Para analistas, Egito não corre risco de virar regime islâmico

Partidos de oposição teriam conseguido crescer em meio a distúrbios, mas não ter liderança suficientemente forte

BBC Brasil |

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Analistas britânicos ouvidos pela BBC Brasil veem como remota a possibilidade de que, ante uma eventual queda do presidente egípcio Hosni Mubarak , o Egito passe a ser governado por um regime islâmico.

O temor foi levantado pelo próprio Mubarak – que, em entrevista à rede americana ABC, disse que o movimento oposicionista Irmandade Muçulmana iria se aproveitar de um “vácuo de poder” no Egito – e ecoa entre alguns políticos ocidentais, preocupados em evitar que regimes islâmicos linha-dura como o iraniano ou o do grupo palestino Hamas ascendam em meio aos distúrbios egípcios.

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Manifestante antigoverno segura bandeira egípcia manchada de sangue na praça Tahrir, no Cairo, Egito
Para Paul Rogers, consultor de segurança do centro de estudos Oxford Research Group, no entanto, esse temor é infundado. “A Irmandade Muçulmana recebeu cerca de 20% dos votos nas últimas eleições, que foram fraudadas. Então essa porcentagem talvez chegue a 30%. Não creio que (em uma eventual queda de Mubarak) o grupo consiga obter votos suficientes para obter uma maioria ou chegar ao poder, mas pode se tornar chave como fiel da balança ou na formação de coalizões.”

Rogers também ressaltou que o levante contra Mubarak não está sendo feito apenas por muçulmanos, mas também por cristãos e por pessoas de diferentes classes sociais egípcias. Isso, disse ele, “faz o protesto ser mais significante, como foi na Tunísia”, onde o presidente foi forçado a renunciar.

Para George Joffé, pesquisador do centro de estudos internacionais da Universidade de Cambridge e especializado no norte da África, “a Irmandade Muçulmana será uma influência importante, mas pacífica”, e o regime islâmico não é uma possibilidade.

'Dia da Partida'

Nesta sexta-feira, que está sendo chamada de “Dia da Partida” pelos manifestantes, dezenas milhares de egípcios voltaram a se reunir na Praça Tahrir, no Cairo, no 11º dia consecutivo de protestos pedindo a saída de Mubarak.

Ao mesmo tempo, o jornal americano The New York Times noticiou que o governo Obama está discutindo com autoridades egípcias uma proposta para que Mubarak renuncie imediatamente e passe o poder a um governo de transição liderado pelo vice-presidente Omar Suleiman, com o apoio do Exército do país.

Para Joffé, mesmo que Mubarak caia, o regime egípcio se manterá, ainda que fazendo algumas concessões para atender às demandas da população, como mudanças constitucionais. “Mubarak falhou, mas o regime por trás dele é muito forte e, com forte sustentação do Exército, não deve desaparecer”, opinou Joffé.

Ele acrescentou também que, ainda que partidos de oposição cresçam em meio aos distúrbios, falta a eles uma liderança suficientemente forte para depor o sistema egípcio atual. O analista acredita que o vice Suleiman deve assumir o poder transitório, com apoio militar. “É o Exército quem deve ditar o ritmo das mudanças.”

Já Paul Rogers acredita que o regime ainda pode cair, dependendo da magnitude que tomem as manifestações desta sexta-feira e do fim de semana. “Nesse cenário, a ocorrência de eleições justas dependerá de Suleiman, que ainda é parte desse velho regime. Ele teria de deixar claro que um (eventual) pleito será justo e aberto a todos os partidos. Caso contrário, imagino que pode haver novos levantes da oposição.”

Influência externa

Analistas ouvidos pela reportagem divergem quanto ao poder de influência da comunidade internacional sobre o destino do governo egípcio.

Para Rogers, as pressões americanas por uma transição de poder são “significativas”.  “Essa é a principal razão pela qual acredito que seja possível que Mubarak caia nas próximas semanas”, opinou.

Já Joffé acredita que os EUA tentam demonstrar mais influência do que de fato têm. “Não vejo papel para a comunidade internacional (na resolução da crise), pelo seu constante mau comportamento com relação ao mundo árabe. Não acho que o povo vai escutar os estrangeiros”. Ele também relativiza a possibilidade de que os levantes no mundo árabe levem à queda de governos na região. “Os regimes vão se adaptar, com o mínimo de concessões para agradar os opositores”, disse.

Rogers acha prematuro falar em um “levante regional”. “É preciso olhar país por país. A Argélia parece ter as coisas sob controle. A Líbia tem a riqueza do petróleo para subsidiar a economia. O Marrocos tem um rei islâmico popular. No Iêmen talvez as coisas evoluam mais rapidamente. Mas, apesar de suas rígidas estruturas autocratas, esses países são muito diferentes entre si. Por isso, a questão é mais complexa e menos previsível do que, por exemplo, a queda consecutiva de regimes soviéticos na Guerra Fria”, opinou.

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