Oposição convoca mais protestos na Síria após discurso de presidente

Bashar al-Assad culpa 'sabotadores' por levante popular no país, advertindo que não haverá reformas em um contexto de caos

BBC Brasil |

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Ativistas de oposição instaram pela continuidade dos protestos antigoverno na Síria, após o presidente do país, Bashar al-Assad, dizer nesta segunda-feira que as manifestações em curso são obra de "sabotadores e terroristas" .

AFP
Refugiados sírios protestam contra o presidente Bashar al-Assad em acampamento do Crescente Vermelho na cidade turca de Hatay, a dois quilômetros da fronteira com a Síria
O Comitê de Coordenação, órgão recém-criado pelos rebeldes para tentar obter legitimidade e para coordenar os protestos contra o regime, disse que o discurso de Assad apenas aprofundou a crise política no país e que os protestos não exigem mais apenas reformas. Ali Othman, porta-voz do comitê, declarou à BBC que uma mudança de regime seria a única solução para a crise.

Há relatos de que diversos protestos tiveram início após o discurso de Assad. Vídeos divulgados na internet mostram protestos nos quais os manifestantes gritam "Bashar, você é um mentiroso".

Discurso

No discurso transmitido em rede nacional pela TV, Assad alegou que os protestos antigoverno são obra de "sabotadores e terroristas" e disse que 64 mil pessoas são procuradas pelas autoridades. O pronunciamento foi o primeiro do presidente sírio em dois meses e apenas o terceiro desde o início dos protestos populares contra o governo, há três meses.

Ele afirmou que o governo deve ouvir as demandas populares por reformas políticas, mas argumentou que "uma fração pequena" de pessoas estaria se aproveitando da insatisfação dos sírios com os rumos do país. Assad disse também que as mortes durante os protestos populares são uma grande perda para o país e para ele pessoalmente, mas afirmou que os "sabotadores" que prejudicaram a imagem da Síria perante o mundo devem ser "isolados".

"O que está acontecendo hoje não tem nada a ver com reforma, tem a ver com vandalismo", afirmou Assad. "Não pode haver desenvolvimento sem estabilidade nem reforma por meio de vandalismo. Temos de isolar os sabotadores."

O presidente sírio também anunciou a formação de um comitê para estudar a reforma da Constituição. Entre as possíveis mudanças, segundo ele, estaria o fim do regime de partido único.

Reações

Reagindo ao discurso de Assad, o governo dos EUA disse desejar ver medidas concretas. "Bashar al-Assad vem fazendo promessas há anos. O que interessa agora são ações, não palavras", disse a porta-voz do Departamento de Estado americano, Victoria Nuland. "Em relação às alegações de que o que acontece no país é obra de sabotadores estrangeiros, nós simplesmente não aceitamos isso." Nuland disse também que o povo sírio continua protestando, o que mostra que "para eles, as palavras (de Assad) não são o bastante".

Também nesta segunda-feira, 27 ministros das Relações Exteriores da União Europeia reunidos em Bruxelas concordaram em endurecer sanções já existentes contra a Síria. Outros representantes estrangeiros criticaram o discurso de Assad.

O chanceler britânico, William Hague, classificou-o de "não convincente"; a chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, disse estar "desapontada"; o ministro francês, Alain Juppé, afirmou acreditar que "Assad atingiu o ponto de onde não pode mais retornar".

O ministro alemão das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, disse que a posição russa, contrária a condenar a Síria no Conselho de Segurança da ONU, vai na direção equivocada. Acredita-se que a Rússia e a China devam vetar qualquer resolução do Conselho de Segurança condenado a Síria, alegando que se trata de um assunto interno que não ameaça a segurança internacional.

Protestos

A oposição estima que ao menos 1,4 mil civis foram mortos e cerca de 10 mil presos nos três meses de protestos contra o governo. Há relatos de que mais de 300 soldados e policiais também teriam sido mortos nos confrontos com manifestantes.

A repressão aos protestos levou cerca de 11 mil a deixar a Síria em direção à vizinha Turquia. Assad está no poder há quase 11 anos, depois de ter sucedido seu pai, Hafez al-Assad, que comandou a Síria por 30 anos.

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