ONU pede investigação sobre morte de Kadafi

Relatos confusos provocam dúvidas se líder deposto foi morto em combate ou executado sumariamente por combatentes do CNT

iG São Paulo |

O Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU pediu nesta sexta-feira uma investigação completa sobre as circunstâncias da morte do líder deposto da Líbia, Muamar Kadafi , afirmando que elas estão " incertas ". "Não está claro como ele morreu. Existe a necessidade de uma investigação e de mais detalhes para determinar se ele foi morto em meio aos combates ou após sua captura", disse o porta-voz Rupert Colville em Genebra.

Leia também: Saiba os relatos que indicam os últimos momentos de Kadafi

AP
Restos de carros que faziam parte de comboio de partidários de Kadafi atingido por ataque da Otan em Sirte, na Líbia (20/10)
Citando imagens de vídeo feitas na quinta-feira em Sirte, que mostram Kadafi inicialmente ferido, e depois morto em meio a vários combatentes inimigos, Colville acrescentou: "Há quatro ou cinco versões diferentes de como ele morreu. Como vocês sabem, há dois vídeos de celular, um o mostrando vivo e outro, morto. Analisados conjuntamente, eles são muito inquietantes."

Mas Colville não indiciou quem deveria assumir a investigação. Ele apenas recordou que o Conselho de Direitos Humanos da ONU determinou este ano a criação de uma comissão de especialista para analisar casos assassinatos, torturas e outros crimes na Líbia. "É um princípio fundamental do direito internacional que acusados de crimes graves devem ser julgados, se possível. Execuções sumárias são estritamente ilegais. É diferente se alguém é morto em combate", afirmou à TV Reuters.

Para Colville, "a morte de Kadafi coloca um ponto final a oito meses de extrema violência e de sofrimentos para o povo líbio", referindo-se ao levante popular iniciado em fevereiro que se tornou uma sangrenta guerra civil. "Uma nova era começa na Líbia, que deve responder às aspirações do povo, em particular em termos de direitos humanos", completou.

O ex-ditador líbio, que governou a Líbia por 42 anos , teria sido morto em decorrência de ferimentos a bala, quando tentava fugir de um grupo de combatentes do Conselho Nacional de Transição da Líbia (CNT), órgão que governa o país interinamente desde a deposição do regime.

Ele foi o primeiro dirigente árabe a morrer desde o início da Primavera Árabe , uma sequência de revoltas populares contra os regimes autoritários no norte da África e Oriente Médio.

Início do fim: fuga

A maioria dos relatos sobre a morte de Kadafi coincide em indicar que o cerco ao líder começou quando ele estava escondido com seus partidários nos poucos prédios que ainda controlavam em Sirte, sua cidade natal, que fica na costa do Mar Mediterrâneo.

Nas primeiras horas da quinta-feira, Kadafi, juntamente com alguns correligionários, teria decidido fugir acompanhado de um comboio de veículos ao perceber o avanço das tropas do governo interino. O comboio incluía o chefe do Exército, Abu Bakr Younis Jabr, e Mutassim, um de seus filhos (que também foi morto). Kadafi e sua comitiva teriam tentado atravessar uma região controlada pelo CNT.

O comboio de cerca de 75 veículos foi detectado por um avião não-tripulado dos EUA, que avisou a Otan, que começou a atacá-los por volta das 8h30 do horário local (4h30 de Brasília).

Em uma declaração nesta sexta-feira, a Aliança Atlântica disse que um dos bombardeios destruiu um veículo, o que fez com que o comboio se dispersasse. Outro jato então atacou cerca de 20 carros que dirigiam a uma grande velocidade em direção ao sul, destruindo ou danificando dez deles. "Mais tarde soubemos pela inteligência aliada e por outras fontes que Kadafi estava no comboio e que o ataque provavelmente contribuiu para sua captura", indicou a nota.

Captura

De acordo com relatos compilados pela agência Reuters, o coronel e possivelmente dois correligionários teriam conseguido escapar e se esconder dentro de uma tubulação de esgoto. Os milicianos se aproximaram do esconderijo improvisado e iniciaram um ataque com canhões antiartilharia. Mas, segundo o combatente Salem Bakeer, "não adiantou''.

''Depois, fomos a pé. Um dos homens de Kadafi saiu agitando o seu rifle no ar... assim que ele viu meu rosto, começou a atirar contra mim. Creio que Kadafi deve ter dado ordens para que eles parassem. 'Meu mestre está aqui, meu mestre está aqui', disse. 'Muamar Kadafi está aqui e está ferido''', relatou.

Salem Bakeer disse à Reuters: ''Entramos (na tubulação) e trouxemos Kadafi. Ele dizia: 'O que há de errado? O que há de errado? O que está acontecendo?' Então, o levamos e o colocamos em um carro."

O coronel foi capturado, com ferimentos graves, por volta do meio-dia local (8h em Brasília). Imagens exibidas pela TV Al-Jazeera o mostram atordoado e confuso gesticulando em meio aos rebeldes, indicando que foi submetido a maus-tratos antes de morrer (veja vídeo abaixo).

Vídeo mostra Kadafi vivo:

Novo vídeo divulgado nesta sexta-feira no Facebook mostra os momentos em que Kadafi sobe à força uma colina em direção a seus veículos após a captura. Os jovens gritam "Muamar, seu cachorro!" e batem nele, enquanto o líder deposto tenta limpar sangue que escorria do lado esquerdo de sua cabeça, pescoço e ombro. Com gestos, Kadafi pede paciência e indaga: "O que está acontecendo?"

A partir daí, a maioria dos relatos coincide em indicar que Kadafi morreu cerca de 30 a 40 minutos depois de ter sido colocado em uma ambulância para ser levado a Misrata, cidade costeira localizada a 192 km de Sirte e onde nasceram os milicianos que o mataram.

Médicos legistas informaram que ele morreu por um disparo na cabeça. Além disso, ele também foi atingido por disparos no peito e no abdome, na altura do umbigo. As informações são confusas, porém, sobre onde e como ele foi atingido por esses disparos fatais.

Versão oficial

Com a aparente intenção de dissipar a impressão de que o ex-ditador foi executado sumariamente, Mahmoud Jibril, o primeiro-ministro do CNT, afirmou na quinta-feira que um ''exame pós-mortem'' indicou que Kadafi foi morto por um disparo que o atingiu na cabeça durante um tiroteio entre as forças leais do CNT e seus partidários.

Segundo Jibril, Kadafi não resistiu ao ser encontrado na tubulação. Após ser retirado do local, foi atingido por um tiro no braço direito enquanto os combatentes o levavam a uma caminhonete. Ainda vivo, teria sido colocado no veículo, momento em que o disparo fatal na cabeça o teria atingido em meio aos tiroteios.

''Quando o carro estava em movimento, ele foi pego no fogo cruzado entre os revolucionários e as forças de Kadafi e foi atingido por uma bala na cabeça'', afirmou Jibril, citando o exame. Mas o premiê acrescentou que ''o legista não soube dizer se o tiro veio dos revolucionários ou das forças de Kadafi''. De acordo com Jibril, o coronel morreu apenas alguns minutos depois em um hospital.

Mas outros combatentes, comandantes e testemunhas não mencionam o fogo cruzado ou confrontos adicionais. Ouvidos pelo New York Times, especialistas estrangeiros que viram fotos do corpo de Kadafi dizem que os ferimentos parecem ter sido causados por disparos de arma a curta distância, e não por fogo de alta velocidade disparado por rifles de assalto à distância.

Depois de sua morte, seu corpo foi exibido nas ruas de Misrata no topo de um veículo cercado por uma grande multidão gritando "O sangue dos mártires não correrá em vão", de acordo com uma gravação divulgada pela Al-Arabiya. Outro vídeo mostra seu corpo sendo arrastado na rua. (veja vídeo abaixo)

Vídeo mostra suposto corpo de Kadafi. Atenção: imagens são fortes

*Com BBC, AFP, Reuters, AP e EFE

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