Oposição diz que Kadafi tenta acordo, mas governo líbio nega

Rebeldes dizem que líder propôs renunciar se puder sair de país; porta-voz de Kadafi classifica informação de 'mentira'

iG São Paulo |

O líder líbio, Muamar Kadafi, tenta alcançar um acordo com os líderes da oposição, dizendo estar disposto a deixar o poder se tiver a garantia de que sairá em segurança do país e a promessa de que nem ele ou sua família enfrentarão a Justiça, disse uma autoridade opositora nesta terça-feira à rede de TV CNN.

Mas Musa Ibrahim, um porta-voz do governo líbio, negou com veemência a informação, afirmando que relatos sobre uma negociação com a oposição eram "mentiras". Os rumores sobre a possível oferta de diálogo de Kadafi haviam sido antecipados na segunda-feira pelo jornal árabe Asharq Alawsat .

Editado em Londres e com grande influência no mundo árabe, o jornal disse que, "segundo fontes líbias da cidade de Benghazi", epicentro dos protestos e reduto rebelde no leste do país, Kadafi teria pedido a um delegado para que falasse em seu nome anunciando sua disposição em abandonar o poder. O líder líbio teria imposto como condição que o ajudem a dirigir-se ao país de sua escolha e garantam que não seja perseguido no exterior e convocado perante tribunais internacionais.

Apesar das negativas do governo sobre a oferta, um membro da oposição disse que submeteu contrapropostas com várias demandas. Entre elas está a estipulação de que Kadafi tem de reconhecer imediatamente que não é o governante da Líbia, disse Amal Bugaigis, um membro do grupo de oposição chamado Coalizão 17 de fevereiro.

Por sua vez, o ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil, presidente do Conselho Nacional de Transição Interino (CNTR), afirmou que os rebeldes não perseguirão Kadafi pelos crimes de que é acusado se deixar o poder nas próximas 72 horas. "Se ele deixar a Líbia imediatamente, em 72 horas, e parar com os bombardeios, nós, líbios, não vamos persegui-lo por seus crimes", disse à rede de televisão Al-Jazeera.

Ele afirmou que o ultimato não será prorrogado. O grupo tem sede na cidade de Benghazi, no leste do Líbia. Bara Al-Khatib, também do CNTR, disse que a oposição não admite de forma alguma que a renúncia seja feita perante o Parlamento, em referência à oferta de Kadafi de entregar o poder ao comando rebelde na Casa.

"Que se reúna o Congresso Geral do Povo (Parlamento) para que Kadafi, durante a sessão de sua renúncia, entregue a autoridade ao Conselho Nacional sob a condição de que se garanta sua segurança, de sua família e seu dinheiro", indicaram fontes citadas pelo jornal árabe. Para Khatib, aceitar tão proposta "seria outorgar a Kadafi uma legitimidade da qual carece".

Outro líder rebelde, Mustafah Gheriani, que atua como ligação com a imprensa da oposição em Benghazi, rejeitou negociar com o líder líbio. " Ele sabe onde fica o aeroporto de Trípoli e o que deve fazer é ir embora e acabar com o banho de sangue", afirmou.

Confrontos internos

Os sinais de uma possível tentativa de negociação surgem quando a Líbia entra na quarta semana de choques violentos nesta terça-feira, com poucas dúvidas de que a crise se transformou em uma guerra civil.

Os rebeldes tomaram o controle de várias cidades, enquanto as forças leais a Kadafi vêm lutando com dureza para recapturar algumas delas.

As estimativas de mortos variam de centenas a milhares. Quase 200 mil fugiram do país, estimulando os grupos de direitos humanos a reiterados apelos aos dois lados para que permitam a entrada de auxílio humanitário.

A oposição líbia assumiu nesta terça-feira o controle da cidade de Zenten, 120 km ao sudoeste de Trípoli, mas as forças leais a Kadafi estão mobilizadas ao redor da localidade, informou uma testemunha à AFP por telefone.

"A cidade está controlada pela oposição, mas há caminhões com lança-foguetes ao redor da cidade", declarou o documentarista francês Florent Marcie, que está em Zenten. No domingo à noite foram registrados combates entre insurgentes e soldados ao norte da cidade. Segundo o francês, os opositores controlavam todas as cidades até Nalut, perto da fronteira com a Tunísia, mas Zenten é a posição rebelde mais próxima dos partidários de Kadafi.

Depois de manter Zawiya sitiada por cinco dias, as forças de Kadafi conseguiram retomar o controle de boa parte da cidade, a 50 quilômetros de Trípoli, informou nesta terça-feira a Al-Jazeera. Os rebeldes, porém, ainda controlam a Praça dos Mártires, a principal da cidade, disse uma testemunha.

Zawiya, onde fica uma das mais importantes refinarias do país, foi castigada com fogo de artilharia e morteiros, além das incursões dos carros de combate, que foram rechaçados durante pelo menos três dias. A comunicação com o interior da cidade foi perdida na noite do domingo, depois de a telefonia celular e a energia elétrica terem sido cortadas.

As sucessivas tentativas das forças leais a Kadafi de tomar a Praça dos Mártires, onde os rebeldes empreenderam uma desesperada defesa, causaram uma "carnificina", segundo moradores pró-revolucionários citados pela rede de TV árabe.

Por mais um dia seguido, aviões do regime líbio continuaram bombardeando o deserto ao leste do de Ras Lanuf, base mais avançada da oposição no leste da Líbia. Não foi possível saber se o ataque provocou vítimas ou danos. A cidade, que fica a 300 km ao sudoeste de Benghazi, é controlada desde sexta-feira pelos insurgentes.

Também há relatos de choques em torno da cidade litorânea de Ben Jawad, terminal petrolífero entre Sirte e Ras Lanuf, que também é alvo de bombardeios. Nos últimos dias, os rebeldes reforçaram suas tropas com mais combatentes e sobretudo de artilharia pesada.

Segundo a Al-Jazeera, os opositores apressam o envio de seus reforços, enquanto as brigadas de Kadafi mobilizam mais efetivos para conter o avanço revolucionário a Sirte, cidade natal do ditador líbio, de vital importância por ter armas e constituir o bastião das redes tribais pró-regime.

Os opositores redobraram sua determinação de chegar a Sirte como passo para libertar Misrata, isolada a leste pela terra natal de Kadafi e a oeste por Trípoli. O porta-voz do comitê revolucionário em Misrata, Hussam al Gherini, apelou por bombardeios seletivos da comunidade internacional para impedir a contraofensiva das brigadas leais ao líder líbio. As forças que apoiam Kadafi fizeram até o momento uma incursão blindada na cidade, repelida pelos rebeldes, deixando ao menos 21 mortos. Gherini exigiu que a comunidade internacional "deixe de fingir que faz algo quando não está fazendo nada".

A queda de Sirte, onde Kadafi estabeleceu a sede de alguns departamentos ministeriais e, sobretudo, montou um gigantesco pavilhão para abrigar cúpulas internacionais pode ser essencial para o desenrolar do conflito.

Também houve ataques contra o hotel Ouzou, em Benghazi, onde estão hospedados os jornalistas estrangeiros. O lançamento de dois artefatos explosivos por passageiros de um veículo na madrugada desta terça-feira causou danos materiais na entrada do local.

*Com EFE e AFP

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