Otan assume comando de zona de exclusão aérea na Líbia

Secretária de Estado americana indica que Aliança também deve assumir em breve todo o controle da missão militar no país

iG São Paulo |

AP
Rebeldes líbios rezam no deserto em Zwitina, próximo à Ajdabiya

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Rodham, anunciou nesta quinta-feira que Washington está transferindo para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) o comando e o controle da zona de exclusão aérea sobre a Líbia. Hillary indicou que a Aliança eventualmente protegerá os civis líbios, assegurará a aplicação do embargo de armas e apoiará os esforços de ajuda humanitária no país do norte da África.

"Estamos tomando o próximo passo: juntamente com nossos outros aliados da Otan concordamos em transferir para a organização o controle do bloqueio aéreo", disse. "Todos os 28 países-membros também autorizaram suas autoridades militares a desenvolver um plano de operações para que a Otan assuma a missão mais ampla de proteção dos civis."

Washington esperava que a Aliança chegasse a um consenso nesta quinta-feira sobre assumir o total controle da missão militar autorizada pela ONU, incluindo a proteção dos civis líbios e o apoio aos esforços de ajuda humanitária em campo. Ainda não está claro quando os aliados poderão chegar a um acordo sobre a questão.

O anúncio de Hillary foi feito depois de o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, ter anunciado que a Aliança assumirá o comando das operações de vigilância da zona de exclusão aérea sobre o país do norte da África. De acordo com fontes da Aliança, o controle do bloqueio aéreo será entregue domingo à noite.

"Decidimos implementar a zona de proibição de voo sobre a Líbia" para impedir a ação dos aviões do líder Muamar Kadafi e proteger a população, disse após reunião em Bruxelas. Rasmussen também anunciou que a Otan começará o planejamento militar para possivelmente assumir o controle de todas a operações, o que incluiria os ataques a alvos terrestres para proteger a população civil líbia.

Hillary disse que viajará para Londres para participar de um encontro internacional sobre a situação no país na terça-feira. "A Otan tem condições de coordenar esse esforço internacional e assegurar que todas as nações participantes trabalhem juntas de forma efetiva para nossos objetivos comuns. Essa coalizão inclui países além da Otan, como nossos parceiros árabes, e esperamos que todos eles ofereçam uma importante direção política."

Segundo a chefe da diplomacia americana, vem caindo o número de aviões dos EUA em uso na missão, enquanto aumenta a participação de outros países. Ela afirmou que a coalizão internacional está em controle dos céus sobre a Líbia e a ajuda humanitária está chegando para as pessoas que dela precisam. De acordo com Hillary, a coalizão forçou o recuo das forças de Kadafi, mas que elas ainda continuam "uma séria ameaça à segurança da população" local.

As declarações foram feitas após o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, ter afirmado que o comando das operações militares do Ocidente no país do norte da África seria transferido dos EUA para a Otan dentro de um a dois dias . "O compromisso foi alcançado em um tempo muito curto", disse o chanceler turco, de acordo com a agência Anatolia, depois de uma teleconferência com os colegas dos EUA, Hillary Clinton; da França, Alain Juppé; e do Reino Unido, William Hague.

Já o almirante americano William Gortney disse que os EUA estão trabalhando para ceder o comando das operações militares na Líbia "tão breve como esse fim de semana". Apesar disso, explicou, os EUA continuarão participando das ações contra Kadafi, especialmente "fornecendo capacidades que a coalizão não tem, como porta-aviões", disse o almirante.

A Turquia era até agora um dos principais obstáculos para que a Aliança coordenasse as operações militares na Líbia, como reivindicam vários Estados-membros como Estados Unidos, Reino Unido e Itália. Já a França defendia que o controle político da operação ficasse nas mãos de uma coalizão internacional que incluísse os países árabes.

O governo turco, dirigido por Recep Tayyip Erdogan, vinha criticando os ataques lançados pela coalizão internacional contra as forças de Kadafi. Nos últimos dias, diversas negociações com o governo americano suavizaram a postura turca.

"Queremos que essa operação (da Otan) não ultrapasse os limites estabelecidos pela resolução (1973) da ONU. Que ela seja destinada a impor um embargo às armas ou assegurar uma assistência humanitária" aos líbios, disse o chanceler turco na quarta-feira à noite. "Todas as operações devem ser executadas sob a tutela da ONU e sob o comando e o controle da Otan", afirmou.

As declarações de Davutoglu foram feitas depois de o Parlamento turco ter autorizado a participação da Turquia nas operações na Líbia, com cinco navios e um submarino sob comando da Otan para assegurar o cumprimento do embargo de armas imposto ao país do norte da Áfricano.

O anúncio do possível acordo ocorreu no sexto dia da ofensiva da coalizão internacional lançada no sábado para estabelecer a zona de exclusão prevista em resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU há uma semana.

Aviões militares franceses derrubaram nesta quinta-feira uma aeronave das forças leais ao líder da Líbia, Muamar Kadafi, segundo informaram autoridades americanas. A França também disse ter bombardeado uma base aérea líbia. Segundo jornalistas da AFP e testemunhas, disparos da defesa antiaérea foram ouvidos na noite desta quinta-feira em Trípoli e em Tajura, a 30 km da capital, e em Sirte, a cidade natal de Kadafi.

Apesar dos ataques franceses, confrontos entre rebeldes e forças pró-governo da Líbia continuaram nesta quinta-feira. Durante a madrugada, várias explosões foram ouvidas na capital, Trípoli. Também há relatos de combates intensos entre rebeldes e forças leais a Kadafi na cidade de Ajdabiya. Moradores da cidade relataram ter visto disparos de mísseis e de artilharia e casas incendiadas.

Acusação de mortes de civis

Líbios se reuniram nesta quinta-feira em um cemitério na capital para o enterro de 33 pessoas que, segundo o regime de Muamar Kadafi, foram vítimas de um ataque aéreo das forças internacionais, informou a rede de TV americana CNN.

A televisão estatal do país transmitiu os funerais ao vivo, chamando os mortos de vítimas da "agressão colonial cruzada". Mais cedo, um oficial do governo líbio disse que aviões da coalizão atingiram o subúrbio residencial de Tajura, em Trípoli, e a TV estatal mostrou imagens de incêndios, veículos destruídos e corpos.

AFP
Líbios participam em cemitério de Trípoli de enterro de pessoas mortas durante ataques da coalizão, segundo o regime de Muamar Kadafi
Segundo um balando provisório divulgado nesta quinta-feira pelo porta-voz do regime, Mussa Ibrahim, os ataques da coalizão teriam deixado cerca de 100 mortos entre os civis na Líbia depois do início da ofensiva contra as posições de Kadafi. As informações não puderam ser verificadas por fontes independentes.

Por outro lado, um médico de um hospital de Misrata, reduto rebelde a leste de Trípoli, disse nesta quinta-feira que as forças leais a Kadafi deixaram 109 mortos e 1,3 mil feridos em uma semana durante sua ofensiva contra a cidade. "Desde sexta-feira, os ataques das forças Kadafi deixaram 109 mortos e 1,3 mil feridos, dos quais 81 estão em estado grave graves", afirmou o médico sob condição de anonimato.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha exigiu nesta quinta-feira que os combatentes na Líbia autorizem o acesso das equipes de ajuda humanitária aos feridos e aos civis que precisam de ajuda urgente.  "Não há pausa para os civis que vivem nas zonas de combate na Líbia. Além dos ataques aéreos das forças internacionais, violentos confrontos são registrados entre as forças do governo e a oposição armada em diferentes locais", disse o CICV em um comunicado.

O CICV considera que as necessidades aumentam a cada dia em meio à ofensiva das forças leais a Kadafi contra os rebeldes em Misrata e depois dos ataques de quarta-feira da coalizão internacional contra as tropas em terra nessa cidade.

A organização, presente em Benghazi (bastião da rebelião contra o líder líbio no leste), lamenta não ter acesso a grande parte do país. "As organizações humanitárias precisam de acesso às regiões afetadas pelo conflito. Além disso, equipes médicas e ambulâncias devem ser autorizadas a atender os feridos", disse a organização.

A Cruz Vermelha pede também a todas as partes envolvidas nos combates que facilitem o mais rápido possível a distribuição da ajuda humanitária.

*Com Reuters, EFE e AFP

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