Opositores forçam recuo de partidários de Mubarak no Cairo

Contra todas as expectativas, opositores ganham terreno e expulsam governistas de ruas perto da praça Tahrir; há oito mortos

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

AP
Manifestantes contrários ao governo entram em confronto com partidários de Hosni Mubarak
No décimo dia de protestos no Egito, manifestantes antigoverno revidaram contra as ações de violência de partidários do presidente egípcio, Hosni Mubarak, expulsando-os de algumas ruas perto da praça Tahrir que eles controlavam. A praça foi palco de violentos confrontos na quarta-feira .

Do hotel Ramsés Hilton era possível ver que, contra todas as expectativas, os opositores ganharam terreno e afastaram os pró-Mubarak, que estão se dispersando, bem além da área da praça. Em frente ao hotel, que passou a ser protegido por uma barreira do Exército, ocorriam batalhas de pedra entre os manifestantes dos dois grupos.

O dia foi de batalha acirrada no centro; a reportagem do iG ouviu mais de 70 tiros disparados e dezenas de explosões, que dispersavam as multidões ao redor da praça, bastião simbólico ocupado e mantido há dez dias. Apenas nesses momentos, o Exército interveio , afastando as multidões e formando uma zona de isolamento.

Os confrontos iniciados na quarta-feira deixaram pelo menos oito mortos e 890 feridos, segundo o Ministério da Saúde do Egito. A ONU estima que mais de 300 tenham morrido desde o início dos protestos no país, no dia 25 de janeiro.

No fim da manhã, era difícil ter uma noção clara da situação no terreno, por causa das inúmeras barricadas de placas de metal e das hordas correndo por toda parte. Mas aos poucos foi possível identificar que os manifestantes antigoverno haviam vencido a batalha que continuou à noite e tornou-se sangrenta na caótica quinta-feira.

Somente no fim da tarde no Egito - que está quatro horas à frente do horário de Brasília -, porém, ficou evidente a força dos que pedem a renúncia de Mubarak, há 30 anos no poder. Os defensores do presidente foram afastados à força e perderam uma enorme área ao redor da praça que na quarta-feira era tida como inexpugnável.

Foi uma luta quase medieval, que teve as pedras como principal arma. Contou ainda com cavalaria à moda antiga – incorporando até camelos, tacapes e barras de ferro. Como escudos, caixas de plástico usadas para verduras, placas de metal e tábuas de madeira.

Em alguns momentos presenciados pelo iG , apesar da evidente violência, a batalha, em busca da conquista de terreno se assemelhava a um jogo infantil: grupos espalhados de seis a dez rapazes lançavam por minutos a fio pedras contra os opositores, sem acertá-los, por causa da distância. Provocavam e esperavam parados movimentos adversários.

O resultado surpreendeu os observadores especialmente porque os manifestantes contra o governo haviam sido acuados e surpreendidos por uma bem organizada massa pró-Mubarak – que até então nunca havia saído às ruas, mas chegou atacando. Embora o primeiro-ministro do Egito, Ahmed Shafiq, tenha afirmado em rede nacional desconhecer a origem do grupo, há fortes suspeitas de que seja formado por policiais à paisana, funcionários estatais e pessoas pagas para causar distúrbios.

Milícias

A manhã desta quinta-feira foi marcada pelo caos, em que milícias desses grupos e gangues dominavam boa parte da área ao redor da praça, fazendo bloqueios e dominando o terreno. O governo retirou a polícia das ruas, possivelmente com a intenção de provocar esse tipo de instabilidade, e o Exército se comprometeu a não intervir.

Os bandos atacaram e intimidaram inúmeros jornalistas – quase toda a mídia internacional está hospedada nessa área. Nesta quinta-feira, ao menos quatro jornalistas - duas espanholas, um holandês e uma libanesa - foram retirados à força de táxis onde estavam e ameaçados por hordas de homens, e até crianças, armados de facões sujos de sangue. Uma jornalista francesa havia sofrido um sequestro relâmpago na noite de quarta-feira, e uma dupla de jornalistas portugueses teve a bateria da câmera confiscada por um policial à paisana (que mostrou a identificação) que integrava o grupo pró-Mubarak.

A suposta justificativa para as agressões era de que a imprensa internacional estaria fazendo uma cobertura a favor dos manifestantes que querem a queda do chefe do executivo egípcio.

Vice-presidente

Os novos choques aconteceram pouco depois de o vice-presidente do país, Omar Suleiman, anunciar que o filho de Hosni Mubarak, Gamal, não concorrerá à presidência - uma das principais exigências dos opositores. Analistas e a maioria dos egípcios acreditavam que Gamal estava sendo preparado para suceder o pai.

Em um pronunciamento em rede nacional de TV na terça-feira, Mubarak disse que não concorreria às eleições presidenciais de setembro, mas não mencionou seu filho.

Nesta quinta-feira, o primeiro-ministro do Egito, Ahmed Shafiq, pediu desculpas à população pelos violentos confrontos de quarta-feira no Cairo. "Esse é um erro fatal", disse Shafiq à rede privada de TV Al-Hayat. "Quando as investigações revelarem quem está por trás desse crime e quem permitiu que ele ocorresse, eu prometo que eles serão responsabilizados e punidos pelo que fizeram."

"Não há qualquer desculpa possível para atacar manifestantes pacíficos, e é por isso que eu estou pedindo desculpas", afirmou o premiê, que pediu ainda que os participantes dos protestos "vão para casa e ajudem a encerrar essa crise".

Shafiq também disse estar "pronto para ir até a praça Tahrir" e dialogar com os manifestantes contrários ao governo. Mas os grupos que estão na praça Tahrir rejeitaram a negociação . "Não vamos aceitar qualquer diálogo com o regime até que nossa principal seja atendida, ou seja, que o presidente Mubarak deixe o poder", afirmou Amr Salah, que representa alguns dos grupos de manifestantes.

O que parecia se transformar em uma vitória da contrarrevolução, com o provável apoio estatal e suposto arrefecimento dos manifestantes, foi ao longo do dia se modificando. A situação, entretanto, permanece  volátil e indefinida.

*Com BBC

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