Obama: EUA e Otan avaliam opção militar contra violência na Líbia

Presidente americano autoriza US$ 15 milhões em auxílio humanitário ao país; líder da Otan adverte sobre reação internacional

iG São Paulo |

O presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou nesta segunda-feira que os EUA e a Organização do Atlântico Norte (Otan) ainda consideram uma resposta militar para a violência na Líbia. Falando na Casa Branca, Obama disse que os EUA ficarão ao lado da população líbia enquanto ela enfrenta uma violência "inaceitável". Ele também disse que autorizou um adicional de US$ 15 milhões em auxílio humanitário ao país.

O líder americano enviou uma forte mensagem ao líder líbio, Muamar Kadafi, dizendo que ele e seus partidários serão responsabilizados pela violência. Aviões líbios lançaram ataques múltiplos nesta segunda-feira contra rebeldes da oposição no segundo dia de uma dura repressão do governo para impedir o avanço opositor para a capital, Trípoli.

AP
O presidente dos EUA, Barack Obama (à dir.), ao lado da premiê australiana, Julia Gillard, durante encontro na Casa Branca
Obama fez o pronunciamento nesta segunda-feira ao lado da primeiro-ministra australiana, Julia Gillard, que está em Washington para encontros.

Em meio à intensificação da violência no país do norte da África, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, exigiu nesta segunda-feira uma transição líbia para a democracia e advertiu o regime de Kadafi que haverá uma reação internacional se continuar a violência.

"Se Kadafi e suas forças militares continuarem atacando sistematicamente a população, não posso imaginar que a comunidade internacional fique somente olhando", disse Rasmussen sobre uma possível intervenção no país. Segundo ele, os ataques contra populações civis na Líbia podem constituir crimes contra a humanidade.

Ao mesmo tempo, ele deixou claro que a Aliança não tem por enquanto prevista nenhuma atuação militar, ressaltando que só intervirá se for solicitada e contar com um mandato apropriado das Nações Unidas. Previamento, o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, disse que qualquer intervenção militar estrangeira na crise da Líbia deve ter apoio internacional.

O procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI), Luis Moreno Ocampo, abriu na semana passada uma investigação contra Kadafi e altos funcionários do regime por supostos crimes contra a humanidade relacionados à repressão da revolta popular desde 15 de fevereiro.

"A resposta atroz de Kadafi aos protestos causou uma crise humanitária em nossa porta de entrada (Europa), que diz respeito a todos", afirmou Rasmussen.

Zona de exclusão aérea

O Ministério de Relações Exteriores da França disse nesta segunda-feira que a Liga Árabe é favorável a uma zona de exclusão aérea na Líbia. O anúncio foi feito um dia depois do encontro no Egito entre o secretário-geral da organização, Amr Musa, e o chefe da diplomacia de Paris, Alain Juppé.

Segundo porta-voz Bernard Valero, existem "trabalhos preliminares" que estudam "todas as opções para enfrentar a evolução da situação no terreno". "Desejamos pôr tudo em andamento para contribuir para a saída da crise na Líbia. Levamos esses trabalhos em estreita coordenação com todas nossos parceiros, os países envolvidos e o conjunto das instâncias internacionais e regionais", disse.

França e Grã-Bretanha tentam obter a aprovação do Conselho de Segurança da ONU para estabelecer uma proibição de sobrevoar o espaço aéreo líbio.

Os EUA, porém, estão cautelosos em estabelecer a medida , que poderia levar semanas para ser organizada. No início da semana passada, o secretário de Defesa dos EUA afirmou que a medida requereria um ataque para enfraquecer a defesa aérea líbia. "Um zona de exclusão aérea começa com um ataque à Líbia para destruir suas defesas aéreas. Dessa forma é possível sobrevoar o país e não se preocupar com a possibilidade de nossos soldados serem abatidos", disse.

Gates afirmou que uma zona de exclusão aérea na Líbia "também requer mais aviões do que se podem encontrar em apenas um porta-aviões, portanto, é uma grande operação em um país grande".

Segundo a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, os EUA estão longe de uma decisão sobre a questão. "Há muita prudência em relação às ações que poderíamos empreender em âmbitos distintos do apoio a missões humanitárias", acrescentou.

O chanceler britânico, William Hague, disse no domingo que a zona de exclusão aérea sobre a Líbia ainda está no estágio inicial de planejamento e descartou o uso de forças terrestres.

Opções militares dos EUA

Os analistas de defesa dos Estados Unidos estão preparando uma série de opções militares para a Líbia no caso de Washington e seus aliados decidirem intervir no país, informou o jornal New York Times. O jornal, que cita fontes anônimas do governo, uma das opções em análise seria a simples interferência nos sinais de aviões no espaço aéreo internacional, o que confundiria as comunicações do governo líbio com as unidades militares. Na noite desta segunda-feira, o Departamento de Estado descartou ceder armas aos rebeldes líbios, já que o embargo sobre armas para a Líbia, aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU, impediria a manobra .

A mais recente força americana a se aproximar, apesar de com uma certa distância, de Trípoli, capital do país do norte da África, é a 26ª Unidade Expedicionária da Marinha, a bordo de dois navios anfíbios, o Kearsarge e o Ponce, segundo o NYT.

A unidade tem uma força completa por ar, mar e terra que pode avançar rapidamente por centenas de quilômetros. Segundo o jornal, outra tática seria fornecer armas e outros materiais aos rebeldes líbios. Outras opções incluem a inserção de pequenas equipes especiais de operações para auxiliar os rebeldes, como aconteceu no Afeganistão para derrubar a milícia islâmica do Taleban em 2001.

Essas equipes são treinadas para melhorar a eficiência dos combatentes com muita rapidez, com treinamento, equipamento e liderança, completou o New York Times.

Combates em terra

As discussões sobre a intervenção internacional e o estabelecimento da zona de exclusão aérea acontecem enquanto se intensificam os confrontos na Líbia, com os rebeldes anti-Kadafi afirmando que tentam se reagrupar após uma ofensiva aérea e terrestre lançada por forças leais ao líder líbio.

Nesta segunda-feira, aviões militares de Kadafi bombardearam Ras Lanouf, no leste do país, um estratégico enclave petrolífero controlado pelos rebeldes desde sexta-feira. As duas bombas, porém, não deixaram vítimas ao atingir uma zona desértica. Um dia antes, uma forte ofensiva governista paralisou o avanço rebelde para Sirte, cidade natal e reduto de Kadafi localizado a 200 quilômetros de Ras Lanouf.

Mohamad Samir, um coronel do Exército que luta ao lado dos opositores, disse à Associated Press que suas forças precisam de reforços do leste depois do revés de domingo. "As ordens são para ficar aqui e guardar a refinaria, porque o petróleo é o que faz o mundo andar", disse o guerrilheiro rebelde Ali Suleiman, falando de um dos postos de controle estabelecidos nos arredores de Ras Lanouf.

Os confrontos de domingo pareceram indicar o início de uma nova fase no conflito, com o regime de kadafi recorrendo a seu poder aéreo contra rebeldes que tentam pôr fim a seu governo de quase 42 anos. O pesado uso de bombardeios expõe a preocupação do regime de que é necessário supervisionar o avanço rebelde em direção a Sirte.

As forças anti-Kadafi teriam um impulso moral se capturassem a cidade, e isso tiraria do caminho um grande obstáculo na marcha para Trípoli. O levante contra Kadafi, que começou em 15 de fevereiro, vem sendo mais sangrento do que as revoltas relativamente rápidas que depuseram os líderes autoritários dos vizinhos Egito e Tunísia .

A Líbia parece se encaminhar para uma guerra civil que pode durar por semanas ou até mesmo meses. Ambos os lados parecem ser relativamente fracos e mal treinados, apesar de as forças de Kadafi ter a vantagem em número de membros e em equipamentos.

Centenas, se não milhares, morreram desde o início da turbulência - as fortes restrições à imprensa tornam quase impossível conseguir um total preciso. Mais de 200 mil deixaram o país, sendo a maioria trabalhadores estrangeiros. O êxodo está criando uma crise humanitária através da fronteira com a Tunísia - outro país do norte da África em tumulto depois da mobilização que levou à renúncia de Zine El Abidine Ben Ali.

Se os rebeldes continuarem a avançar, mesmo que lentamente, a grande dependência de Kadafi no poder aéreo poderia estimular o Ocidente a impor a zona de exclusão aérea sobre o país. A ONU já impôs sanções contra a Líbia, e os EUA moveram suas forças militares para mais perto da área costeira do país enquanto exige a renúncia de Kadafi.

*Com AP, AFP, Reuters e EFE

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