Ofensiva de governo sírio aprofunda sofrimento em Homs

Sírios usam alto-falantes para pedir doações de sangue e suprimentos médicos; ataques de hoje teriam matado ao menos 105

iG São Paulo |

Entre explosões de foguetes e de morteiros, os sírios usaram alto-falantes para pedir por doações de sangue e suprimentos médicos nesta quinta-feira na arrasada cidade de Homs, onde uma ofensiva de seis dias do governo criou uma profunda crise humanitária. Também há relatos de violência nas cidades de Zabadani e Daraa.

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As forças do governo tentam destruir bolsões de resistência em Homs, o epicentro do levante de 11 meses que aproximou o país ainda mais da guerra civil. O intenso bombardeio contra bairros como Baba Amr dificulta conseguir medicamentos e assistência para os feridos, e algumas áreas estão há dias sem eletricidade, disseram ativistas.

"Franco-atiradores estão em todos os telhados de Baba Amr, atirando nas pessoas", disse por telefone à Associated Press Abu Muhammad Ibrahim, um ativista em Homs. "Qualquer coisa que se mova, mesmo um pássaro, é alvo", completou com sons de explosões ao fundo. "A vida está completamente interrompida. É uma cidade de fantasmas."

Acredita-se que centenas morreram desde a manhã de sábado no bombardeio mais pesado que a cidade enfrentou desde o início do levante, em março. De acordo com os Comitês de Coordenação Local, uma rede de ativistas antigoverno que monitora a violência, houve 105 mortes em todo o país nesta quinta-feira, incluindo 95 em Homs, a terceira maior cidade do país. Não é possível verificar os dados de forma independente porque o regime do presidente Bashar al-Assad não permite o trabalho independente de jornalistas no país.

"Esse assalto brutal nas áreas residenciais mostra o desprezo das autoridades sírias pelas vidas dos cidadãos em Homs", disse Anna Neistat, diretora associada de emergências da Human Rights Watch (HRW). De acordo com essa ONG, testemunhos e vídeos analisadas por especialistas em armas do grupo sugerem que as forças sírias vêm usando armas de longo alcance, como morteiros, na ofensiva. "Essas armas realizam disparos indiscrimados em áreas densamente povoadas", disse o HRW.

Os feridos lotam hospitais e clínicas improvisados, e há crescentes temores de que o cerco à cidade poderia fazê-la ficar sem medicamentos em breve. "Há remédios nas farmácias, mas é muito difícil transportá-los para as clínicas em campo. Elas não conseguem os medicamentos para os feridos", disse o ativista sírio Mohammed Saleh à AP por telefone. Segundo ele, Baba Amr está sem eletricidade desde sábado.

A ofensiva em Homs começou após informações não confirmadas de que desertores do Exército e outros opositores armados estavam estabelecendo postos de controle e tomando algumas áreas da cidade, que é a capital da maior província síria - indo da fronteira do Líbano à fronteira do Iraque. Se os rebeldes continuarem ganhando terreno ali, alguns acreditam que eventualmente poderiam estabelecer uma zona parecida a Benghazi, na Líbia, de onde foi lançado o bem-sucedido levante contra Muamar Kadafi no ano passado.

Diplomacia contra a violência

Enquanto a violência persiste, a comunidade internacional procura novas estratégias diplomáticas para acabar com a crise no país, após Rússia e China terem vetado uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o regime do presidente Bashar Al-Assad.

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O governo sírio diz que uma conspiração externa liderada pelo Ocidente e por Israel é responsável pelo levante popular iniciado em março. Segundo Damasco, gangues armadas e terroristas estão por trás dos tumultos, e não manifestantes que buscam uma mudança democrática. O levante começou com protestos em sua maioria pacíficos, mas transformou-se em uma insurgência armada contra Assad em muitas áreas, estimulando temores de que o país caminha para uma guerra civil.

O número de vítimas no conflito entre o governo e manifestantes varia de acordo com diferentes contagens. Grupos de direitos humanos dizem que 7 mil foram mortos por tropas do governo desde março. O governo afirma que 2 mil integrantes das suas forças de segurança foram assassinados por ativistas. A ONU interrompeu a contagem de mortos que fazia, afirmando que é impossível averiguar dados com independência. O último dado divulgado pela ONU, em janeiro, é de que 5,4 mil mortos.

A repressão do regime contra a dissidência o deixou quase completamente isolado internacionalmente, à medida que nações impuseram sanções e retiraram embaixadores. As sanções preudicam a economia do país, mas fracassaram em parar as ofensivas militares. Também há temores de que o conflito está tomando tons sectários em algumas áreas, incluindo Homs.

A população de 22 milhões da Síria é majoritariamente muçulmano sunita, mas Assad e a elite governante pertence aos alauítas, que corresponde cerca de 10% da população. O domínio político pelos alauítas alimentou no país o ressentimento, que Assad tentou conter ao implantar a ideologia rigidamente secular de seu Partido Baath.

Mas com a eclosão do levante, com os sunitas representando o centro da revolta, Assad recorreu fortemente à sua base de poder alauíta para reprimir a resistência, alimentando tensões sectárias como aquelas que abasteceram guerras civis no Iraque e Líbano.

Uma autoridade de alto escalão da Liga Árabe afirmou que a organização discutirá no domingo se reconhece o Conselho Nacional Sírio, órgão que reúne integrantes da oposição, como representante legítimo da Síria. Além disso, a Liga pode permitir que o Conselho abra escritórios diplomáticos nas capitais dos 22 países árabes que integram o grupo.

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Imagem divulgada por ativistas em 08/02 mostra homem chorando ao lado de corpo em hospital de Homs, na Síria
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que o chefe da Liga Árabe planeja enviar observadores de volta à Síria e levantou a possibilidade de uma missão conjunta entre as duas organizações. Ban não deu detalhes sobre como essa missão funcionaria, mas o objetivo parece ser dar respaldo ao grupo regional, que retirou seus observadores da Síria por preocupações de segurança.

*Com AP

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