Oposição rejeita diálogo proposto por premiê do Egito

Ahmed Shafiq diz estar 'pronto para ir até a praça Tahrir', mas manifestantes condicionam negociação à renúncia de Mubarak

iG São Paulo |

AP
Manifestantes antigoverno no Cairo entregam para o Exército um homem (no centro, com lenço vermelho) que suspeitam ser partidário do presidente egípcio, Hosni Mubarak
O primeiro-ministro do Egito, Ahmed Shafiq, afirmou nesta quinta-feira que está "pronto para ir até a praça Tahrir" e dialogar com manifestantes contrários ao governo do presidente Hosni Mubarak, que há dez dias protestam na praça, localizada no centro do Cairo.

Segundo a agência Mena, Shafiq disse ter conversado com vários ativistas pró-democracia durante a madrugada desta quinta-feira. No entanto, os grupos que estão na praça Tahrir rejeitaram a negociação.

"Não vamos aceitar qualquer diálogo com o regime até que nossa principal seja atendida, ou seja, que o presidente Mubarak deixe o poder", afirmou Amr Salah, que representa alguns dos grupos de manifestantes.

A praça Tahrir continua em um clima de tensão nesta quinta-feira. Após um dia em que assistiram de braços cruzados a confrontos violentos nas ruas do Cairo, o Exército egípcio se posicionou nesta entre manifestantes pró e contra o presidente Hosni Mubarak, que desde quarta-feira se enfrentam na praça Tahrir, no centro da capital. Os choques deixaram pelo menos cinco mortos e mais de 800 feridos, segundo o Ministério da Saúde egípcio.

Segundo a AFP, tanques conseguiram fazer retroceder alguns dos governistas, impedindo que voltassem a se aproximar dos opositores. Os veículos militares impediram que alguns dos partidários de Mubarak cruzassem a ponta estratégica que leva à praça, epicentro da rebelião popular que pede a renúncia do presidente no poder desde 1981.

A rede de TV Al-Jazeera afirmou que militares egípcios deram tiros para o alto para dispersar manifestantes dos dois lados. Segundo o canal, novo choques causaram ao menos 50 feridos.

No primeiro dia de choques, os soldados não fizeram intervenções, apenas mantendo posição nos pontos de acesso à praça. Na manhã desta quinta-feira, centenas de soldados carregando rifles fizeram uma espécie de cordão humano entre os dois lados. Tanques do Exército também estão no local.

Segundo o ministro egípcio da Saúde, Ahmed Samih Farid, a maior parte dos mais de 800 feridos nos confrontos foi vítima de pedras arremessadas e de ataque com barras de ferro ou porretes.

Nesta quinta-feira, o primeiro-ministro do Egito, Ahmed Shafiq, pediu desculpas pelos ataques de partidários do governo contra os opositores. "Não há justificativa para atacar manifestantes pacíficos, e é por isso que estou pedindo desculpas", afirmou. "Foi um erro fatal."

O premiê prometeu uma investigação "para que todos saibam quem estava por trás deles". Há relatos de que entre os manifestantes pró-Mubarak havia policiais à paisana e pessoas que receberam dinheiro para participar dos protestos.

Também nesta quinta-feira, representantes dos partidos da oposição desmentiram o anúncio oficial do governo egípcio de que haviam começado a dialogar com o vice-presidente do país, Omar Suleiman, reiterando que só aceitam negociar após a renúncia de Mubarak. O dirigente do partido Ghad, Ayman Nour, disse que "as informações são falsas". "Não haverá diálogo com o sangue nem com os coquetéis molotov. O sangue ainda está derramado no solo da praça Tahrir."

Violência da quarta-feira

A violência eclodiu em torno das 14 horas locais (10 horas de Brasília), quando milhares de defensores de Mubarak se aproximaram da Praça Tahrir para enfrentar os membros da oposição, que na terça-feira prometeram manter seus protestos apesar do anúncio de Mubarak de que não tentará a reeleição nas eleições de setembro.

Sete horas depois, às 19 horas locais, os grupos rivais se preparavam para um confronto que parecia ter consequências imprevisíveis. Como havia bloqueios nas saídas da praça, os opositores do regime estavam cercados no local sem ter como sair. O clima era de extrema tensão.

Havia centenas de manifestantes com ferimentos na cabeça, causados por pedradas. Como gestos de convocação para uma batalha, homens quebravam calçadas para fazer pedras e portavam barras de ferro de um metro de comprimento.

Havia informações de que, do lado de fora da praça, estavam policiais à paisana possivelmente portando armas de fogo. A todo momento no fim da tarde, explodiam ondas de violência, com correria e gritos. A reportagem do iG ouviu sete tiros de munição não-letal por volta das 16h40 (12h40). Cerca de uma hora e meia depois, duas rajadas foram disparadas. Coquetéis molotov e granadas de gás lacrimogêneo também foram lançados, além de pedras.

Em cada uma das entradas da praça, tanques do Exército marcavam posição com barricadas, enquanto havia centenas de veículos militares no centro da capital. Mas os militares, que na terça-feira prometeram não usar a força contra os manifestantes, permaneceram inertes. Na prática, quem coordenava o controle de chegada à Tahrir eram voluntários, em redundantes barreiras de homens de braços dados, verificando os documentos e fazendo revista pessoal e de bolsas – a fim de evitar a entrada de armas.

Quando os partidários de Mubarak começaram a se aglomerar nesses postos de controle, por volta das 14 horas (10 horas de Brasília), com o Exército dividindo os dois grupos, as hostilidades começaram a escalar. Dos gritos com palavras de ordem de lado a lado, passaram aos xingamentos, e logo pedras do tamanho de abacaxis começaram a voar de lado a lado, ferindo quem estava próximo às barreiras.

Logo depois, os manifestantes pró-governo, que no início do dia eram expulsos da praça com alguma truculência, passaram a sair em meio a socos, tapas no rosto e aberta hostilidade.

No início dos choques, o iG presenciou ao menos 13 homens com o rosto sangrando, um deles com dentes quebrados, e apanhando enquanto eram levados para a divisa dos dois grupos. Um jornalista inglês também foi espancado ao tentar interromper uma dessas agressões.

À medida que o tempo passava, os ânimos se exaltavam cada vez mais. Havia militantes a favor de Mubarak montados a cavalo e até em camelos, prontos para uma inusitada guerra campal medieval. Também havia relatos de pessoas armadas com facões, facas e barras de ferro. Um helicóptero militar passou a sobrevoar a área.

O centro da praça se esvaziou e a multidão que, antes protestava sem violência, embora de forma raivosa, encaminhou-se para três saídas, que concentravam os opositores.

Em meio ao caos e à tensão que pairava no local, porém, coexistia uma peculiar tranquilidade em alguns bolsões na praça. Havia gente deitada nas barracas de camping usadas na vigília desde a semana passada, e centenas se ajoelhavam para rezar no horário da oração muçulmana. Além de manifestantes homens, havia muitas mulheres, algumas idosas, e crianças sitiadas no local. A situação era crítica.

Todas as saídas aparentavam estar bloqueadas para a multidão pelos tanques do Exército e pela ameaça das pedras e de uma multidão de opositores enfurecidos. Após tentar três diferentes rotas de escape, a reportagem do iG conseguiu deixar o local por uma via vicinal. O perímetro de segurança e o cerco dos manifestantes pró-Mubarak ultrapassava 1 km do centro da praça.

As estreitas e desertas ruas sob iluminação feérica nos arredores da praça revelaram o resultado de dias de protestos: dezenas de carros queimados e virados de cabeça para baixo, lixo espalhado por toda parte, assim como barricadas e homens armados de paus e pés de cabra. Com a saída da polícia das ruas, no fim da semana passada, moradores adotaram milícias e improvisaram postos de controle e revistas nos bairros, para evitar roubos e saques de residências.

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