ONU retira funcionários não essenciais da Síria

Por questões de segurança, 26 membros da organização deixam país e Tunísia convoca embaixador; centenas são presos em Latakia

iG São Paulo |

AP
Imagem de vídeo amador mostra supostos veículos blindados e soldados em Latakia, Síria (16/08)
A Organização das Nações Unidas retirou funcionários não essenciais da Síria, onde o presidente Bashar al-Assad tenta reprimir um levante de cinco meses contra seu governo, informou uma autoridade da ONU nesta quarta-feira. Além da ONU, o chanceler da Tunísia anunciou que o país retirou seu embaixador da Síria por causa dos acontecimentos "perigosos" no país. 

O coordenador especial da ONU para o Líbano, Michael Williams, disse em comunicado que 26 funcionários não essenciais internacionais e as respectivas famílias foram retirados da Síria.

Segundo Farhan Haq, porta-voz da ONU em Nova York, a medida foi tomada por uma questão de segurança.

Mais de 200 membros do pessoal internacional da ONU se encontram na Síria, a metade trabalhando para o Alto Comissariado para os Refugiados e a UNDOF, a missão das Nações Unidas encarregada de supervisionar o respeito ao cessar-fogo nas Colina do Golan.

Williams afirmou também que estava "muito preocupado" com a situação na cidade costeira de Latakia, onde no sábado ativistas dizem que um ataque militar deixou 36 mortos. No total, segundo os grupos de defesa dos direitos humanos, a repressão das manifestações na Síria deixou aproximadamente 2 mil mortos entre os civis desde meados de março.

Além da ONU, o governo tunisiano convocou seu embaixador em Damasco para consultas, indicou nesta quarta-feira a agência oficial TAP, citando um funcionário do ministério de Relações Exteriores. Em 7 de agosto, a Arábia Saudita, peso pesado do mundo árabe, convocou seu embaixador em Damasco para denunciar a repressão na Síria, e no dia seguinte seu exemplo foi seguido por Kuwait e Bahrein.

Em um aumento de pressão contra o regime, a União Europeia, EUA e vários países árabes pediram nesta quarta-feira a realização de uma sessão extraordinária do Conselho dos Direitos Humanos da ONU para analisar a situação na Síria.

Todos os países árabes membros do Conselho - Jordânia, Catar, Arábia Saudita e Kuwait - uniram-se à petição. A solicitação foi feita por 20 países, mais que o terço necessário para convocar os 47 membros da organização, com sede em Genebra. Em 29 de abril, o Conselho de Direitos Humanos já condenou o fato de as forças de segurança da Síria terem disparado contra manifestantes e pediu uma investigação de outros supostos crimes.

Prisões e mortes

Soldados sírios detiveram várias pessoas na capital do país, Damasco, e em Latakia em ações policiais durante a madrugada, disseram ativistas. Depois de quatro dias de ataque com tanques para reprimir os protestos na cidade costeira e portuária, tropas invadiram casas em um distrito sunita e levaram centenas de presos a um estádio, disseram moradores.

As forças de Assad atacaram al-Raml al-Filistini, nomeado em homenagem a um campo de refugiados construído nos anos 1950, no final de semana, como parte da campanha para acabar com o levante popular de cinco meses, que se intensificou desde o começo do mês sagrado do Ramadã, em 1º de agosto.

Os ataques com bombardeios e disparos ininterruptos durante os últimos quatro dias obrigaram milhares de palestinos a fugir do um campo de refugiados. Latakia tem significado particular para Assad, que é da minoria alauíta. O presidente, de 45 anos, que se autodeclara campeão da causa palestina, veio de um vilarejo a sudeste, onde o pai dele está enterrado. A família de Assad, além dos amigos, controla o porto e as finanças da cidade.

"Bombardeios e sons de metralhadoras em tanques diminuíram hoje. Eles estão levando centenas para a Cidade Esportiva de al-Raml. Pessoas que são escolhidas a esmo de vários lugares em Latakia também estão sendo levadas para lá", disse um morador, referindo-se ao complexo esportivo que serviu de sede para os Jogos Mediterrâneos nos anos 1980.

"Os tanques continuam se posicionando, estão agora na rua principal Thawra", afirmou o morador, estudante universitário que não quis ser identificado. "Os relatos sobre as condições de detenção e tortura são cada vez mais alarmantes. Assad está cada vez mais acossado usando mais e mais violência e colocando mais sírios contra ele", afirmou um diplomata.

Em meio à repressão, o Ministério do Interior sírio declarou nesta quarta-feira que as forças de segurança, apoiadas por uma unidade do Exército, "completaram" sua missão e acabaram com os "grupos terroristas armados" no bairro de Al Raml.

AP
Imagem de video mostra cidade litorânea de Latakia (14/08)
Citando testemunhas em Latakia, o Observatório Sírio para Direitos Humanos disse que uma força de cerca de 700 oficiais de segurança se espalhou por al-Raml, com casas sendo demolidas na vizinhança "sob o pretexto de que não tinham alvarás de construção".

Fornecimento de armas

Apesar das pressões internacionais, a Rússia continua fornecendo armas à Síria, informou nesta quarta-feira o diretor da Rosoboronexport (agência russa de exportação de armas). "Enquanto não anunciarem sanções, enquanto não recebermos ordens ou instruções do governo, estamos obrigados a cumprir com nossas obrigações contratuais", disse Anatoly Isaikin.

Ele informou que a Rússia forneceu material militar e treinamento para aviões Yak-130 às tropas sírias. Na semana passada, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, pediu a Moscou o fim da venda de armas a Damasco para aumentar a pressão sobre Assad.

A comunidade internacional exige o fim da brutal repressão do regime sírio aos protestos, que não se limita unicamente ao território do próprio país. Segundo o jornal Wall Street Journal, diplomatas do país vêm intimidando os expatriados contrários ao regime, informando a Damasco onde os parentes desses dissidentes moram para que sejam ameaçados e detidos. O mesmo tipo de acusação contra o governo de Assad foi feito em junho pelo Reino Unido .

Citando fontes do governo de Barack Obama, o jornal informou que há evidências "confiáveis" de que o regime de Assad utiliza relatórios de suas embaixadas para ter como alvos os parentes dos que moram no exterior, em especial os sírio-americanos que participaram em protestos pacíficos nos EUA.

O jornal, que menciona entrevistas com seis sírio-americanos, afirmou que os funcionários da embaixada seguem e fotogravam os manifestantes. Além disso, diplomatas sírios, incluindo o embaixador, visitam comunidades árabes da diáspora para denunciar os dissidentes como "traidores". "Eles querem nos intimidar onde quer que estivermos", disse ao jornal o cientista Hazem Hallak, que mora na Filadélfia.

Hallak denunciou que seu irmão Sakner, que não estaria envolvido com atividades contrárias ao regime, foi torturado e assassinado em maio por agentes do serviço de inteligência da Síria ao retornar ao país após uma conferência nos EUA. Segundo ele, agentes na cidade síria de Allepo tentaram obter uma lista dos ativistas e funcionários do governo americano com os quais Sakher supostamente se reunira durante a estada nos EUA.

*Com Reuters, AP, AFP e EFE

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