Obama: 'Termos impostos pela ONU para Kadafi são inegociáveis'

Líder dos EUA descarta envio de tropas terrestres à Líbia, mas diz que líder líbio tem de parar ofensiva se quiser evitar ataques

iG São Paulo |

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O presidente dos EUA, Barack Obama, faz pronunciamento sobre a Líbia na Casa Branca, Washington
O presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou nesta sexta-feira que os termos impostos pela resolução de quinta-feira do Conselho de Segurança da ONU não são negociáveis e têm de ser acatados pelo regime de Muamar Kadafi imediatamente se ele quiser evitar uma ação militar da comunidade internacional. "Uma vez mais Kadafi tem uma escolha", disse, listando uma série de termos que teriam de ser respeitados. "Se ele não os cumprir, a comunidade internacional imporá consequências, e a resolução será levada adiante com ação militar", disse.

Obama afirmou que, se Kadafi não parar todos os ataques contra civis, os EUA se unirão à ação militar. Ao mesmo tempo, porém, ele descartou o envio de forças terrestres americanas para a Líbia, afirmando que ataques aéreos serão usados tendo como objetivo único proteger a população civil.

Entre os termos inegociáveis, estaria o afastamento das forças de Kadafi de cidades no leste do país, onde ameaçavam lançar uma ofensiva final contra o reduto rebelde de Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia. Além disso, o presidente americano exigiu que se restabeleça o fornecimento de combustível, luz e água para todas as áreas do país.

Segundo o líder americano, não pode haver dúvidas sobre quais são as intenções de Kadafi, "porque ele as deixou claras". "Ontem, falando sobre a cidade de Benghazi, que tem quase 700 mil habitantes, ameaçou: 'Não teremos misericórdia ou piedade.' Nenhuma misericórdia com seus próprios cidadãos", disse Obama.

Em uma breve aparição na Casa Branca, Obama disse que a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, viajaria a Paris no sábado para participar de um encontro dos aliados para discutir os próximos passos na Líbia, onde Kadafi lançou desde 15 de fevereiro uma repressão brutal contra rebeldes que tentam pôr fim a seu reinado de quase 42 anos.

Obama lembrou que os EUA e outras nações impuseram sanções à Líbia, congelaram bens do líder e entregaram ajuda humanitária para países vizinhos para ajudar a amenizar o sofrimento dos milhares que fogem do conflito.

A resolução determinou a imposição de uma zona de exclusão aérea sobre o país e autorizou ações militares para proteger a população civil, incluindo bombardeios. A medida recebeu dez votos a favor e nenhum contra, mas cinco países - incluindo China e Rússia, membros permanentes do Conselho, e o Brasil - se abstiveram.

Segundo Obama, a resolução foi adotada em resposta ao pedido da população líbia, que vinha reivindicando uma intervenção externa no conflito. "(Kadafi) perdeu a confiança de seu próprio povo e a legitimidade para governar", afirmou. "Kadafi poderia cometer atrocidades contra seu próprio povo se não agíssemos."

O pronunciamento foi feito depois de os EUA, Reino Unido e França manterem a pressão sobre a Líbia nesta sexta-feira, afirmando que a declaração de um cessar-fogo repentinamente anunciado pelo regime de Muamar Kadafi não era suficiente, pelo menos por enquanto, para evitar uma ação militar contra suas forças.

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Rebelde líbio é visto na linha de frente perto de Sultan, sul de Benghazi
Ecoando palavras ditas horas antes pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, a secretária de Estado americana afirmou que Washington não "se deixará impressionar por palavras", afirmando que os aliados "precisam ver ações no terreno, o que ainda não está claro".

Apesar de o chanceler líbio, Moussa Koussa , ter anunciado que o regime Kadafi paralisará todas as operações militares, há informações de que confrontos ainda ocorrem em pelo menos duas cidades: Ajdabiya e Misrata.

Ao anunciar o cessar-fogo, Koussa disse que a medida "fará o país voltar à segurança" e protegerá todos os líbios. Ao mesmo tempo, porém, ele criticou a autorização a uma ação militar internacional no país, classificando-a de violação à soberania líbia. Segundo a Eurocontrol, depois da aprovação da resolução, a Líbia fechou seu espaço aéreo.

Em entrevista coletiva depois de se reunir com o vice-primeiro-ministro e ministro de Relações Exteriores da República da Irlanda, Eamon Gilmore, HIllary disse que a resolução aprovada na quinta-feira pelo Conselho de Segurança (CS) da ONU "é um passo para pôr fim à violência na Líbia".

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) disse que continuará com o plano militar previsto para uma possível operação na Líbia apesar do cessar-fogo, disse a porta-voz da organização, Carmen Romero. "O planejamento continua", disse Carmen, afirmando que os aliados entraram em acordo nesta sexta-feira para finalizar o mais rápido possível seus preparativos para uma ação militar.

Segundo fontes aliadas, as autoridades militares da Otan podem finalizar no domingo o plano para impor a zona de exclusão aérea para frear os bombardeios contra os rebeldes líbios. Essa zona requereria ataques aliados contra algumas infraestruturas, que podem ser lançados unilateralmente por países como França e Reino Unido mesmo antes do consenso dos 28 membros da Aliança.

Preparativos militares

A França anunciou nesta sexta-feira que a ação militar ocidental contra a Líbia começará nas próximas horas. Perante a Câmara dos Comuns, o primeiro-ministro britânico disse que os preparativos para desdobrar no Mediterrâneo os aviões que participarão da imposição da zona de exclusão aérea já começaram. Cameron disse a BBC sobre Kadafi: "Vamos julgá-lo por suas ações, e não por suas palavras."

Nas próximas horas, os aviões estarão operacionais nas bases das quais poderão voar para aplicar a resolução aprovada pela ONU. Cameron explicou que os aviões da RAF (a Força Aérea Real do Reino Unido) que participarão da operação serão caças-bombardeiros Tornado e Typhoon.

O porta-voz francês e ministro do Orçamento, Francois Baroin, disse à rádio RTL que a ação militar ocorrerá "rapidamente... nas próximas horas". Ele afirmou que isso não se trata de uma ocupação, mas sim de uma ajuda às forças de oposição ao regime de Kadafi.

Por outro lado a Itália excluiu por enquanto a possibilidade de que seus aviões participem das operações, embora esteja disposta a ceder três de suas bases para a operação.

Segundo o correspondente da BBC em Paris Christian Fraser, a França pode enviar à Líbia jatos Mirage que estão posicionados em bases militares na ilha da Córsega. Fraser diz ainda que outros aviões franceses posicionados na costa do Mediterrâneo, com ajuda de sistemas aéreos de alerta e controle, têm sido enviados a missões específicas 24 horas por dia desde quinta-feira da semana passada.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, já defendia ataques "cirúrgicos" nos bunkers de controle e nos sistemas de radar de Kadafi. No entanto, segundo Fraser, a França não descarta realizar bombardeios contra forças líbias em terra.

O correspondente da BBC afirma que a participação da França nessas ações é uma grande vitória polícia de Sarkozy, cujo governo havia sido criticado por não apoiar o levante popular na Tunísia.

O ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, disse que a resolução do Conselho de Segurança constitui uma "resposta positiva à reivindicação da Liga Árabe" a favor de medidas para proteger os civis líbios, indo ao encontro dos esforços da França, Reino Unido, Líbano e EUA. "É necessário tomar essas medidas para evitar um maior derramamento de sangue", disse Hague.

Após a votação da ONU, o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, um dos maiores defensores da intervenção militar contra Kadafi, falou por telefone por cerca de meia hora com o presidente dos EUA, Barack Obama.

Estados Unidos

Segundo fontes ouvidas pela BBC, é improvável que os EUA participem da ofensiva no início, que devem ter apoio logístico de nações árabes. Concentradas na cidade de Benghazi, no leste do país, forças contrárias a Kadafi comemoraram o anúncio da ONU.

AFP
Líbios cebebram em Benghazi decisão do COnselho de Segurança de impor zona de exclusão aérea e autorizar ações militares na Líbia (17/03/2011)
A resolução, de número 1.973, foi proposta por Reino Unido, França e Líbano e contou com apoio dos EUA. O ministro francês de Relações Exteriores, Alain Juppe, apresentou a proposta dizendo que "na Líbia, por várias semanas, a vontade do povo tem sido alvejada pelo coronel Kadafi, que está atacando seu próprio povo". "Não podemos chegar tarde demais", disse Juppe.

Segundo a embaixadora americana na ONU, Susan Rice, a "resolução deve enviar uma forte mensagem ao coronel Kadafi e seu regime de que a violência deve parar, a matança deve parar e o povo da Líbia deve ser protegido e ter a oportunidade de se expressar livremente".

*New York Times, AP, BBC e EFE

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