enquanto violentos confrontos voltaram a ocorrer na cidade de Benghazi, numa escalada que, de acordo com a ONG internacional Human Rights Watch, pode terminar em massacre. Testemunhas relatam que as forças do governo atacaram os manifestantes na cidade de Misrata, no Mediterrâneo, a 200 quilômetros da capital Trípoli. A população também voltou a ocupar as ruas de Benghazi, a 1.000 quilômetros da capital, onde a repressão atira contra a multidão.

"Os advogados estão protestando em frente ao tribunal de Benghazi, há milhares de pessoas lá. Estamos chamando (o local) de Praça Tahrir 2", disse à AFP o advogado Mohammed al-Mughrabi, referindo-se à praça onde os manifestantes se concentraram no Egito por 18 dias para derrubar o presidente Hosni Mubarak. Na Líbia, o alvo dos protestos é o ditador Muamar Kadhafi, há mais de quatro décadas no poder. Também em Benghazi, manifestantes "atacaram uma guarnição" da polícia e "estão sendo atingidos por balas de franco-atiradores", acrescentou al-Mughrabi, sem dar mais detalhes.

A restrição à presença de jornalistas estrangeiros e o bloqueio aos serviços de internet nos últimos dias tornam difícil a confirmação independente dos números de vítimas. Novas mortes teriam ocorrido neste domingo, quando pessoas que participavam de funerais de vítimas de sábado teriam sido alvejadas por tiros de metralhadoras e outros armamentos pesados. Uma médica de Benghazi, identificada como Braikah, descreveu a situação na cidade como "um massacre" e relatou como as vítimas foram levadas ao hospital Jala, onde ela trabalha. "A maioria tinha ferimentos a bala – 90% na cabeça, no pescoço e no peito, principalmente no coração", disse.

Massacre

"Estamos pedindo à Cruz Vermelha que envie hospitais de campanha. Não podemos aguentar mais", disse em entrevista à rede Al-Jazeera um morador de Benghazi. "Parece uma zona de guerra entre manifestantes e as forças de segurança", denunciou Fathi Terbeel, um dos organizadores dos protestos."Nossos números mostram que mais de 200 pessoas já foram assassinadas. Que Deus tenha piedade delas", acrescentou.

O banho de sangue em Benghazi começou no sábado, quando grupos que se dirigiam para os funerais de vítimas de protestos atacaram um quartel no caminho do cemitério. As pessoas jogaram coqueteis Molotov, e as tropas responderam com tiros, "deixando pelo menos 12 mortos e muitos outros feridos . contou Briki, do Quryna, citando fontes das forças de segurança.

Segundo médicos de hospitais locais, mais de 200 teriam morrido e ao menos 900 ficaram feridos nos últimos dias. A ONG internacional Human Rights Watch, que vem fazendo uma contabilização das vítimas dos protestos na Líbia, afirmou ter confirmado ao menos 173 mortes desde o início das manifestações, na quarta-feira. Mas a própria organização reconheceu que a estimativa é conservadora e que o número total de mortos pode ser bem maior.

"Estamos muito preocupados de que, sob o 'blackout' de comunicações que se instalou na Líbia desde ontem (sábado), uma catástrofe humanitária esteja acontecendo", alertou o diretor da ONG Porteous.

Em meio ao caos do fim de semana, a Turquia repatriou mais de 250 cidadãos que estavam na Líbia, enquanto a Áustria anunciou neste domingo que está enviando aviões militares para Malta com o mesmo objetivo. Kadhafi, de 68 anos, mais antigo ditador do mundo árabe, ainda não fez comentários públicos sobre a revolta no país.

Protestos concentrados

A Líbia é um dos vários países árabes ou muçulmanos a enfrentar protestos pró-democracia desde os levantes populares que levaram à queda do presidente da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, em janeiro. Desde então, os protestos populares também forçaram a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak, no dia 11 de fevereiro.

Com AFP e BBC.


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