Novo premiê do Egito garante que terá mais poderes que antecessor

Nomeação de Kamal Ganzouri é reprovada na praça Tahrir, ao mesmo tempo em que marcha menor pró-militares circulava pelas ruas

iG São Paulo |

A junta militar que governa interinamente o Egito confirmou nesta sexta-feira a nomeação de um ex-premiê da era Hosni Mubarak (1981 - 2011) para liderar o próximo governo. Kamal Ganzouri, 78 anos, foi primeiro-ministro entre 1996 e 1999, tendo sido vice-ministro e ministro do Planejamento antes de cumprir seu principal mandato. Ele também foi governador durante a presidência de Anwar Sadat (1970 - 1981).

Assim como todos os dias nessa semana, a praça Tahrir no Cairo foi mais uma vez palco de volumosos protestos anti-militares. Porém nessa sexta, uma manifestação em favor do Conselho Supremo das Forças Armadas - que reuniu menos público - tomou conta da praça Abbasiya, reduto de Mubarak.

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AP
Kamal Ganzouri, novo premiê egípcio, concede entrevista a jornalistas no Cairo

A nomeação de Ganzouri provocou uma reação negativa na praça Tahrir, segundo a agência de notícias Associated Press, pelo fato de ele ter pertencido ao governo de Mubarak , deposto do poder após revoltas populares que abalaram o país em fevereiro, no contexto da Primavera Árabe.

Em comunicado exibido pelas redes de TV, Ganzouri disse que os militares concederam a ele poderes maiores do que teve seu antecessor, Eram Sharaf, e que ele não teria aceitado o convite se acreditasse que o chefe da junta, Hussein Tantawi, tivesse qualquer intenção de permanecer no governo, como alegam os manifestantes que se reuniram nesta sexta para uma nova rodada de protestos contra a junta militar.

"Os poderes concedidos a mim excedem os de qualquer mandatos similares", disse, parecendo desconfortável, procurando pelas palavras e fazendo repetidas pausas enquanto falava. "Eu terei plena autoridade, então, estou pronto para servir meu país."

Ele também afirmou que não terá condições de formar um governo antes do início das eleições parlamentares, como era desejo da junta militar. Hussein Tantawi afirmou que vai estender o período de votação para dois dias em cada uma das rodadas das eleições, em um aparente esforço para impedir um aumento da abstenção devido aos recentes protestos que tomam conta do país.

Apesar dessa mudança, o conselho militar reafirma que as eleições parlamentares terão início na segunda-feira, conforme o planejado. No primeiro dia, nove província deverão ir às urnas, incluindo Cairo e a cidade portuária de Alexandria. As eleições acontecerão em múltiplas etapas com fim previsto para março.

Protestos

Mais de 100 mil manifestantes se reuniram na praça Tahrir no centro do Cairo para realizar o maior protesto desde que a nova fase das manifestações tiveram início, com os ativistas reivindicando a saída imediata dos militares do poder, para que o país possa finalmente ser estabilizado.

"Ilegítimo, ilegítimo", gritava a população reunida na praça Tahrir em referência à indicação de Ganzouri ao cargo de premiê. "Ele não só foi primeiro-ministro durante a era Mubarak, como também foi parte do antigo regime por um total de 18 anos", disse o manifestante Mohammed el-Fayoumi, 29 anos. "Por que nós tivemos uma revolução então?"

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Ganzouri substitui Essam Sharaf, que pediu demissão no início da semana após nove meses no cargo devido aos violentos confrontos da polícia com os manifestantes. Sharaf foi criticado por ser fraco e ter se submetido aos generais do Exército. "Ganzouri é o novo Sharaf. Ele é o velho regime", dise Nayer Mustafa, 62 anos. "A revolução já foi sequestrada uma vez. Nós não deixaremos isso acontecer de novo."

Ao menos dois partidos, os salafistas de Al Nour e o grupo da Gamaa Islamiya, participam da manifestação desta sexta. O principal movimento islamita, a Irmandade Muçulmana, afirmou que não estaria presente para "não impor obstáculos ao processo eleitoral". A primeira etapa da votação parlamentar egípcia está marcada para o dia 28.

O prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, líder pró-democracia do país, foi à praça e participou das orações. Em comunicado, justificou a rápida permanência dizendo que "não estava ali para fazer campanha eleitoral".

Ambulantes vendendo alimentos percorrem a praça misturados aos manifestantes que gritam palavras de ordem como "liberdade, liberdade" e "o povo quer a queda do marechal", uma alusão a Hussein Tantawi, chefe da junta militar. Diante da possibilidade de confrontos entre manifestantes e policiais, o Exército pediu na quinta-feira "união e controle para evitar que o país entre em um estado de caos".

Também nessa sexta-feira, a Irmandade Muçulmana estava realizando um protesto intitulado "Vitória para Jerusalém", e uma passeata pró-Exército tomava conta das ruas, no bairro nobre que circunda a praça Abbasiya. Partidários do Conselho Supremo das Forças Armadas se reuniram em número menor do que os presentes na praça Tahrir.

Alguns deles seguravam cartazes, onde diziam: "Aos defensores na nação, nós dizemos obrigada". De acordo com a TV estatal, eles gritavam "Povo e Exército estão unidos", "Quem ama o Egito não destroi o Egito" e "Basta! Basta! Deixem as pessoas viverem!"

Reuters
Partidário da junta militar se une à manifestação em prol do conselho das Forças Armadas do Egito

Jehane Noujaim, um documentarista com dupla cidadania preso na quarta-feira foi libertado, afirmou nesta sexta sua advogada Ragia Omram. Três universitários americanos detidos nessa semana por jogar coquetel Molotov conseguiram uma ordem de soltura. Segundo o advogado de um deles, ouvido pela Associated Press, eles já estariam a caminho do aeroporto para retornar aos EUA.

EUA

Também nessa sexta-feira, os Estados Unidos pediram que a junta militar que governa o Egito transfira o poder para os civis “o mais rápido possível”, num sinal de apoio aos manifestantes que lotam a Praça Tahrir.

Saiba mais: EUA pedem rápida transição para governo civil no Egito

Em comunicado, a Casa Branca afirmou que os EUA “acreditam que o novo governo do Egito precisa ganhar autoridade real imediatamente”. “A total transferência de poder para um governo civil deve acontecer de maneira justa e inclusiva que responda às aspirações do povo egípcio o mais rápido possível", disse o texto.

O governo do presidente Barack Obama também lamentou as dezenas de mortes registradas durantes os choques entre policiais e manifestantes que aconteceram nos últimos dias. “Fazemos um apelo para que as autoridades egípcias investiguem as circunstâncias dessa morte”, diz o comunicado. “Mas a situação exige uma solução mais fundamental, decidida pelos egípcios, que seja consistente com os princípios universais”.

“O Egito já superou obstáculos no passado e fará o mesmo novamente”, acrescentou o comunicado.

Com AP e EFE

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