Partidos egípcios ameaçam boicotar eleições

Coalizão Democrática disse em comunicado que não participará da votação em novembro se a junta militar não alterar a lei eleitoral

iG São Paulo |

Partidos políticos de todo o espectro ideológico ameaçaram boicotar as próximas eleições no Egito, a partir de novembro, caso a junta militar que governa o país não altere a lei eleitoral.

A ameaça foi feita em uma declaração conjunta na noite de quarta-feira, e alguns ativistas preparam protestos para a sexta-feira no Cairo, esperando atrair milhares de pessoas descontentes com os generais que assumiram o poder no lugar de Hosni Mubarak , derrubado por uma rebelião popular em fevereiro .

AP
Jovens egípcios protestam e cantam slogans enquanto carregam cartazes com a frase "Sim para a revolução" em árabe (19/9)

"Nos negaremos a participar das eleições se o artigo 5 da lei eleitoral - que proíbe aos partidos apresentar candidatos a um terço das vagas parlamentares - não for cancelado", destacou um comunicado emitido após reuniões dos partidos membros da Coalizão Democrática". A coalizão inclui o Partido da Liberdade e Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, e o Partido Liberal Al Waf.

A lei eleitoral, promulgada por decreto militar na terça, prevê "a eleição de dois terços dos deputados pelo sistema de listas fechadas e representação proporcional, e um terço por votação nominal, reservada a candidatos independentes.

O artigo 5 do decreto estabelece que os candidatos independentes eleitos não poderão se unir a qualquer bloco parlamentar, sob risco de perda do mandato. "A Coalizão Democrática destaca sua surpresa com a posição do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), que rejeitou o pedido das forças políticas para a eleição de todos os membros do Parlamento por meio de listas fechadas proporcionais".

O comunicado da coalizão destaca que o Conselho "adotou um sistema que priva os partidos políticos da capacidade de apresentar candidatos" a um terço das cadeiras do Parlamento, "o que significa que a disputa por essas vagas se dará apenas entre candidatos independentes e do antigo regime".

O sistema eleitoral misto é alvo de uma intensa polêmica há semanas e muitos acreditam que as cadeiras reservadas aos candidatos "independentes" são uma forma de preservar os representantes do antigo poder.

No entanto, alguns ativistas islâmicos, incluindo a poderosa Irmandade Muçulmana, disseram que não vão aderir ao protesto marcado para sexta, preferindo dar tempo ao Exército para responder.

Segundo a AP, alguns oficiais da Irmandade tentaram amenizar a ameaça de boicote, dizendo que o grupo não fugirá das eleições. "Todo mundo está falando sobre um boicote, mas nós não estamos atrás disso, porque isso significaria adiar a transferência de poder, algo que não queremos", afirmou Mohammed el-Beltagi.

Parece improvável que a Irmandade e outros grupos islâmicos boicotem as eleições. Eles estão entre as forças políticas mais bem organizadas no Egito, e melhor preparadas para ocupar as cadeiras do Parlamento.

A coalizão partidária também pediu que o conselho militar crie uma lei para banir oficiais envolvidos em corrupção no período de Mubarak das eleições por um período de dez anos. O novo parlamento formado a partir das eleições selecionará um comitê de cem membros para escrever uma nova Constituição.

Os Estados Unidos também estão pressionando o governo provisório, dizendo que esperam uma revogação mais rápida das leis de emergência usadas por Mubarak para reprimir dissidentes. Os militares dizem que essas leis serão revogadas só em 2012 .

Cerca de 60 grupos e partidos políticos, inclusive o braço político da Irmandade, deram prazo até domingo para que a junta militar atenda às suas exigências. 

A junta militar disse na terça-feira que as eleições parlamentares serão realizadas em várias etapas, a partir de 28 de novembro, e que os candidatos poderão começar a se registrar em 12 de outubro.

Tortura

Também na quarta, um promotor egípcio abriu um inquérito para investigar um vídeo que mostra uma dezena de policiais e oficiais militares espancando e dando choques elétricos em dois detentos. Na filmagem, eles davam risada enquanto gravavam a sessão de tortura com câmeras de celular.

O vídeo, que está circulando nas redes sociais, mostra dois homens apanhando repetidamente, enquanto são questionados sobre a origem das armas e rifles apreendidas enquanto eles estavam na província Dakahliya, no delta do rio Nilo. Diante da recusa da resposta, os soldados dão choques elétricos em suas orelhas e queixos.

"A presença da força militar dentro de uma delegacia civil, e espancando detentos para forçar uma confissão, figura sequestro", disse Malik Adlu, um advogado e ativista.

Um oficial que não quis se identificar afirmou que os dois foram presos e setenciados a 15 anos por tráfico de armas.

"A mentalidade da polícia e dos militares não mudou", afirmou Adly. "Isso não nos surpreende porque acontece todo dia, com cada detento."

Al-Jazeera

A polícia egípcia realizou nesta quinta um novo ataque contra as instalações do canal de televisão Al-Jazeera, informou à AFP um funcionário da emissora no Cairo, Ahmed Zain.

De acordo com seu relato, um grupo de policiais invadiu o prédio, trancou jornalistas em uma sala, tirou seus crachás de identificação e confiscou câmeras e computadores. Uma jornalista, jogada com violência contra o chão, tentou apresentar queixa, mas a delegacia do bairro não quis registrar a ocorrência.

Em 11 de setembro, o diretor da emissora havia anunciado que autoridades egípcias interromperam a programação depois de ter revistado o local e confiscado material de trabalho. As autoridades justificaram a ação por queixas de vizinhos e falta de uma licença de difusão válida.

O poder egípcio multiplicou recentemente as advertências à imprensa acusada de difundir supostas informações que atentariam contra a segurança do país.

Com AFP, AP e Reuters

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